“Proxy”, VVAA

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VVAA – Proxy, [s.l.], Divergência, 2016

Sinopse: Bem-vindo, [Utilizador/a]. Proxy é o culminar de vários anos de trabalho e de estudo em leitura psico-criativa. Seis mentes, seis futuros que nunca existiram. Seis mundos. Os pináculos de Nova Oli e as entranhas de VitaVida. Modulações eléctrico-sonoras e o dilema da artificialidade. O poder da máquina e o desmoronar de uma simples equação.

Preste atenção. Aquilo que vai ler é estritamente confidencial.

Proxy é a primeira experiência antológica de cyberpunk em Português. Seis autores acompanharam-nos nesta viagem: Vitor Frazão, Júlia Durand, Carlos Silva, Marta Santos Silva, José Pedro Castro e Mário Coelho – seis dos melhores jovens autores de Ficção Especulativa nacional.

Opinião: Como indicado na sinopse, “Proxy” trata-se de uma antologia cyberpunk constituída pelos contos de seis autores portugueses que se aventuraram pelo género: a maioria salientou, aquando o lançamento, ter sido a primeira excursão ao nicho. Talvez por isso mesmo tenham levado para as respectivas histórias elementos com que já se encontravam mais familiarizados, gerando um moldar interessante – e caracterizador – do género pela sua respectiva experiência de vida. De um modo geral, a qualidade entre os contos encontra-se equilibrada, ajudando a que a antologia seja encarada como um todo e não como uma manta de retalhos. O prefácio, de João Barreiros, segue o tom e discurso já habituais do autor, seguindo um carácter generalista que pouco dá a entender sobre o cyberpunk em específico ou os contos da antologia em que se insere.

Seguem as opiniões individuais a cada conto:

Deuses Como Nós, Vítor Frazão: Começo por salientar o que mais gostei neste conto: o conceito e o relance que tivemos do worldbuilding. O autor segue a linha da “mercenária” apanhada entre a querela de dois “grandes” e respectivas visões de certo e errado, que não sem razão é uma das trops favoritas de leitores e espectadores. Contudo despertou-me muito mais o interesse e a atenção a ideia da venda de objectos que nos são agora mundanos como antiguidades e artefactos, chegando a sua venda-e-compra a relacionar-se com o tráfico ilegal. Não poucas vezes considero os detalhes como diferenciadores de uma história – em Deuses Como Nós, foi esta visão.

Em contrabalança: A estrutura seguida encontra-se um pouco caótica, tornando o conto confuso nos seus inícios. Apenas mais adiante, quando já grande parte do enredo se desenrolou, é que o leitor se consegue situar. Outro ponto negativo a nível narrativo prende-se com a protagonista: sabendo-a mulher, não consegui deixar de ter a sensação de ser um homem o narrador. Por fim, trata-se do conto que apresenta maior quantidade de gralhas, algo facilmente “limável” com uma revisão extra.

Modulação Ascendente, Júlia Durand: Não sendo uma luta do indivíduo contra o corporativismo propriamente dita, na medida em que a protagonista está resignada ao sistema no qual se encontra, também não se pode dizer que não o é, visto que a protagonista age de forma a contornar os elementos a seu favor. Trata-se do meu conto favorito da antologia, enquanto leitora, na medida em que no futuro encontramos o presente. As questões, (in)justiças e estruturas socioculturais do agora mantêm-se numa ambientação obviamente futurista, tornando o worldbuilding (lamentavelmente) credível e de fácil empatia. O enredo centra-se quase que num detalhe deste worldbuilding: filmando o formigueiro, foca-se numa formiga em específico, dando ao leitor um episódio da sua vida que, sendo apresentado com princípio, meio e fim, é sabido ser apenas isso: um episódio de muitos na vivência da protagonista. Por fim, é de salientar a utilização feita da música. O conceito explorado na ficção deste conto ganha um particular interesse quando se adquire a percepção do quão frequentemente ele é hoje aplicado, em vários e diferentes níveis. A autora, também musicóloga, soube assim atar estas duas facetas do seu dia-a-dia, criando o elemento diferenciador de Modulação Ascendente.

Pecado da Carne, Carlos Silva: Um conto bem construído, bem narrado e com personagens carismáticas. Mais uma vez, o conceito do wordlbuilding revelou-se o que mais me interessou: países e nações dão lugar a grandes corporações de saúde, onde quem tem poderio para pagar as apólices vive numa aparente utopia, enquanto quem não tem é varrido para debaixo do tapete. Como usual nestas sociedades, quanto mais se procura ver através delas, pior é o cheiro.

y + t, Marta Silva: O núcleo do enredo prende-se com a oposição que vai crescendo entre as duas personagens, y e t, nascida do modo como encaram a realidade em que vivem. À medida que cada uma delas se vai ancorando mais naquilo em que acredita, a relação – que entendi bem mais como amorosa do que como amizade – vai-se esfriando e deteriorando, até à reunião quase irónica no final. A forma narrativa, contudo, não me agradou, não tendo encontrado razões estéticas, de percepção ou de qualquer outro âmbito que tivessem levado às escolhas narrativas da autora.

Alma Mater, José Pedro Castro: Um melting pot. Imaginemos que o autor partiu vários vasos, novos e velhos, misturou os cacos e, de seguida, pegou em alguns deles para montar o seu próprio vaso. É essa a imagem que este conto me provoca, sendo necessário salientar que, de alguma forma, funcionou. Há um grande equilíbrio entre os vários elementos narrativos, levando a que a leitura seja agradável a um espectro variado de leitores. A acção é doseada com sentimento, o humor com tristeza, e o passado com o futuro. A isto, juntam-se ainda personagens bem construídas e algo inesperadas. Fechando o ciclo: um melting pot.

Bastet, Mário Coelho: Um conto com princípio, meio e fim – conta a história a que se propõe sem deixar a sensação de “precisa de mais” ou “precisa de menos”. Após um início centrado mais na contextualização no mundo criado através do show, a narrativa avança com base na acção e no tom humorístico. O enredo assume o seu momento alto com a reviravolta do final.

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“Insonho: Durma Bem”, VVAA

capa

VVAA – Insonho: Durma Bem, Paraná, Estronho, 2015

Sinopse: O folclore português é nostálgico. É fado e saudade. Saudade das tardes sentados, no chão da sala, a ouvir o avô contar sobre o lobisomem. É medo e respeito. Como naquelas noites em que nos deitávamos e pensávamos no Insonho ou na Mula sem Cabeça. Falar sobre o folclore português é viajar pelo interior de Portugal e encontrar as lendas que cheiram a infância e se perderam na pressa de crescer.
A antologia “Insonho – Durma bem!” pretende resgatar essas memórias; trazer ao leitor a inquietude de ser criança, outra vez, e temer as histórias destes seres tristes ou maléficos. Aqui reúnem-se as Mouras Encantadas, o Saca-Unhas, o Adamastor, o Carago, o Bicho Papão e outros numa coletânea que promete embalá-lo num sonho fantástico e cheio de magia. Mas cuidado. Eles podem aparecer… Durma bem!

Opinião: Quando a Estronho e a Valentina Silva Ferreira anunciaram a antologia, abrindo o call to arms, a temática chamou-me de imediato a atenção. Portugal tem um folclore riquíssimo em lendas e mitos, não só muitos como também variados, e apesar de me parecer que este livro apresenta uma boa mão-cheia do aproveitamento das ditas, também muito ficou ainda por explorar. Espero, portanto, ver outros trabalhos que o façam.

Reflectindo o seu ponto de partida, a antologia mostra nove contos muito diversos entre si, tanto nas lendas abordadas, como nos estilos narrativos. Têm em comum apenas o folclore português, e embora a grande maioria seja ambientada no rural, também aí encontramos excepções. Mas melhor será a opinião individual a cada conto:

“Ao Meio-dia”, Carlos Silva: O conto de abertura recupera um leque de lendas antigas, como o carago, o homem das sete dentaduras e bruxarias de aldeias (talvez aquilo que o leitor mais depressa reconhece), interligando-as numa história consistente e bem ambientada, de amor, invejas e tragédia. Julgo que poderia ter desenvolvido mais as informações em relação ao homem das sete dentaduras, que não ficou explícito para quem não o conhece, mas nada mais tenho a apontar, excepto, e por um bom motivo, as citações do início, que se destacaram – não é todos os dias que vemos éditos reais e verídicos em relação a sereias.

“Duelo de Lendas”, Valentina Silva Ferreira: Temos aqui a interligação de várias criaturas místicas, em particular as relacionadas ao sono, que efectivamente duelam entre si, fazendo da protagonista humana e doente campo de batalha (pobre moça). Num twist final o vencedor é outro, que não duelando açambarcou os lucros. Tanto a descrição do ambiente em redor da personagem quanto das suas acções físicas encontra-se muito boa; no entanto, senti falta de um maior desenvolvimento no terror sentido pela personagem no pesadelo, a nível psicológico. Em termos de escrita, aponto apenas a pontuação nos diálogos, que vez ou outra falhou.

“Na Escuridão” Vitor Frazão: À primeira vista a premissa parece “adolescentes fazem o que não deviam e dá asneira”, sempre um favorito. Toda a ambientação – e interacção entre as personagens – dá a entender um filme de terror série B, com uma Moira Encantada. Otwist final, no entanto, confere mais substância às personagens e desvenda os motivos ocultos. Mais uma vez notei uma falha na pontuação dos diálogos, mas num ponto bem mais positivo temos uma boa escrita coloquial, já característica do autor.

“A Voz de Lisboa”, André Pereira: O que inicialmente parece “apenas” um acidente no metro de Lisboa, logo apresenta um cariz sobrenatural. Visto que é narrado em primeira pessoa, o leitor acompanha a (in)compreensão do protagonista, o que salienta o terror psicológico. Considerei um excelente crescimento do texto, tanto da parte do caminho da individualidade para a legião, como da lenta resposta que se foi formando ao chamamento e, em consequência, da compreensão dos acontecimentos.

“A Noite em que o Bicho-Papão Encontrou Kafka no Cimo de um Telhado”, Francisco J. V. Fernandes: Um conto de narrativa calma que alterna entre a infância marcada pelo receio do Bicho-Papão e a velhice, nos últimos momentos de vida. Efectua uma junção muito bem conseguida entre a lenda portuguesa – delimitada por características portuguesas, como a cantilena da avó para afugentar a criatura – e A Metamorfose, de Kafka.

“Sant’Iroto”, Ana Luiz: O início fez-me lembrar a minha infância, visto que cresci numa quinta, e reconheci as actividades da catraia. Toda a ambientação me pareceu natural, a evocar o verídico tanto da dita quinta, quanto da aldeia dos meus bisavós, bem mais para o interior. Trata-se do conto que mais adoptou o tom que utilizamos para falar entre nós das “experiências” sobrenaturais. Tem, no entanto, algumas gralhas.

“Por Sete Encruzilhadas, por Sete Vilas Acasteladas”, Miguel Raimundo: Um conto lupino, que recupera a ideia mais nacional de lobisomen e segue uma narrativa que associamos mais ao tradicional. Um detalhe curioso é a narradora ser uma bruxa de um século anterior ao nosso, a contar uma história ainda mais anterior que o seu próprio tempo.

“Ao Sexto Dia”, Inês Montenegro: Porque ninguém comenta os seus próprios contos em blogs literários, não é?

“Sangue, Suor e… Unhas”, João Rogaciano: O último conto apresenta uma estrutura policial, sendo um encontro entre este género e o sobrenatural. Julgo que poderia ganhar com um maior desenvolvimento do sentimento das vítimas quando são atacadas, e alguns dos diálogos são demasiado expositivos, tornando-se pouco naturais. Também as vírgulas falharam por algumas vezes. É de salientar, a nível positivo, o encadeamento dos acontecimentos e sua condução, bem como o twist final acerca do assassino.

Fornada de Contos III [Fantasy&Co]

Nove contos disponíveis e lidos no blog Fantasy&Co. Desta vez, escritos de Pedro Pereira, Pedro Cipriano, Carlos Silva, Vitor Frazão, Carina Portugal, Sara Farinha, e Leonor Ferrão, com o seu conto de estreia no blog.

“O Acordo”, Pedro Pereira: John Harris é injustamente acusado e julgado como sendo um assassino em série. As razões para o engano não são exploradas, nem o porquê de todas as provas, inclusive o ADN, o demarcarem como culpado – suspeito do homem que lhe oferece o acordo. Mas não é esse o foco do conto: o foco é no acordo entre John e um homem suspeito, de cuja identidade desconfiamos e no final comprovamos. O enredo centra-se, então, numa acção já clássica e explorada de várias formas, em diversos modos artísticos, mas que consegue ainda assim providenciar uma leitura agradável.

Narrado em primeira pessoa, segue uma estrutura bastante linear – exposição, complicação, ponto de viragem e resolução –, com um final irónico, igualmente esperado a partir de determinado momento.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/18/o-acordo-13-pedro-pereira/

“Boas Festas Vindas do Céu”, Pedro Cipriano: Já me habituei a ir conhecendo o worldbuilding que Pedro Cipriano nos vai apresentando aos poucos através dos contos que dispersa, ora no Fantasy, ora em projectos como a Lusitânia. O método utilizado, que aqui não foi excepção, consiste em centrar-se numa personagem – Rui, o piloto, neste caso – e a partir da sua esfera privada dar a conhecer um pouco mais do panorama geral. E em nenhum deles me lembro de ter visto um final feliz, visto que quando o protagonista até nem fica muito mal, há sempre algo a lembrar as consequências para o outro lado. Algo inevitável numa guerra, e que o autor não foge a mostrar, não em tom moralista, mas em insinuações que levam o leitor a lembrar-se disso por ele mesmo.

Assim sendo, julgo já não me ser possível encarar estes contos isoladamente, mas sim como um círculo de contos, mostrando todos eles detalhes na mesma moeda (em qualquer das suas faces). Neste em específico, salienta-se a descrição do bombardeamento, que me pareceu bem conseguida. Definitivamente mais trabalhada que a personagem de Rui, do qual sabemos apenas o suficiente para ter uma ideia de onde se posiciona na imagem maior.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/27/boas-festas-vindas-do-ceu-pedro-cipriano/

“A Besta”, Pedro Pereira: Situando-se no Gerês, o enredo concentra-se num acampamento entre amigos que não corre exactamente como planeado… E praticamente tudo vira para o torto. Gostei da ideia-base, no entanto alguns momentos pareceram-me forçados, enquanto outros precisavam de maior descrição, especialmente quando traziam uma carga emocional atrás.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/09/19/a-besta-14-pedro-pereira/

“Os Blémios”, Carlos Silva: Narrado em primeira pessoa pela vítima, “Os Blémios” vai buscar um mito antigo e coloca-o na actualidade, não apenas relembrando estas criaturas já quase esquecidas, como também justificando a sua presença fora do habitat que lhes é atribuído pelo mito. Bem conseguido e bem escrito.

[“O homem à minha frente tirou óculos escuros” > “os óculos escuros”]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/03/os-blemios-carlos-silva/

“Aos Teus Olhos”, Vitor Frazão: Apesar da primeira parte do conto poder enganar, o enredo centra-se em Jules e no passado do qual ele procura avançar, sem sucesso. As personagens encontram-se bem construídas, a escrita segue o cariz sarcástico já costume ao autor – gosto particularmente do uso da gíria e da descontracção que parece incutir ao texto –, e o que vemos do worldbuilding destaca-se pela positiva. Pareceu-me, no entanto, uma prequela de algo maior.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/10/aos-teus-olhos-15-vitor-frazao/

“Assombração”, Leonor Ferrão: Seguindo o clássico da casa assombrada, um grupo de amigos de infância passa a noite de Halloween na habitação onde se diz existirem fantasma. No ano em que a narrativa decorre, a fama finalmente justifica-se, o que me leva à questão: porquê naquele ano, e não nos anteriores? Nada foi indicado no sentido do porquê de aquele ano ter sido diferente.

Gostei da imagem da assombração em si, incluindo o detalhe final. Gostaria de a ver mais trabalhada, com uma maior consistência nabackstory.

Quanto à escrita, estranhei-a. Provavelmente devido aos conectores escolhidos, e ao uso de um ou outro vocábulo que não se coadunavam com o tom geral do texto, pareceu-me monocórdica.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/31/assombracao-leonor-ferrao/

“A Profecia”, Pedro Pereira: Num worldbuilding onde humanos são obrigados a enfrentar demónios, a cobiça não desapareceu ainda, levando a que três entidades se enfrentem para conseguir um só objecto, poderoso o suficiente para influenciar o final da batalha. Um conto que se centra essencialmente em acção, e cujo final em aberto leva a crer que o autor planeia regressar a este panorama e personagens. Para já, não conta que elementos originais.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/11/03/a-profecia-14-pedro-pereira/

“Pintado a Sangue”, Carina Portugal: O ambiente e o enredo já foram bastante utilizados quer em literatura quer noutras formas de arte: uma casa assombrada, uma nova inquilina, e segredos antigos que, desvendados, as unem. O início demora a desenvolver-se mas, uma vez isso feito, o enredo avança a bom ritmo.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/pintado-a-sangue/

“Trapos Vivos”, Sara Farinha: Um conto simples que por vezes parece alongar-se mais do que realmente precisa. Explora o interior da personagem, e a sua relação com a boneca. Apesar de levantar a dúvida ao leitor sobre estar tudo na cabeça da personagem ou não, o bom final tira todas as dúvidas.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/trapos-vivos/

Fornada de Contos II [Fantasy&Co]

Por razões pessoais (no estilo “tenho viajado que me farto”), o blog não tem tido grandes actualizações, é verdade, mas como com snackstambém se engana a fome, eis mais um dezena de contos, onde o Fantasy volta a dominar. Fazer o quê? É onde os encontro de graça e com regularidade. Temos então os autores Pedro Pereira, Pedro Cipriano, Carlos Silva, Vitor Frazão, Carina Portugal e Sara Farinha.

“O Túmulo de Cristal”, Pedro Pereira: Um conto de scifi através do qual espreitamos para um mundo mais vasto do que aquilo que era possível colocar num conto. O enredo decorre a um ritmo lento, havendo uma repetição da palavra “cristal” e as personagens pouco interesse despertam no leitor. Já o wordbuilding tem bases bastante boas, com uma Igreja autoritária cujos deuses talvez não sejam tão divinos quanto isso, e a origem e conceito do próprio Mar de Cristal.

[“é que toda água se” a água]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-tumulo-de-cristal/

“O Guarda-Livros”, Pedro Cipriano: O conto parece desenvolver-se a dois níveis: o do livreiro, e o do worlbuilding. Na primeira parte é-nos introduzido Carlos, o livreiro, e o conhecimento de que Portugal deixou de existir, encontrando-se os territórios do que antigamente era um país em guerra constante – como consequência, uma entre várias, todo e qualquer livro que demonstrasse Portugal como país uno tornou-se proibido.

Durante as duas partes que se seguiram, em que Carlos, ante um bombardeamento inimigo, fica preso com os vizinhos no abrigo do prédio, desejando o resgate e simultaneamente temendo que o mesmo leve à descoberta dos livros escondidos, pareceu-me que o mesmo era utilizado como ponto de partida para expor o wordbuilding, a situação de futuro ficcional criado pelo autor. Na última parte, contudo, a personagem volta a ganhar maior relevância, demonstrando uma evolução (ou regressão, conforme o leitor o interprete), fruto das experiências vividas.

A nível da narração, esta não se destacou nem positiva nem negativamente, com excepção das partes 2 e 3, em que os saltos temporais não detinham qualquer marca distintiva, o que por vezes levou a confusão, obrigando à releitura do trecho.

[“A som estridente” O som (2/4); “vicissitudes da vida tinha ditado” tinham (3/4)]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-guarda-livros/

“A menina que não digeria os livros”, Carlos Silva: Qualquer coisa que na sua primeira frase tenha “Harry Potter” apanha-me de imediato a atenção. À medida que o conto avança, contudo, torna-se perfeitamente capaz de a manter por si mesmo: porque é uma crítica algo humorística de uma situação actual, tornando o metafórico no literal, que se tem vindo a desenvolver na blogosfera e que já vi muitas vezes a causar confusão. Esta foi a abordagem que mais apreciei, fazendo lembrar o utilíssimo conselho de Gaiman: make good art.

[“sobre mesinha” sobre a; “página e mansinho” de mansinho]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/06/18/a-menina-que-nao-digeria-os-livros-carlos-silva/

“A Escuridão”, Pedro Cipriano: O conto contextualiza-se num cenário apocalíptico, onde a situação actual ainda é incerta, centrando-se num grupo de cientistas e militares fechados no que me pareceu ser um centro de pesquisa, dado que o ar exterior os levaria à sua morte. Até que se verifica uma série de assassínios, demonstrando que também no interior se encontram em perigo. Infelizmente, não me achei que o mistério se encontrasse bem aproveitado, e o triângulo amoroso Rui-Rita-Débora é dispensável e pouco contribui para o enredo.

[“com intuito ver familiares” de ver; “Milhares de linhas com definiam” com o quê? (1/5)]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/a-escuridao/

“Roy just wants to have fun”, Vítor Frazão: Um conto vampiresco que vira as ideias pré-concebidas do avesso, numa escrita descontraída e quase irónica. Simples e eficaz.

[“era capaz tirar-lhe as” de tirar-lhe]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/roy-just-wants-to-have-fun/

“Pão para a alma”, Sara Farinha: Um dos poucos medos universais que será capaz de ladear o medo da morte é provavelmente o medo de uma degeneração e atrofiamento lentos, tanto do corpo quanto do espírito. Neste conto, a autora visualiza um futuro onde a raça humana se encontra a caminhar lentamente para a extinção exactamente através dessa degeneração. Miguel, no entanto, não desiste de encontrar de procurar a cura, sendo nessa insistência que encontra a pior das degenerações.

Um bom tema para exploração, em que o final incerto resultou a favor.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/pao-para-a-alma/

“Pele de escrava”, Carina Portugal: Com a escravatura, os abusos que esta trouxe sobre muitos, e o desejo de liberdade como base, o conto assume ainda um cariz de fantasia que muito levou ao desenvolvimento do enredo. Não sendo particularmente original, é uma leitura que agrada.

http://blocodedevaneios.blogspot.co.uk/2013/08/conto-pele-de-escrava-de-carina-portugal.html

“Embalada no teu silêncio”, Sara Farinha: Numa ideia simples, revolve em torno do amor entristecido entre um selkie e uma mulher. Os diálogos constituem-se por frases curtas, julgo que exactamente numa tentativa de acentuar a tristeza e uma certa hesitação gerada por culpa, pelo saber de não ser aquilo o melhor. Não me pareceu que o seu desenvolvimento fosse dos melhores, e volta e meia há um exagero na purple prose.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/embalada-no-teu-silencio/

“Perdidos”, Carlos Silva: Encontramos aqui os atritos e arrependimentos entre casais que já se tornaram comuns nos dias actuais, não apenas pela situação em que se encontram, mas também pelos factores que elevaram à sua existência – perfeitamente encaixados num conto de sci-fi, com a escrita sem falhas a apontar que já se espera do autor. Apesar da simplicidade do momento apanhado e de o fim se tornar esperado a partir de certo momento, tem um resultado final favorável.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/08/perdidos-carlos-silva/

“Estilhaços”, Carina Portugal: Há alguma coisa de atractivo em histórias sobre casas assombradas, e ainda mais quando temos criancinhas desobedientes pelo meio. Pareceu-me, no entanto, que a autora conseguiu utilizar bem os elementos que tinha para funcionarem a favor do conto, tanto na parte que mais se assemelha a um mito que se conta à beira da lareira em noites de Inverno, como no final, que apesar de já adivinhado, não deixou de manter a atenção e interesse do leitor.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/estilhacos/

Fornada de Contos I

Os dez contos que se seguem encontram-se todos disponíveis na Internet, nos links que colocarei no fim das respectivas opiniões. Alguns do Goodreads, um da Smashwords, mas a maioria são do Fantasy&Co, ora do blog, ora dos ebooks que têm vindo a disponibilizar.

Temos, portanto, como autores a Andreia Silva, o Pedro Cipriano, o Vitor Frazão, o Carlos Silva, a Carina Portugal, o Joel G. Gomes e a Carla Ribeiro, com os contos comentados por ordem de leitura.

“Alma Improvavelmente Dolorosa”, Andreia Silva

Um conto curto de drama e romance que apesar de se notar a tentativa de extravasar fortes emoções, falha pela repetição e de vez em quando um exagero de purple prose a prolongar desnecessariamente frases que no seu âmago são simples.

No entanto, atendendo a que foi o primeiro escrito da autora (at last I was told that), julgo que há aqui boas bases para crescer.

http://www.goodreads.com/book/show/17226061-alma-improvavelmente-dolorosa

“O Monstro e a Musa”, Pedro Cipriano

Dividido em dez partes de modo a facilitar a leitura – o Fantasy&Co não deixou passar despercebido que, em termos de blogs e sites, os leitores assustam-se e recuam quando se deparam com grandes blocos de texto –, a primeira parte introduz o doutor Walter Ramos, dando-nos a entender por detalhes nos diálogos que o enredo se desenvolve num tempo futuro – um futuro no qual Portugal como o conhecemos não existe. Apesar da necessidade de dar a conhecer ao leitor oworldbuilding – e o modo como este surgiu – num pouco espaço de tempo, o infodump foi evitado, fornecendo-se as informações aos poucos, e utilizando tanto a inserção das ditas em trechos que por si só nada teriam de crucial (a viagem forçada de Walter Ramos até à cidade, por exemplo), como inquéritos entre as personagens.

A inserção de Eva, no gap temporal existente entre a parte 4 e a parte 5, pareceu-me demasiado brusca. É-nos dito quem é e como desenvolveu a sua relação com Walter, contudo, tal não impediu a sensação de “caída do céu”. Trata-se, também, de uma personagem cliché, que parece estender essa característica a todas as partes do enredo que a envolvem.

[“pedido”: pedindo (3/10)]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/03/10/o-monstro-e-a-musa-110-pedro-cipriano/

“Bom Filho”, Vítor Frazão

Inicialmente a descrição de uma subida por um dos montes do Douro, apresentando-nos a personagem de Joaquim e a indicação de que este não é o mais saudável nem jovem dos homens, rapidamente o conto se torna num entrelaçar entre uma realidade mundana com a fantasia de um mito antigo. Não existem grandes twists nem acções, estando a plotconcentrada no diálogo, intercalado com as descrições e informações necessárias. Bonito e melancólico.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/04/07/bom-filho-vitor-frazao/

“Não lhe veste a pele”, Vítor Frazão

Apesar de pegar numa personagem e num worldbuilding de maior dimensão – explorados no livro já publicado do autor –, é fornecido contexto suficiente para que os leitores alheios a tal compreendam e não se sintam perdidos. No entanto, parece-me que os que estejam nessa situação não apreciarão tanto o conto como os que já conhecem Lance de outras aventuras, isto porque aqui pouco decorre em termos de enredo – o centro do conto parece ser explorar a situação e os receios de Lance em relação à família e à sua situação de híbrido.

[“os sensuais lábios rosado da mulher”: rosados]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/04/09/nao-lhe-veste-a-pele-vitor-frazao/

“A Sopa”, Joel G. Gomes

O autor tem aqui uma boa ideia, presa num formato demasiado compacto – tornou a sua leitura cansativa e por vezes apanhei-me a distrair-me e a ter de reler. Julgo que a inserção de mais diálogos e o fornecimento de informação de modo mais directo e menos dependente da interpretação do leitor teriam melhorado essa questão.

https://www.smashwords.com/books/view/306307

“És o que pareces, por não o seres”, Carina Portugal

No início a autora demora-se demasiado em detalhes que não têm grande contribuição para o enredo ou para a leitura, mas tal vai-se perdendo com o avanço da história. Esta tem bons ingredientes para gostar dela – os fantasmas, a bruxa… -, e no entanto não chegou a agradar totalmente. Apesar de ter gostado da ideia, a prossecução pareceu-me um pouco sem-sal. Talvez nos desenvolvimentos finais é que devesse ter havido uma maior demora nos detalhes.

[Bens imóveis (no caso o prédio) arrendam-se, não se alugam]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/04/04/es-o-que-pareces-por-nao-o-seres-14-carina-portugal/

“Abraça-me para sempre”, Carla Ribeiro

Embora dê para acompanhar a história, o conto deixa muitas perguntas por responder – quem é a resistência, quem são os invasores (esclavagistas?), qual a sua história, é História alternativa ou o uso de um momento da nossa História? Aproxima-se mais de um excerto que de um conto. Já a narração, apesar de se alongar um pouco no início e tentar uma abordagem demasiado “trabalhada”, acaba por ser o melhor do conto.

https://www.dropbox.com/s/nfb7frvn8xbvxo5/Abra%C3%A7a-me%20para%20Sempre.pdf

“Boa noite, Gonçalo”, Carlos Silva

Desconfiei do final por me fazer recordar o “Inteligência Artificial” – e ao mesmo tempo a história de Hansel e Gretel. Um bom equilíbrio entre as dificuldades actuais e o sci-fi, com uma boa narração. O título adequa-se e é chamativo.

https://www.dropbox.com/s/xjv1l9txiebrcn9/Boa%20noite%2C%20Gon%C3%A7alo.pdf

“Trial Version”, Carlos Silva

Inicialmente parece focar-se nas recordações de um moribundo no leito de morte, após uma vida que o satisfez. O final revela que não – um conceito que não é inovador, do qual chegamos a desconfiar, mas que se encontra bem trabalhado através da narrativa.

[“apensar dos sulcos cavados pelas décadas”: apesar]

https://www.dropbox.com/s/ivb5zp3s63n1ojw/Trial%20Version.pdf

“O Monociclo”, Vítor Frazão

O diálogo com que o conto começa fez-me rir. Não devia: no fundo está a ilustrar o aproveitamento de um vendedor (ganancioso ou a fazer pelo negócio?) sobre um toxicodependente, mas que fazer se o palavreado utilizado e o modo como foi conduzido me levaram a isso?

É já a partir da parte dois (o conto divide-se em quatro partes) que as propriedades do monociclo se tornam claras ao leitor, bem como o carácter Fantástico e Horror da narrativa. Mais uma vez, achei-o um conto muito bem conseguido, com uma excelente condução e uma forma de escrita que cada vez aprecio mais. Fez-me lembrar o Neil Gaiman, em especial o final e as personagens de Bo, Aranha, Patrão e Rapaz-Porco.

[“até o Inferno” ao; “o que aconteceria aquele dinheiro” àquele; “já vi réplicas que a custarem 700, isto é original” este “que” está a mais; “Trás dinheiro” traz, “quanto menos espero, quanto estou certo que acabou” quando nos dois casos; “Percebia que exagerar” exagerara; “ir buscar a revólver” o revólver; “antes carracas pálidas, exageradamente pintada de vermelho ” carrancas?, e “pintadas”]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-monociclo/

“Fantasy&Co: Halloween”, VVAA

capa

O Fantasy&Co é um projecto que se tem dedicado à produção e divulgação de contos de autores nacionais dentro da área do fantástico. Recentemente, o blog resolveu lavar a cara e, junto com as mudanças, compilou alguns dos contos temáticos em ebooks que disponibilizou gratuitamente e podem ser adquidos aqui por todo e qualquer interessado.

Ahem. Apesar de ler bastantes contos, inclusive uma quantidade razoável do Fantasy&Con, não sou grande coisa a comentá-los. Evito faze-lo, na verdade – e antes que qualquer autor ceda aos instintos de me esganar, a única razão para isso é que na grande maioria dos casos eu pura e simplesmente não sei o que dizer. O que é problemático, visto que a grande maioria das coisas que escrevo são contos. Devia ter melhor olho para “topar” o que me agrada ou desagrada nos ditos, nem que seja para melhorar o meu próprio trabalho.

This calls for a change. Therefore, aqui fica a primeira opinião relativa a uma antologia de contos.

“A menina que não gostava de doces”, Carina Portugal – Algumas incongruências e repetições logo no início requerem uma maior atenção na revisão (o chapéu de bruxa que primeiro é descrito como estando na cabeça, e logo de seguida na mão, por exemplo, ou o “Por fim, parou junto de uma grande casa” quando duas linhas acima já nos tinha dito que a personagem correu até à casa mais próxima) e há um excesso de vírgulas. Julgo que teria ficado a ganhar caso se tivesse explorado o porquê de a menina não gostar de doces – fica-se sem saber o porquê da embirração, restando as teorias –, mas gostei da ideia de pegar no ponto de vista de uma criança-bruxa e do modo singelo como foi tratado, adequando-o à idade da personagem.

“Morte Branca”, Liliana Novais – O conto começa com a menção ao dia de Todos-os-Santos e à tradição portuguesa de visita-anual-aos-cemitérios, que honestamente uma pessoa tem tendência a esquecer-se quando se fala em Halloween, mas que tecnicamente faz parte, e de um modo mais “nosso”, por assim dizer. Por isso fiquei um pouco desiludida quando me apercebi que a autora não iria continuar por essas linhas: pareceu-me que teria sido um modo refrescante e inesperado de tratar o tema. Em vez disso, o protagonista continua a expor as suas mal-humoradas opiniões sobre a festividade, até ser interrompido pelo tremor do chão e gritos. Não evitei um sorriso ao ver o coelho branco gigante (apesar de não o menosprezar. Ninguémsensato o faz), e, no entanto, something is missing. Ou por construções do género “Parado à minha porta as pessoas fugiam a correr” que apesar de se compreenderem parecem ser demasiado rústicas, digamos, ou pelos problemas de pontuação, cujo excesso ou, mais frequentemente, ausência, afectaram negativamente a leitura

“Bruxaria”, Pedro Pereira – Ah, o famoso jogo do copo. Quem nunca experimentou ou sabe de quem tenha experimentado? O conto começa com o mundano de um grupo de amigas a jogarem-no, mas, como esperado, não poderia acabar bem. Apesar de não se destacar pela originalidade, encontra-se bem escrito e é uma leitura agradável. Well, tão agradável quanto uma matança pode ser. [Chamo atenção para o erro de digitação na linha 22 da página 10 do pdf, em que se lê “garanta” em vez de “garganta”]

“A noite de todas as sombras”, Sara Farinha – O conto vai-se construindo a partir da atenção aos pormenores, focando mais uma personagem que propriamente um enredo. Gostei do final, no entanto, a escrita teria a ganhar caso evitasse floreados a mais. [“Em cada novo dia adensa-se o cinzento dos céus, menos horas de luz e escasseia a claridade” – Falta um verbo nesta frase]

“Chekhov’s Gun”, Carlos Silva – Não conhecia a metáfora que deu mote ao conto, ou melhor, conhecia-a, mas não à terminologia. Sendo um conto simples, encontra-se bem trabalhado. E já me estava a preparar para “reclamar” em relação a um certo e determinado detalhe, quando a pergunta final lhe deu a volta com um “lol, no, bitch, não é falha minha”, tornando-o numa mais-valia. [“mesmo apesar da barba” Este “mesmo” é desnecessário e é um solavanco na leitura; “os olhos cansados e o corte de cabelo desalinhado” Por que não se continuou com o “dos… do”?]

“Se uma árvore cai na floresta…”, Vitor Frazão – As descrições estão óptimas, havendo uma grande facilidade na visualização dos detalhes (macabros, as it was suppose to be). O conto foi bem conduzido e definitivamente a árvore tem carisma para merecer aparições noutras histórias. Gostei da reversão, relembrando quão monstruosos os seres humanos podem ser. O final foi esperado, mas a outra hipótese tê-lo-ia deixado insosso. [“Foram ele que me obrigaram” – “eles”]