Fornada de Contos VI [Fantasy&Co]

Foi com surpresa que me apercebi fazer cerca de um ano desde que abri a página do Fantasy&Co para ler os contos e escrever umas linhas de opinião sobre os mesmos para o blog: efeitos secundários de já ler bastantes deles antes da sua publicação. A publicação, no entanto, é o que traz o “produto final”, e, em consequência, eis uma fornada de doze contos de Ricardo Dias, Pedro Pereira, Sara Farinha, Carina Portugal e Hugo Cântara, a ser complementada mais tarde com os que ficaram por opinar.

“O Visitante e o Forasteiro”, Ricardo Dias: O conto pega na criatura mítica do Djinn, começando com um tom pesado, quase lúgubre, que se vai aligeirando até ao fim, altura em que transmite a sensação inversa. Conto simples de leitura rápida onde a simplicidade do twist – as verdadeiras intenções das duas criaturas – lhe dá a sua graça.

“A Emboscada”, Pedro Pereira: Gira em torno de um ataque e de uma batalha, onde três facções desejam um só objecto. Complementa um conto anterior do autor, cada um expondo o ponto de vista de diferentes facções, ainda que ambas humanas. Tal como esse conto precedente, assemelha-se mais a um fragmento de algo maior do que a um conto independente. Algumas das frases parecem apresentar gralhas, no entanto, outras destacam-se positivamente pelas escolhas vocabulares, em particular a nível descritivo.

“A Flecha Perdida”, Pedro Pereira: Também este um conto de batalha, começa calmo, com uma cena de caça que apresenta as personagens principais, duas irmãs, e contextualiza o leitor dentro do enredo. Apresenta elementos que o ligam ao conto anterior, “A Emboscada”, e serve bem o seu propósito de prelúdio: não apenas aos contos já referidos, como a um romance maior, que após a leitura deste punhado de contos suspeito que o autor anda a desenvolver (não passa, no entanto, de conjectura minha). A nível narrativo apresenta algumas inconsistências verbais.

“Migalhas de Ontem”, Sara Farinha: O conto parte da trope de viagem no tempo, não só à Batalha de Aljubarrota, mas em particular à célebre e mítica padeira. O mistério em torno do que é esperado que a protagonista faça – e o porquê de ela se ver naquela situação – é revelado aos poucos, em “migalhas”, sendo as descobertas do leitor em consonância com as da protagonista. Contém falhas na pontuação dos diálogos, algumas vírgulas mal colocadas e a nível descritivo julgo que poderia ter desenvolvido mais o episódio dos sete espanhóis. Nota-se a importância dada ao ofício para a caracterização do espaço, o que levou a uma ambientação bem conseguida.

“Diferente”, Ricardo Dias: Apesar de ser um futuro distópico controlado pelas Clérigos, notam-se reacções que estão bem patentes no presente, sendo tão erradas e desagradáveis quanto uma distopia. Gostei em particular da relação entre Samuel e Eliza e de ver a representação dos erros que se cometem hoje em dia, não apenas em relação aos assexuais, mas a todos os que não são heterossexuais. Ressalvo, no entanto, que um assexual é uma pessoa que não sente atracção sexual, podendo ter outras (romântica, estética…) ou gostar do acto sexual em si.

“A Tempestade”, Pedro Pereira: O que não seria mais do que uma paragem numa igreja para abrigo duma tempestade torna-se em algo mais perigoso quando uma besta ataca a congregação. Não me pareceu um dos melhores contos do autor, tendo-o considerado confuso: a besta carece de maior desenvolvimento, não se compreende qual a direcção do enredo e as personagens são unidimensionais.

“Actos de Dor”, Sara Farinha: Compreende-se muito cedo que Nico está morto, ficando a dúvida se faz o que faz por vingança, por não querer ficar sozinho, ou por ambos. De igual forma, também desde cedo se desconfia – com bastante certeza – o que terá acontecido entre ele e a irmã, relação que despoletou tudo. Apesar disto, a prossecução e condução do conto ficaram confusas. No final compreende-se mais ou menos todo o enredo, mas antes disso há uma incompreensão não pelo mistério, como seria de esperar, mas pela confusão na narração.

“Herança do Escritor”, Hugo Cântara: Segue uma linha de enredo simples em torno de um segredo de família, de escritor. Ou melhor, da passagem desse segredo de uma geração para outra. As personagens também se caracterizam pela sua simplicidade e generalidade, julgo que propositadamente, visto que a nenhuma delas é atribuído nome. Apresenta falhas nas vírgulas nos vocativos, na pontuação dos diálogos e na regra por porquês.

“Nó Górdio”, Ricardo Dias: Pega na trope de viagens do tempo e anomalias temporais. Começa por mostrar o “exterior” – um homem que por acaso encontra e usa um dispositivo de viagem no tempo e é interceptado pelo protagonista –, para irmos indo pela Agência onde o dito protagonista tem papel de relevo, e acabarmos na personagem principal e seu conflito interno e pessoal: um “feitiço vira-se contra o feiticeiro” e uma decisão difícil. A narração encontra-se pejada de referências culturais, fazendo ligações entre a Agência deste conto com elementos de outros wordbuildings – uma em particular que me fez ficar contra a Agência, não se trata assim o Doctor! –, os quais não são enunciados, mas apresentam informações que bastem para serem identificados. Apresenta falhas na pontuação dos diálogos.

“Reviewer”, Ricardo Dias: Numa mistura entre tecnologia e lenda urbana, o excesso do vício é aqui tornado em conto. Trata-se de uma leitura rápida e curta, numa narração bem desenvolvida.

“Lâmina de Cristal”, Pedro Pereira: Essencialmente descritivo, centra-se no caminho e desafios do protagonista enquanto este procura cumprir a tarefa que tem em mãos. A primeira parte alterna com flashbacks da sua infância, o que lhe atribuiu um pouco mais de identidade. Notei uma repetição de palavras, que deu a ideia de eco no texto, e a grande maioria dos desafios são resolvidos por “energia”, algo próximo à ideia de magia.

“Doze Doses de Ilusão”, Carina Portugal: Joga com a fronteira entre a ilusão e a realidade, trocando as voltas do leitor até ao fim. Inicialmente fez-me lembrar “A Menina dos Fósforos”, numa adaptação a um outro género, contudo, apesar de ainda ver uma influência do ambiente, nada mais têm a ver um com o outro.

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“Por Mundos Divergentes”, VVAA

capa

VVAA – Por Mundos Divergentes, Aveiro, Divergência, 2014

Sinopse: Num futuro por vezes próximo, por vezes distante, Portugal sucumbe dos mais variados estados ditatoriais. Aquele que pensa é um inimigo do Estado. Um inimigo da pátria que tem de ter cuidado… e os que não têm cura, devem ser sacrificados pelo bem maior.

Por mundos divergentes conta com cinco contos distópicos escritos por Ana C. Nunes, Nuno Almeida, Pedro G. Martins, Ricardo Dias e Sara Farinha.

Opinião:

“O Patriarca”, Ricardo Dias: Narrado em primeira pessoa, o conto apresenta uma boa estrutura e uma clara inspiração em Orwell. A maioria das personagens não apresenta complexidade, centrando-se a caracterização no protagonista – sendo esta bem doseada ao longo do conto. Apesar das limitações de um narrador autodiegético, o leitor não só compreende o que está a ocorrer, como o faz ainda antes da personagem – inclusive o final, que se torna evidente um pouco cedo demais.

“Em Asas Vermelhas”, Nuno Almeida: O wordbuilding fez-me considerar uma inspiração “ariana” como base: divisão da sociedade entre os loiros, de pele branca e olhos azuis/verdes a viverem no luxo tecnológico, e os morenos, vivendo na lixeira da cidade muralhada. O enredo centra-se na revolução que inevitavelmente advém, mais tarde ou mais cedo, de tal conceito, partindo dos pontos de vista – ainda que em terceira pessoa – de três personagens que, como se tornou bastante comum, são como que forçadas a assumir um papel na revolução. A estrutura está evidente: apresentação das personagens e worldbuilding, evento que despoleta os acontecimentos, clímax, e resolução. Fica, no entanto, a sensação de que seria uma história para um formato maior.

“Dispensáveis”, Ana Nunes: Recordam-se de ouvir sobre sociedades em que os filhos, chegada certa altura, abandonavam os pais numa montanha? É o ponto de partida para esta distopia, situada em Portugal, e com um travo de ditadura salazarista. Narrado em primeira pessoa, segue a visão parcial de um idoso que se tornou “dispensável” e deve, por isso, abandonar a sociedade: ou, mais correctamente, ser abandonado por esta. Uma premissa interessante, com um final ajustado ao que foi demonstrado sobre o wordbuilding. Apresentou, no entanto, algumas falhas e gralhas, como por exemplo uma troca de nomes, e a personagem do neto mais novo, cuja construção o faz parecer irreal.

“Arrábida8”, Pedro G. P. Martins: Apesar de ter sido o worldbuildingque mais me despertou o interesse, foi o conto que menos gostei. Julgo que ficou um grande potencial por desenvolver, não apenas no mundo criado, mas também no enredo. Não se percebe bem qual a importância do evento que se encontra no centro do enredo, nem o porquê de ser “ilegal”, algo a que o grande cariz científico não ajuda.

“Somos Felizes”, Sara Farinha: O meu conto favorito da antologia. A premissa é simples, mas poderosa: um mundo onde ser infeliz não é opção. Todos devem ser felizes. Tendo presenciado um momento marcante, o protagonista tem não só de lidar com uma depressão, como com a pressão de fingir tê-la ultrapassado. Uma situação pela qual bastantes pessoas passam na actualidade, e que está bem adaptada ao wordbuilding do conto. A autora consegue manter o interesse do leitor nesta “batalha” do protagonista, e do percurso que este percorre.

Fornada de Contos IV [Fantasy&Co]

“Um Céu Nublado”, Pedro Cipriano: O melhor do conto é o modo como a “viagem no tempo” ou as “alucinações” – não fica explícito do que se trata – se inserem num dia rotineiro da protagonista, primeiro apenas à escala de uma bandeira, mais tarde alongando-se a toda uma área. Infelizmente, a história e a narração não parecem ter um objectivo, e o conto parece incompleto não apenas por isso, mas também por não se ficar a saber nada sobre o porquê destas aparições, o que são exactamente, e o que acontece no final.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/02/um-ceu-nublado-pedro-cipriano/

“Avaria Fantasma”, Carlos Silva: O conto é simples, não traz surpresas nem inovações, mas está extremamente bem conseguido. Embora o leitor consiga compreender de imediato o ocorrido, tal não o impede de emergir nos sentimentos e compreensão da personagem, os quais vão crescendo através de uma construção gradual, que culmina num final quase irónico, visto que remata um conto de futuro moderno e científico com uma expressão popular e antiga.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/05/avaria-fantasma-carlos-silva/

“O Jogador”, Pedro Cipriano: Uma premissa interessante, misturando o vício pelos gosto com o sobrenatural – prisão temporal? Peca, no entanto, por não se compreender a ligação que o desenvolvimento e foco do conto tiveram com o seu final.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/09/o-jogador-pedro-cipriano/

“A Sombra no Quarto”, Ricardo Dias: Um conto que se destaca pela subversão que faz de um mito conhecido pela grande maioria dos leitores – se não mesmo todos. Bom ritmo e escrita agradável.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/12/a-sombra-no-quarto-ricardo-dias/

“Nas Margens do Rio”, Pedro Pereira: Subordinado à mitologia japonesa, o conto desenvolve-se em cinco partes. Apesar de algumas falhas, tanto a nível gramatical como em termos de pontuação, a escrita permite uma leitura agradável. Tanto o enredo quanto as personagens o aproximam do imaginário infantil.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/nas-margens-do-rio/

“Uma Caligrafia de Violência”, Nuno Almeida: A narração directa centra-se num só momento, mas o enredo parece espalhar-se para além do mesmo. Um conto bem escrito envolvendo mitologia judaico-cristão, bem estruturado e desenvolvido.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/06/uma-califragia-de-violencia-nuno-almeida/

“Uma Noite Fria”, Pedro Cipriano: Segue a mesma premissa e personagem de “Um Céu Nublado”, mantendo os mesmos pontos fortes, e os mesmos pontos fracos, aos quais se junta um generalização em relação ao povo alemão que por vezes roça o preconceito.

[“Obrigado, então…” > “Obrigada”, visto que é uma mulher quem está a falar.]

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/09/uma-noite-fria-pedro-cirpiano/

“Tua Aurora”, Sara Farinha: A Noruega e a Aurora Boreal servem de ambientação a este conto de romance, drama e escolha, com um pouco de fantástico, discreto durante a maioria da narração, mas que no final se revelou essencial. O enredo é simples, estando o foco nos sentimentos das personagens, os quais ficaram bem desenvolvidos e explorados.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/tua-aurora/

“O Caçador”, Pedro Pereira: O autor faz uso das duas perspectivas diferentes – a presa e o caçador – para apresentar as verdades e factos de um e de outro. Uma experiência interessante, que quase faz rir pela quantidade de vezes que encontramos este tipo de comportamento – narrar aquilo que nos interessa e deixar de fora o que não interessa – no dia-a-dia. O ritmo da escrita acompanha as cenas que são descritas, contudo, notei algumas falhas em relação à colocação das vírgulas.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/27/o-cacador-pedro-pereira/

“A Dança Sagrada”, Sara Farinha: Divido em seis partes, o conto aborda cinco personagens diferentes, cinco histórias diferentes, cinco mortes diferentes, unidos pelo espaço geográfico, como fica evidente na última e sexta parte. A escrita tem o seu quê de etérea, e a ideia é interessante. Contudo, não é algo que permaneça na memória.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/a-danca-sagrada/

“Perdidos”, Liliana Novais: Um conto que aborda a temática da mulher de branco, um mito em que uma jovem mulher, maltratada em vida por um ou vários homens, permanece neste mundo a provocar acidentes aos incautos (resumidamente falando). Apesar da boa premissa e de alguns bons detalhes a modernizarem o conto, este falhou em termos de desenvolvimento e da narração em si, a qual contém algumas inconstâncias.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/perdidos/

Fornada de Contos III [Fantasy&Co]

Nove contos disponíveis e lidos no blog Fantasy&Co. Desta vez, escritos de Pedro Pereira, Pedro Cipriano, Carlos Silva, Vitor Frazão, Carina Portugal, Sara Farinha, e Leonor Ferrão, com o seu conto de estreia no blog.

“O Acordo”, Pedro Pereira: John Harris é injustamente acusado e julgado como sendo um assassino em série. As razões para o engano não são exploradas, nem o porquê de todas as provas, inclusive o ADN, o demarcarem como culpado – suspeito do homem que lhe oferece o acordo. Mas não é esse o foco do conto: o foco é no acordo entre John e um homem suspeito, de cuja identidade desconfiamos e no final comprovamos. O enredo centra-se, então, numa acção já clássica e explorada de várias formas, em diversos modos artísticos, mas que consegue ainda assim providenciar uma leitura agradável.

Narrado em primeira pessoa, segue uma estrutura bastante linear – exposição, complicação, ponto de viragem e resolução –, com um final irónico, igualmente esperado a partir de determinado momento.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/18/o-acordo-13-pedro-pereira/

“Boas Festas Vindas do Céu”, Pedro Cipriano: Já me habituei a ir conhecendo o worldbuilding que Pedro Cipriano nos vai apresentando aos poucos através dos contos que dispersa, ora no Fantasy, ora em projectos como a Lusitânia. O método utilizado, que aqui não foi excepção, consiste em centrar-se numa personagem – Rui, o piloto, neste caso – e a partir da sua esfera privada dar a conhecer um pouco mais do panorama geral. E em nenhum deles me lembro de ter visto um final feliz, visto que quando o protagonista até nem fica muito mal, há sempre algo a lembrar as consequências para o outro lado. Algo inevitável numa guerra, e que o autor não foge a mostrar, não em tom moralista, mas em insinuações que levam o leitor a lembrar-se disso por ele mesmo.

Assim sendo, julgo já não me ser possível encarar estes contos isoladamente, mas sim como um círculo de contos, mostrando todos eles detalhes na mesma moeda (em qualquer das suas faces). Neste em específico, salienta-se a descrição do bombardeamento, que me pareceu bem conseguida. Definitivamente mais trabalhada que a personagem de Rui, do qual sabemos apenas o suficiente para ter uma ideia de onde se posiciona na imagem maior.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/27/boas-festas-vindas-do-ceu-pedro-cipriano/

“A Besta”, Pedro Pereira: Situando-se no Gerês, o enredo concentra-se num acampamento entre amigos que não corre exactamente como planeado… E praticamente tudo vira para o torto. Gostei da ideia-base, no entanto alguns momentos pareceram-me forçados, enquanto outros precisavam de maior descrição, especialmente quando traziam uma carga emocional atrás.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/09/19/a-besta-14-pedro-pereira/

“Os Blémios”, Carlos Silva: Narrado em primeira pessoa pela vítima, “Os Blémios” vai buscar um mito antigo e coloca-o na actualidade, não apenas relembrando estas criaturas já quase esquecidas, como também justificando a sua presença fora do habitat que lhes é atribuído pelo mito. Bem conseguido e bem escrito.

[“O homem à minha frente tirou óculos escuros” > “os óculos escuros”]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/03/os-blemios-carlos-silva/

“Aos Teus Olhos”, Vitor Frazão: Apesar da primeira parte do conto poder enganar, o enredo centra-se em Jules e no passado do qual ele procura avançar, sem sucesso. As personagens encontram-se bem construídas, a escrita segue o cariz sarcástico já costume ao autor – gosto particularmente do uso da gíria e da descontracção que parece incutir ao texto –, e o que vemos do worldbuilding destaca-se pela positiva. Pareceu-me, no entanto, uma prequela de algo maior.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/10/aos-teus-olhos-15-vitor-frazao/

“Assombração”, Leonor Ferrão: Seguindo o clássico da casa assombrada, um grupo de amigos de infância passa a noite de Halloween na habitação onde se diz existirem fantasma. No ano em que a narrativa decorre, a fama finalmente justifica-se, o que me leva à questão: porquê naquele ano, e não nos anteriores? Nada foi indicado no sentido do porquê de aquele ano ter sido diferente.

Gostei da imagem da assombração em si, incluindo o detalhe final. Gostaria de a ver mais trabalhada, com uma maior consistência nabackstory.

Quanto à escrita, estranhei-a. Provavelmente devido aos conectores escolhidos, e ao uso de um ou outro vocábulo que não se coadunavam com o tom geral do texto, pareceu-me monocórdica.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/31/assombracao-leonor-ferrao/

“A Profecia”, Pedro Pereira: Num worldbuilding onde humanos são obrigados a enfrentar demónios, a cobiça não desapareceu ainda, levando a que três entidades se enfrentem para conseguir um só objecto, poderoso o suficiente para influenciar o final da batalha. Um conto que se centra essencialmente em acção, e cujo final em aberto leva a crer que o autor planeia regressar a este panorama e personagens. Para já, não conta que elementos originais.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/11/03/a-profecia-14-pedro-pereira/

“Pintado a Sangue”, Carina Portugal: O ambiente e o enredo já foram bastante utilizados quer em literatura quer noutras formas de arte: uma casa assombrada, uma nova inquilina, e segredos antigos que, desvendados, as unem. O início demora a desenvolver-se mas, uma vez isso feito, o enredo avança a bom ritmo.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/pintado-a-sangue/

“Trapos Vivos”, Sara Farinha: Um conto simples que por vezes parece alongar-se mais do que realmente precisa. Explora o interior da personagem, e a sua relação com a boneca. Apesar de levantar a dúvida ao leitor sobre estar tudo na cabeça da personagem ou não, o bom final tira todas as dúvidas.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/trapos-vivos/

Fornada de Contos II [Fantasy&Co]

Por razões pessoais (no estilo “tenho viajado que me farto”), o blog não tem tido grandes actualizações, é verdade, mas como com snackstambém se engana a fome, eis mais um dezena de contos, onde o Fantasy volta a dominar. Fazer o quê? É onde os encontro de graça e com regularidade. Temos então os autores Pedro Pereira, Pedro Cipriano, Carlos Silva, Vitor Frazão, Carina Portugal e Sara Farinha.

“O Túmulo de Cristal”, Pedro Pereira: Um conto de scifi através do qual espreitamos para um mundo mais vasto do que aquilo que era possível colocar num conto. O enredo decorre a um ritmo lento, havendo uma repetição da palavra “cristal” e as personagens pouco interesse despertam no leitor. Já o wordbuilding tem bases bastante boas, com uma Igreja autoritária cujos deuses talvez não sejam tão divinos quanto isso, e a origem e conceito do próprio Mar de Cristal.

[“é que toda água se” a água]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-tumulo-de-cristal/

“O Guarda-Livros”, Pedro Cipriano: O conto parece desenvolver-se a dois níveis: o do livreiro, e o do worlbuilding. Na primeira parte é-nos introduzido Carlos, o livreiro, e o conhecimento de que Portugal deixou de existir, encontrando-se os territórios do que antigamente era um país em guerra constante – como consequência, uma entre várias, todo e qualquer livro que demonstrasse Portugal como país uno tornou-se proibido.

Durante as duas partes que se seguiram, em que Carlos, ante um bombardeamento inimigo, fica preso com os vizinhos no abrigo do prédio, desejando o resgate e simultaneamente temendo que o mesmo leve à descoberta dos livros escondidos, pareceu-me que o mesmo era utilizado como ponto de partida para expor o wordbuilding, a situação de futuro ficcional criado pelo autor. Na última parte, contudo, a personagem volta a ganhar maior relevância, demonstrando uma evolução (ou regressão, conforme o leitor o interprete), fruto das experiências vividas.

A nível da narração, esta não se destacou nem positiva nem negativamente, com excepção das partes 2 e 3, em que os saltos temporais não detinham qualquer marca distintiva, o que por vezes levou a confusão, obrigando à releitura do trecho.

[“A som estridente” O som (2/4); “vicissitudes da vida tinha ditado” tinham (3/4)]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-guarda-livros/

“A menina que não digeria os livros”, Carlos Silva: Qualquer coisa que na sua primeira frase tenha “Harry Potter” apanha-me de imediato a atenção. À medida que o conto avança, contudo, torna-se perfeitamente capaz de a manter por si mesmo: porque é uma crítica algo humorística de uma situação actual, tornando o metafórico no literal, que se tem vindo a desenvolver na blogosfera e que já vi muitas vezes a causar confusão. Esta foi a abordagem que mais apreciei, fazendo lembrar o utilíssimo conselho de Gaiman: make good art.

[“sobre mesinha” sobre a; “página e mansinho” de mansinho]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/06/18/a-menina-que-nao-digeria-os-livros-carlos-silva/

“A Escuridão”, Pedro Cipriano: O conto contextualiza-se num cenário apocalíptico, onde a situação actual ainda é incerta, centrando-se num grupo de cientistas e militares fechados no que me pareceu ser um centro de pesquisa, dado que o ar exterior os levaria à sua morte. Até que se verifica uma série de assassínios, demonstrando que também no interior se encontram em perigo. Infelizmente, não me achei que o mistério se encontrasse bem aproveitado, e o triângulo amoroso Rui-Rita-Débora é dispensável e pouco contribui para o enredo.

[“com intuito ver familiares” de ver; “Milhares de linhas com definiam” com o quê? (1/5)]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/a-escuridao/

“Roy just wants to have fun”, Vítor Frazão: Um conto vampiresco que vira as ideias pré-concebidas do avesso, numa escrita descontraída e quase irónica. Simples e eficaz.

[“era capaz tirar-lhe as” de tirar-lhe]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/roy-just-wants-to-have-fun/

“Pão para a alma”, Sara Farinha: Um dos poucos medos universais que será capaz de ladear o medo da morte é provavelmente o medo de uma degeneração e atrofiamento lentos, tanto do corpo quanto do espírito. Neste conto, a autora visualiza um futuro onde a raça humana se encontra a caminhar lentamente para a extinção exactamente através dessa degeneração. Miguel, no entanto, não desiste de encontrar de procurar a cura, sendo nessa insistência que encontra a pior das degenerações.

Um bom tema para exploração, em que o final incerto resultou a favor.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/pao-para-a-alma/

“Pele de escrava”, Carina Portugal: Com a escravatura, os abusos que esta trouxe sobre muitos, e o desejo de liberdade como base, o conto assume ainda um cariz de fantasia que muito levou ao desenvolvimento do enredo. Não sendo particularmente original, é uma leitura que agrada.

http://blocodedevaneios.blogspot.co.uk/2013/08/conto-pele-de-escrava-de-carina-portugal.html

“Embalada no teu silêncio”, Sara Farinha: Numa ideia simples, revolve em torno do amor entristecido entre um selkie e uma mulher. Os diálogos constituem-se por frases curtas, julgo que exactamente numa tentativa de acentuar a tristeza e uma certa hesitação gerada por culpa, pelo saber de não ser aquilo o melhor. Não me pareceu que o seu desenvolvimento fosse dos melhores, e volta e meia há um exagero na purple prose.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/embalada-no-teu-silencio/

“Perdidos”, Carlos Silva: Encontramos aqui os atritos e arrependimentos entre casais que já se tornaram comuns nos dias actuais, não apenas pela situação em que se encontram, mas também pelos factores que elevaram à sua existência – perfeitamente encaixados num conto de sci-fi, com a escrita sem falhas a apontar que já se espera do autor. Apesar da simplicidade do momento apanhado e de o fim se tornar esperado a partir de certo momento, tem um resultado final favorável.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/08/perdidos-carlos-silva/

“Estilhaços”, Carina Portugal: Há alguma coisa de atractivo em histórias sobre casas assombradas, e ainda mais quando temos criancinhas desobedientes pelo meio. Pareceu-me, no entanto, que a autora conseguiu utilizar bem os elementos que tinha para funcionarem a favor do conto, tanto na parte que mais se assemelha a um mito que se conta à beira da lareira em noites de Inverno, como no final, que apesar de já adivinhado, não deixou de manter a atenção e interesse do leitor.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/estilhacos/

“Fantasy&Co: Géneros Literários”, VVAA

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O projecto Fantasy&Co celebrou o seu primeiro aniversário, lançando em honra da ocasião um e-book gratuito de contos dedicados a géneros literários. Não sendo possível uma representação de todos os existentes, podemos encontrar Steampunk, Horror, Ficção Científica, Fantasia Urbana, New Weird e História Alternativa.

 “O Homem Voador” (Steampunk), Pedro Pereira: Um inventor, desesperado em conseguir o dinheiro necessário aos medicamentos da mulher moribunda, arrisca tudo na concretização do seu sonho: voar. Essas mesmas asas são o elemento que permitem inserir o conto no género Steampunk – embora este tenha muito mais que se lhe diga, duvido que se consiga encaixar em algo que tem como limite 1500 palavras.

Toda a narrativa se centra na ânsia, esperança e receio do inventor aquando o salto que testará a eficácia da invenção, sendo um conto simples e de fácil acompanhamento.

“A Luz do Vermes” (New Weird), Carina Portugal: Tendo despertado o desagrado da namorada, Rafael vê-se obrigado a passar a noite na rua, na companhia e protecção de um rolo de massa – algo que não parece de grande ajuda quando se acaba numa armadilha com vermes gigantes.

Notei algumas vírgulas a mais, outras mal colocadas, mas no geral encontra-se bem escrito, destacando-se o final, com um “cuidado com as aparências”.

Como não tenho grande conhecimento no que respeita ao New Weird, não saberei dizer se se insere bem, mal ou assim-assim no género a que propõe.

“Vingança é um prato que se serve frio” (História Alternativa), Pedro Cipriano: O assassínio do arquiduque Franz Ferdinand ficou na História como o estopim que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Neste conto, o autor explora as possibilidades caso o atentado ao arquiduque tivesse falhado, permitindo-lhe escapar com vida e assumir o trono do Império Austro-Húngaro.

Sem grandes momentos de acção e centrando-se em diálogos e contextualização pelos mesmos, só no parágrafo final é que temos um desenvolvimento em estilo “resumo narrativo histórico” – que muitas vezes vemos em final de filmes –, onde todas as consequências são expostas.

Tratou-se de uma proposta que necessitava de mais espaço para ser explorada.

[“Creio esta vingança te dará um gosto especial” Creio que esta vingança]

“O medo é a raiz de todos os males” (Horror), Sara Farinha: Uma boa ideia de partida, não tão boa prossecução. Além do excesso de vírgulas, houve algumas escolhas de palavras nas descrições que me pareceram descabidas – o “capacete” da bibliotecária, por exemplo – e um desnecessário alongamento inicial. Como Horror, ficou aquém.

“Máscaras de Pedra” (Fantasia Urbana), Ana Ferreira: Um conto com boa ideia de enredo e boas personagens, que se insere no género pretendido ao mesmo tempo que demonstra um cariz nacional. No entanto, o final pareceu incompleto e julgo que precisa de “esticar mais as asas”. Gostarei de o ver desenvolvido, nem que seja em noveleta.

“Esperança” (Ficção Científica), Liliana Novais: Revolvendo em torno de uma civilização em vias de desaparecer pela morte/extinção(?) do seu planeta/estrela, e, em especial, na convicção esperançosa do narrador em sobreviver, o conto falha na interacção, oscilando entre narração e descrição, numa escrita simplista e algo repetitiva.

Os contos podem ser também lidos no blog: http://fantasyandco.wordpress.com/

“Fantasy&Co: Halloween”, VVAA

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O Fantasy&Co é um projecto que se tem dedicado à produção e divulgação de contos de autores nacionais dentro da área do fantástico. Recentemente, o blog resolveu lavar a cara e, junto com as mudanças, compilou alguns dos contos temáticos em ebooks que disponibilizou gratuitamente e podem ser adquidos aqui por todo e qualquer interessado.

Ahem. Apesar de ler bastantes contos, inclusive uma quantidade razoável do Fantasy&Con, não sou grande coisa a comentá-los. Evito faze-lo, na verdade – e antes que qualquer autor ceda aos instintos de me esganar, a única razão para isso é que na grande maioria dos casos eu pura e simplesmente não sei o que dizer. O que é problemático, visto que a grande maioria das coisas que escrevo são contos. Devia ter melhor olho para “topar” o que me agrada ou desagrada nos ditos, nem que seja para melhorar o meu próprio trabalho.

This calls for a change. Therefore, aqui fica a primeira opinião relativa a uma antologia de contos.

“A menina que não gostava de doces”, Carina Portugal – Algumas incongruências e repetições logo no início requerem uma maior atenção na revisão (o chapéu de bruxa que primeiro é descrito como estando na cabeça, e logo de seguida na mão, por exemplo, ou o “Por fim, parou junto de uma grande casa” quando duas linhas acima já nos tinha dito que a personagem correu até à casa mais próxima) e há um excesso de vírgulas. Julgo que teria ficado a ganhar caso se tivesse explorado o porquê de a menina não gostar de doces – fica-se sem saber o porquê da embirração, restando as teorias –, mas gostei da ideia de pegar no ponto de vista de uma criança-bruxa e do modo singelo como foi tratado, adequando-o à idade da personagem.

“Morte Branca”, Liliana Novais – O conto começa com a menção ao dia de Todos-os-Santos e à tradição portuguesa de visita-anual-aos-cemitérios, que honestamente uma pessoa tem tendência a esquecer-se quando se fala em Halloween, mas que tecnicamente faz parte, e de um modo mais “nosso”, por assim dizer. Por isso fiquei um pouco desiludida quando me apercebi que a autora não iria continuar por essas linhas: pareceu-me que teria sido um modo refrescante e inesperado de tratar o tema. Em vez disso, o protagonista continua a expor as suas mal-humoradas opiniões sobre a festividade, até ser interrompido pelo tremor do chão e gritos. Não evitei um sorriso ao ver o coelho branco gigante (apesar de não o menosprezar. Ninguémsensato o faz), e, no entanto, something is missing. Ou por construções do género “Parado à minha porta as pessoas fugiam a correr” que apesar de se compreenderem parecem ser demasiado rústicas, digamos, ou pelos problemas de pontuação, cujo excesso ou, mais frequentemente, ausência, afectaram negativamente a leitura

“Bruxaria”, Pedro Pereira – Ah, o famoso jogo do copo. Quem nunca experimentou ou sabe de quem tenha experimentado? O conto começa com o mundano de um grupo de amigas a jogarem-no, mas, como esperado, não poderia acabar bem. Apesar de não se destacar pela originalidade, encontra-se bem escrito e é uma leitura agradável. Well, tão agradável quanto uma matança pode ser. [Chamo atenção para o erro de digitação na linha 22 da página 10 do pdf, em que se lê “garanta” em vez de “garganta”]

“A noite de todas as sombras”, Sara Farinha – O conto vai-se construindo a partir da atenção aos pormenores, focando mais uma personagem que propriamente um enredo. Gostei do final, no entanto, a escrita teria a ganhar caso evitasse floreados a mais. [“Em cada novo dia adensa-se o cinzento dos céus, menos horas de luz e escasseia a claridade” – Falta um verbo nesta frase]

“Chekhov’s Gun”, Carlos Silva – Não conhecia a metáfora que deu mote ao conto, ou melhor, conhecia-a, mas não à terminologia. Sendo um conto simples, encontra-se bem trabalhado. E já me estava a preparar para “reclamar” em relação a um certo e determinado detalhe, quando a pergunta final lhe deu a volta com um “lol, no, bitch, não é falha minha”, tornando-o numa mais-valia. [“mesmo apesar da barba” Este “mesmo” é desnecessário e é um solavanco na leitura; “os olhos cansados e o corte de cabelo desalinhado” Por que não se continuou com o “dos… do”?]

“Se uma árvore cai na floresta…”, Vitor Frazão – As descrições estão óptimas, havendo uma grande facilidade na visualização dos detalhes (macabros, as it was suppose to be). O conto foi bem conduzido e definitivamente a árvore tem carisma para merecer aparições noutras histórias. Gostei da reversão, relembrando quão monstruosos os seres humanos podem ser. O final foi esperado, mas a outra hipótese tê-lo-ia deixado insosso. [“Foram ele que me obrigaram” – “eles”]