Fornada de Contos X [Fantasy&Co]

“A Barca”, Pedro Pereira – “E se o Auto das Barcas tivesse sido escrito nos dias de hoje?” parece ser a premissa que levou a este conto. Embora não se encontre lado a lado com o original – sendo também o formato e o espaço sócio-cultural e linguístico díferes –, é uma leitura rápida e divertida.

“Cegueira”, Pedro Cipriano – Ler os primeiros parágrafos é dar uma palmada na testa: “Como não adivinhei logo pelo título que viria aí algo relacionado com o Ensaio Sobre a Cegueira?” Nunca li esse livro, o que irá sem dúvida influenciar a minha percepção e opinião sobre o conto. Julgo, contudo, que a ligação se encontra evidente (ou isso ou dei o tiro completamente ao lado), tendo-me ainda parecido que pega a narrativa onde a obra de Saramago a terminou, invertendo as situações: enquanto os outros recuperam a visão, a protagonista perde-a, ainda que momentaneamente. No tempo que dura esse evento, troca com o marido filosofias e os ensinamentos que a experiência forneceu. Também a escrita em si se procura contextualizar com a de Saramago.

“Xeque-Mate”, Carina Portugal – Nunca gostei de Prefiro Rosas, Meu Amor, à Pátria de Ricardo Reis, pela indiferença com que o sofrimento alheio é encarado pelos jogadores de xadrez. Gostei, contudo, de como a autora pegou nesse poema como base e o entrelaçou neste conto: desenvolveu-o, deu-lhe uma outra perspectiva, e manejou um equilíbrio entre o antigo e o futuro. Conseguiu desenvolver bem uma boa ideia, pegando em algo que em princípio a maioria dos leitores conhecerá (lembro-me de este poema de Ricardo Reis ser lido e analisado no âmbito da disciplina de Português) sem necessidade de ajudas extras – e para quem não o fizer… Lá está o final.

“O Campo”, Pedro Cipriano – Um grupo de jovens desafia as ordens dos pais – de não entrar em determinado campo – com o intuito de recuperar uma bola perdida. As consequências acabam por justificar a existência da ordem, e apesar de o conto se encontrar classificado como “distopia” os acontecimentos narrados prendem-se com eventos que ocorrem ainda hoje. O modo como a narrativa se desenvolveu transmitiu a impressão de se tratar mais de uma introdução que de um conto independente.

“A Faca”, André Alves – O triângulo amoroso que leva ao crime passional, trabalhado em contexto de realidades paralelas e ficção científica. Quando se pega numa tropp já tão utilizada, os restantes elementos da história precisam de algo que a faça destacar, o que não se verificou aqui. A sequência narrativa tornou-se algo confusa, terminando sem uma explicação satisfatória sobre os acontecimentos, enquanto a escrita apresentou falhas a nível da pontuação (dos diálogos, em relação ao vocativos, depois do “mas”, etc) e no desenvolvimento das personagens, que se encontram superficiais.

“A Reabilitação”, Pedro Cipriano – Não há muito que dizer sobre este conto. Trata-se de mais um “detalhe no quadro maior” do worldbuilding que o autor tem vindo a desenvolver há vários anos, desta vez focando num exercício de tortura disfarçada de reabilitação ao estilo militar. A falta de desenvolvimento de alguns pontos cruciais da trama, que teriam também criado empatia com o protagonista, e a sensação de falta de propósito do conto levaram a que não se tornasse uma história capaz de permanecer na memória.

“Rios de Sangue”, Pedro Cipriano – Novamente, um conto periférico no worldbuilding que tem vindo a ser construído pelo autor ao longo dos anos. O foco encontra-se nos soldados da Frente, seguindo o “resgate” de um deles. Os acontecimentos teriam potencial para terem sido mais aprofundados, transmitindo a impressão de que houve a intenção de demonstrar como o horror se pode tornar rotineiro – esquecendo que o rotineiro não terá de ser propriamente banal. Uma pesquisa mais aprofundada sobre as consequências mentais em soldados teria alinhavado melhor o conto.

A nível narrativo, apresenta algumas gralhas que serão facilmente colmatadas com uma revisão, assim como falhas a nível da pontuação – a falta de vírgula no vocativo, por exemplo – e no uso de alguns artigos desnecessários.

Todos os contos poderão ser lidos gratuitamente aqui, encontrando-se também disponíveis no smashwords.

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Fornada de Contos IX [Fantasy&Co]

“Livre”, Pedro Pereira – O autor volta a partir das personagens e do worldbuilding já abordados em vários dos seus contos anteriores, tornando-o em mais uma peça do puzzle geral. Narrado em primeira pessoa, o foco encontra-se em Leviatã, descrevendo o seu acordar e as primeiras acções que se seguirem. Tratou-se de uma narrativa demasiado factual, centrada em narrar os acontecimentos, mas esquecendo de transmitir ao leitor o elemento sentimental ou até mesmo manter um maior equilíbrio entre descrição directa e indirecta. Ademais, a narração em primeira pessoa implica que haja um afunilamento à visão da pessoa, expressa não apenas no transmitir das suas opiniões, mas também na linguagem e modo como pensa e se descreve – ter alguém a descrever as próprias acções com “o meu longo cabelo”, por exemplo, confere um elemento de artificialidade à narração.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638253

“O Industrioso SL4V3”, Ricardo Dias – A comédia presente no modo narrativo entrelaça-se bem no assunto mais sério que o leitor consegue depreender das entrelinhas (ainda que o próprio protagonista não o consiga). A história encontra-se bem estruturada, com um bom pacing e um final que responde no tempo certo às questões que vamos levantando durante a leitura. Ademais, destaca-se por detalhes como do nome de SL4V3 ou da nave, Vasco da Gama.

Contos disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638255

“O Mineiro”, Pedro Cipriano – Um desabamento leva ao encarceramento de um grupo de mineiros. O conto não desenvolve muito o wordbuilding ou o carácter de fantasia, deixando apenas algumas indicações que possam levar à dedução do leitor. Centra-se essencialmente nas descrições do acontecimento e na tensão – controlada, mas sentida – que o dito cria no grupo. Destaca-se pelo sucesso na ambientação, tendo esta sido bem conseguida, e sendo muito fácil visualizar o que é narrado.

Contos disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638257

“Os Historiadores”, Ricardo Dias – Um conto de Natal dentro da Ficção Científica, onde o radicalismo, emoldurado no tema “viagem no tempo”, acaba por se tornar o foco. Tudo na narração cresce para o final, no qual se verifica uma passagem bem conseguida entre o “ambiente” de FC para o mais “histórico”, através dos reis magos.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638258

“O Ídolo”, Pedro Pereira – Uma pitada de fantasia junta-se ao tema dos templários numa narrativa que se assemelha mais ao prólogo de algo maior do que a um conto per si. O enredo, simples, vai crescendo até ao final, deixado em aberto. Não traz muito de novo ao género.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638254

“No Carnaval Ninguém Leva a Mal”, Carina Portugal – Um enredo simples, mas bem desenvolvido, com uma narrativa capaz de cativar o leitor. Gostei em particular das personagens – umas novas, outras já conhecidas de outros contos – e dos detalhes que as individualizam. A ironia do título também não passa despercebida, logo nos inícios do conto.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/635549

“Raktabija”, Carina Portugal – Inspirado na – e desenvolvendo a – mitologia indiana, o conto foca-se na deusa Kali e na sua destruição dos demónios asuma. Como é comum em mitologias o que se reduz com esta simplicidade tem bastante mais complexidade por trás. A estrutura segue um crescendo contínuo, desde a introdução e ambientalização até à conclusão final. Que os actos caracterizadores da maldade dos asuma fossem essencialmente abusos e violações, na sua maioria contra mulheres, foi algo que não passou despercebido.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638263

“Protetização Total”, Ricardo Dias – Um conto curto e de fácil leitura centrado na recuperação de um indivíduo, após um acidente do qual não se recorda. A narração em primeira pessoa leva a que o leitor vá acompanhando o processo de descoberta mais ou menos ao mesmo tempo que o protagonista – embora a compreensão da reviravolta final chegue primeiro à compreensão do leitor.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638262

“Arraia”, Pedro Cipriano – Nesta curta narração o autor volta a adicionar mais um detalhe a um worldbuilding que tem vindo a utilizar (e a dar a conhecer por contos) faz já alguns anos. Para quem já leu os contos anteriores é fácil de compreender o ambiente histórico-social envolvente, mas o mesmo não pode ser dito para quem terá este conto como primeiro contacto com o worldbuilding em questão. Narrado em primeira pessoa, prende-se, naturalmente, à percepção do narrador e protagonista. O equilíbrio entre a exposição e a descrição falha um pouco em detrimento da descrição, com excepção da parte final. Aliás a descrição final, descrevendo um X que significa Y, é o melhor do conto.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638249

“A Sentinela”, Pedro Cipriano – Um conto anterior do mesmo autor narra sobre um viajante que segue de povoação em povoação avisando as gentes sobre a ameaça que os espera, da qual a única salvação é a protecção da muralha. Embora as personagens e o “tom” do conto sejam diferentes, este é, de certo modo, uma continuação. Narrado na terceira pessoa, foca-se numa batalha, descrita com foco na perspectiva de um jovem sentinela. Tal como o conto que o antecedeu, falha em esclarecer pontos fulcrais no enredo relativamente à ameaça: quem são, quais os seus motivos. Num geral, trata-se menos de um conto com princípio, meio e fim, e mais de um detalhe de algo maior.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/671239

Fornada de Contos VII [Fantasy&Co]

Depois de uma pausa na semana passada por motivos pessoais, eis a segunda parte da leitura dos contos disponíveis no Fantasy&Con, leitura essa que estive a colocar em dia com algum fervor 😉 Ficam então as opiniões a contos de Ricardo Dias, Carina Portugal, Leonor Ferrão e Pedro Cipriano.

“Desporto Radical”, Ricardo Dias: Cyberpunk não é um género pelo qual tenha grande apreço, mas este apresenta também traços de Policial, que já é bem mais do meu gosto. O enredo encontra-se bem estruturado, e as personagens apresentam uma ou duas características distintivas, suficientes para o tamanho do conto. Há um bom uso da tecnologia imaginado para o tema do assassino em série. O final ecoa ainda a Terror.

“Jim”, Carina Portugal: Um conto fofinho com o seu grau de tristeza, que usa tanto o “não aceites coisas de estranhos” como “o feitiço virou-se contra o feiticeiro”. Percebe-se de imediato qual a natureza de Jim, o que julgo ter sido propositado. As motivações do vilão ficam por esclarecer, o que achei que poderia ter sido mais desenvolvido. Destaca-se positivamente pelas descrições.

“O Meu Humano”, Leonor Ferrão: Adorei a linha de entrada fazendo um paralelo com a de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Temos aqui um narrador em primeira pessoa: o cavalo. Situando o conto num mundo onde o cavalo é a espécie dominante, a autora subverte a nossa visão, ao mesmo tempo que mantem muito dela. Explora a equitação em geral e os resultados de um mau cavaleiro em particular. É, também, um alerta, servindo tanto de entretenimento quanto de informativo. Apresenta algumas falhas a nível das vírgulas.

“O Cupão”, Pedro Cipriano: Mais um conto ambientado nowordbuilding que o autor tem vindo a desenvolver em vários contos anteriores. Também este se foca apenas num momento, desta vez no percurso de um dos revolucionários. Deixa mais subentendido do que efectivamente conta.

“O Pinheiro de Natal”, Pedro Cipriano: Uma Consoada que se revela triste para a família, mas cujas intervenções do avô falecido são não só proféticas, como podem ajudar a ultrapassar o mau momento. Notei incongruências como uma família rural e religiosa não ir à Missa do Galo, e “Consoada” ora está em minúscula ora em maiúscula. As frases do avô são por vezes ambíguas, parecendo que se referem ao neto, o único que o ouve, em vez de à avó.

“Icarus Blues”, Ricardo Dias: História de tentativa, erro, captura e fuga que utiliza pontos clássicos da SciFi. Curiosamente, considerei “Zarolho”, o alien, com uma personalidade mais sólida que o protagonista e narrador.

“Os Sapatos Negros”, Carina Portugal: Por um acaso de sorte, Âmbar escapou a uma carnificina sete anos atrás. No entanto, para cumprir os seus propósitos, o sacrifício deve ser completado, e os sapatos negros, representação e fonte de poder daquele mal, perseguem-na para terminar o serviço. O conto apresenta boas descrições e uma boa narração, mas desenvolve pouco as personagens.

“A Filha da Peste”, Carina Portugal: Até ao momento é o meu conto favorito da autora. Faz uma excelente ambientação tanto da cidade de Veneza quanto dos festejos carnavalescos, interligando-os com o enredo, que por sua vez está bem construído e multifacetado. As descrições são vívidas e fáceis de imaginar, e as personagens bem construídas, apesar do pouco espaço inerente ao formato. Espero por uma continuação, em particular uma que desenvolva a relação do Orfeo e do Ciro.

“O Poeta”, Pedro Cipriano: Mais um conto em que o autor explora uma personagem do worldbuilding que anda a desenvolver para algo maior. Desta vez aborda um velho poeta que durante vinte anos se fechou ao mundo, desconhecendo, portanto, os acontecimentos do exterior. Um sacrifício com o objectivo de grandeza literária que de nada serve, visto que esqueceu o mais importante: viver o seu próprio tempo.

“Os Cadáveres”, Pedro Cipriano: Narrado em primeira pessoa, faz uso de frases curtas para causar um maior impacto. Apresenta um grande detalhe nas descrições apocalípticas, ao mesmo tempo que mantém uma força psicológica. Há, então, um bom equilíbrio entre a mente do protagonista e aquilo que se passa em seu redor.

“Jardins Suspensos da Babilónia”, Leonor Ferrão: Do modo como o conto está ao momento em que o li, não gostei. Há pontos que se resolvem facilmente com uma revisão, como gralhas, palavras a mais e as falhas na pontuação nos diálogos. Outros já precisarão de um maior trabalho, como a estrutura e as razões para o encadear dos eventos, que se baseiam demasiado na sorte. Não desgostei da ideia base, mas o conto precisa de se expandir, de ser melhor trabalhado e de um maior desenvolvimento.

“O Caderno Vermelho”, Pedro Cipriano

capa

CIPRIANO, Pedro – O Caderno Vermelho, [s.l.], Pedro Cipriano, 2014

Sinopse: Ao iniciar a viagem, o neófito nada entende, pois não consegue ver. Está cego e não o sabe. Os símbolos em que está imerso são como um livro, só o pode ler quem o souber decifrar. O conteúdo só está acessível a quem tem vontade e uma mente aberta.

A abertura de horizontes não é um processo reversível. Não é possível voltar a dormir depois de se ter acordado completamente, assim como não é possível voltar ao ventre materno depois de nascer.

Esta não é uma iniciação a uma ordem secreta, nem a nenhum clube de eleitos. É uma iniciação ao mundo real.

Opinião: Logo ao abrir O Caderno Vermelho levei com uma surpresa: pelos trabalhos que conheço do autor, e talvez por ideias já pré-concebidas minhas, esperava uma colêctanea de contos. Em vez disso, deparei-me com poesia. Um livro de poesia dividido em três partes – “Defeitos”, “Enganos” e “Esperança” –, cada uma tratada como a paragem de uma viagem e iniciada com um curto texto de orientação. Cada uma contém doze sonetos (poemas de duas quadras e dois tercetos, para aqueles que já lançaram as aulas de Português aos arbustos), abordando temas da actualidade e através dos quais se pretende uma reflexão do leitor.

É a partir daqui que as ideias e posicionamento e cada leitor afectarão mais o seu relacionamento, digamos assim, com O Caderno Vermelho. Cada poema é uma crítica a algo, a um tema que é dado de forma muito directa à reflexão, no entanto, pareceu-me reflectir demasiado uma visão utópica, quase inocente, e que focou muito mais o que de negativo há na actualidade, ou o lado negativo de determinadas características da sociedade actual, deixando o seu lado melhor obscurecido.

Notar-se-á, contudo, que só escrever estas palavras já indica ter feito aquilo a que os poemas se propõem: levar à reflexão e consciencialização do leitor.

Fornada de Contos IV [Fantasy&Co]

“Um Céu Nublado”, Pedro Cipriano: O melhor do conto é o modo como a “viagem no tempo” ou as “alucinações” – não fica explícito do que se trata – se inserem num dia rotineiro da protagonista, primeiro apenas à escala de uma bandeira, mais tarde alongando-se a toda uma área. Infelizmente, a história e a narração não parecem ter um objectivo, e o conto parece incompleto não apenas por isso, mas também por não se ficar a saber nada sobre o porquê destas aparições, o que são exactamente, e o que acontece no final.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/02/um-ceu-nublado-pedro-cipriano/

“Avaria Fantasma”, Carlos Silva: O conto é simples, não traz surpresas nem inovações, mas está extremamente bem conseguido. Embora o leitor consiga compreender de imediato o ocorrido, tal não o impede de emergir nos sentimentos e compreensão da personagem, os quais vão crescendo através de uma construção gradual, que culmina num final quase irónico, visto que remata um conto de futuro moderno e científico com uma expressão popular e antiga.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/05/avaria-fantasma-carlos-silva/

“O Jogador”, Pedro Cipriano: Uma premissa interessante, misturando o vício pelos gosto com o sobrenatural – prisão temporal? Peca, no entanto, por não se compreender a ligação que o desenvolvimento e foco do conto tiveram com o seu final.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/09/o-jogador-pedro-cipriano/

“A Sombra no Quarto”, Ricardo Dias: Um conto que se destaca pela subversão que faz de um mito conhecido pela grande maioria dos leitores – se não mesmo todos. Bom ritmo e escrita agradável.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/12/a-sombra-no-quarto-ricardo-dias/

“Nas Margens do Rio”, Pedro Pereira: Subordinado à mitologia japonesa, o conto desenvolve-se em cinco partes. Apesar de algumas falhas, tanto a nível gramatical como em termos de pontuação, a escrita permite uma leitura agradável. Tanto o enredo quanto as personagens o aproximam do imaginário infantil.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/nas-margens-do-rio/

“Uma Caligrafia de Violência”, Nuno Almeida: A narração directa centra-se num só momento, mas o enredo parece espalhar-se para além do mesmo. Um conto bem escrito envolvendo mitologia judaico-cristão, bem estruturado e desenvolvido.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/06/uma-califragia-de-violencia-nuno-almeida/

“Uma Noite Fria”, Pedro Cipriano: Segue a mesma premissa e personagem de “Um Céu Nublado”, mantendo os mesmos pontos fortes, e os mesmos pontos fracos, aos quais se junta um generalização em relação ao povo alemão que por vezes roça o preconceito.

[“Obrigado, então…” > “Obrigada”, visto que é uma mulher quem está a falar.]

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/09/uma-noite-fria-pedro-cirpiano/

“Tua Aurora”, Sara Farinha: A Noruega e a Aurora Boreal servem de ambientação a este conto de romance, drama e escolha, com um pouco de fantástico, discreto durante a maioria da narração, mas que no final se revelou essencial. O enredo é simples, estando o foco nos sentimentos das personagens, os quais ficaram bem desenvolvidos e explorados.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/tua-aurora/

“O Caçador”, Pedro Pereira: O autor faz uso das duas perspectivas diferentes – a presa e o caçador – para apresentar as verdades e factos de um e de outro. Uma experiência interessante, que quase faz rir pela quantidade de vezes que encontramos este tipo de comportamento – narrar aquilo que nos interessa e deixar de fora o que não interessa – no dia-a-dia. O ritmo da escrita acompanha as cenas que são descritas, contudo, notei algumas falhas em relação à colocação das vírgulas.

http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/27/o-cacador-pedro-pereira/

“A Dança Sagrada”, Sara Farinha: Divido em seis partes, o conto aborda cinco personagens diferentes, cinco histórias diferentes, cinco mortes diferentes, unidos pelo espaço geográfico, como fica evidente na última e sexta parte. A escrita tem o seu quê de etérea, e a ideia é interessante. Contudo, não é algo que permaneça na memória.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/a-danca-sagrada/

“Perdidos”, Liliana Novais: Um conto que aborda a temática da mulher de branco, um mito em que uma jovem mulher, maltratada em vida por um ou vários homens, permanece neste mundo a provocar acidentes aos incautos (resumidamente falando). Apesar da boa premissa e de alguns bons detalhes a modernizarem o conto, este falhou em termos de desenvolvimento e da narração em si, a qual contém algumas inconstâncias.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/perdidos/

Fornada de Contos III [Fantasy&Co]

Nove contos disponíveis e lidos no blog Fantasy&Co. Desta vez, escritos de Pedro Pereira, Pedro Cipriano, Carlos Silva, Vitor Frazão, Carina Portugal, Sara Farinha, e Leonor Ferrão, com o seu conto de estreia no blog.

“O Acordo”, Pedro Pereira: John Harris é injustamente acusado e julgado como sendo um assassino em série. As razões para o engano não são exploradas, nem o porquê de todas as provas, inclusive o ADN, o demarcarem como culpado – suspeito do homem que lhe oferece o acordo. Mas não é esse o foco do conto: o foco é no acordo entre John e um homem suspeito, de cuja identidade desconfiamos e no final comprovamos. O enredo centra-se, então, numa acção já clássica e explorada de várias formas, em diversos modos artísticos, mas que consegue ainda assim providenciar uma leitura agradável.

Narrado em primeira pessoa, segue uma estrutura bastante linear – exposição, complicação, ponto de viragem e resolução –, com um final irónico, igualmente esperado a partir de determinado momento.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/18/o-acordo-13-pedro-pereira/

“Boas Festas Vindas do Céu”, Pedro Cipriano: Já me habituei a ir conhecendo o worldbuilding que Pedro Cipriano nos vai apresentando aos poucos através dos contos que dispersa, ora no Fantasy, ora em projectos como a Lusitânia. O método utilizado, que aqui não foi excepção, consiste em centrar-se numa personagem – Rui, o piloto, neste caso – e a partir da sua esfera privada dar a conhecer um pouco mais do panorama geral. E em nenhum deles me lembro de ter visto um final feliz, visto que quando o protagonista até nem fica muito mal, há sempre algo a lembrar as consequências para o outro lado. Algo inevitável numa guerra, e que o autor não foge a mostrar, não em tom moralista, mas em insinuações que levam o leitor a lembrar-se disso por ele mesmo.

Assim sendo, julgo já não me ser possível encarar estes contos isoladamente, mas sim como um círculo de contos, mostrando todos eles detalhes na mesma moeda (em qualquer das suas faces). Neste em específico, salienta-se a descrição do bombardeamento, que me pareceu bem conseguida. Definitivamente mais trabalhada que a personagem de Rui, do qual sabemos apenas o suficiente para ter uma ideia de onde se posiciona na imagem maior.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/27/boas-festas-vindas-do-ceu-pedro-cipriano/

“A Besta”, Pedro Pereira: Situando-se no Gerês, o enredo concentra-se num acampamento entre amigos que não corre exactamente como planeado… E praticamente tudo vira para o torto. Gostei da ideia-base, no entanto alguns momentos pareceram-me forçados, enquanto outros precisavam de maior descrição, especialmente quando traziam uma carga emocional atrás.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/09/19/a-besta-14-pedro-pereira/

“Os Blémios”, Carlos Silva: Narrado em primeira pessoa pela vítima, “Os Blémios” vai buscar um mito antigo e coloca-o na actualidade, não apenas relembrando estas criaturas já quase esquecidas, como também justificando a sua presença fora do habitat que lhes é atribuído pelo mito. Bem conseguido e bem escrito.

[“O homem à minha frente tirou óculos escuros” > “os óculos escuros”]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/03/os-blemios-carlos-silva/

“Aos Teus Olhos”, Vitor Frazão: Apesar da primeira parte do conto poder enganar, o enredo centra-se em Jules e no passado do qual ele procura avançar, sem sucesso. As personagens encontram-se bem construídas, a escrita segue o cariz sarcástico já costume ao autor – gosto particularmente do uso da gíria e da descontracção que parece incutir ao texto –, e o que vemos do worldbuilding destaca-se pela positiva. Pareceu-me, no entanto, uma prequela de algo maior.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/10/aos-teus-olhos-15-vitor-frazao/

“Assombração”, Leonor Ferrão: Seguindo o clássico da casa assombrada, um grupo de amigos de infância passa a noite de Halloween na habitação onde se diz existirem fantasma. No ano em que a narrativa decorre, a fama finalmente justifica-se, o que me leva à questão: porquê naquele ano, e não nos anteriores? Nada foi indicado no sentido do porquê de aquele ano ter sido diferente.

Gostei da imagem da assombração em si, incluindo o detalhe final. Gostaria de a ver mais trabalhada, com uma maior consistência nabackstory.

Quanto à escrita, estranhei-a. Provavelmente devido aos conectores escolhidos, e ao uso de um ou outro vocábulo que não se coadunavam com o tom geral do texto, pareceu-me monocórdica.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/31/assombracao-leonor-ferrao/

“A Profecia”, Pedro Pereira: Num worldbuilding onde humanos são obrigados a enfrentar demónios, a cobiça não desapareceu ainda, levando a que três entidades se enfrentem para conseguir um só objecto, poderoso o suficiente para influenciar o final da batalha. Um conto que se centra essencialmente em acção, e cujo final em aberto leva a crer que o autor planeia regressar a este panorama e personagens. Para já, não conta que elementos originais.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/11/03/a-profecia-14-pedro-pereira/

“Pintado a Sangue”, Carina Portugal: O ambiente e o enredo já foram bastante utilizados quer em literatura quer noutras formas de arte: uma casa assombrada, uma nova inquilina, e segredos antigos que, desvendados, as unem. O início demora a desenvolver-se mas, uma vez isso feito, o enredo avança a bom ritmo.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/pintado-a-sangue/

“Trapos Vivos”, Sara Farinha: Um conto simples que por vezes parece alongar-se mais do que realmente precisa. Explora o interior da personagem, e a sua relação com a boneca. Apesar de levantar a dúvida ao leitor sobre estar tudo na cabeça da personagem ou não, o bom final tira todas as dúvidas.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/trapos-vivos/

Fornada de Contos II [Fantasy&Co]

Por razões pessoais (no estilo “tenho viajado que me farto”), o blog não tem tido grandes actualizações, é verdade, mas como com snackstambém se engana a fome, eis mais um dezena de contos, onde o Fantasy volta a dominar. Fazer o quê? É onde os encontro de graça e com regularidade. Temos então os autores Pedro Pereira, Pedro Cipriano, Carlos Silva, Vitor Frazão, Carina Portugal e Sara Farinha.

“O Túmulo de Cristal”, Pedro Pereira: Um conto de scifi através do qual espreitamos para um mundo mais vasto do que aquilo que era possível colocar num conto. O enredo decorre a um ritmo lento, havendo uma repetição da palavra “cristal” e as personagens pouco interesse despertam no leitor. Já o wordbuilding tem bases bastante boas, com uma Igreja autoritária cujos deuses talvez não sejam tão divinos quanto isso, e a origem e conceito do próprio Mar de Cristal.

[“é que toda água se” a água]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-tumulo-de-cristal/

“O Guarda-Livros”, Pedro Cipriano: O conto parece desenvolver-se a dois níveis: o do livreiro, e o do worlbuilding. Na primeira parte é-nos introduzido Carlos, o livreiro, e o conhecimento de que Portugal deixou de existir, encontrando-se os territórios do que antigamente era um país em guerra constante – como consequência, uma entre várias, todo e qualquer livro que demonstrasse Portugal como país uno tornou-se proibido.

Durante as duas partes que se seguiram, em que Carlos, ante um bombardeamento inimigo, fica preso com os vizinhos no abrigo do prédio, desejando o resgate e simultaneamente temendo que o mesmo leve à descoberta dos livros escondidos, pareceu-me que o mesmo era utilizado como ponto de partida para expor o wordbuilding, a situação de futuro ficcional criado pelo autor. Na última parte, contudo, a personagem volta a ganhar maior relevância, demonstrando uma evolução (ou regressão, conforme o leitor o interprete), fruto das experiências vividas.

A nível da narração, esta não se destacou nem positiva nem negativamente, com excepção das partes 2 e 3, em que os saltos temporais não detinham qualquer marca distintiva, o que por vezes levou a confusão, obrigando à releitura do trecho.

[“A som estridente” O som (2/4); “vicissitudes da vida tinha ditado” tinham (3/4)]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-guarda-livros/

“A menina que não digeria os livros”, Carlos Silva: Qualquer coisa que na sua primeira frase tenha “Harry Potter” apanha-me de imediato a atenção. À medida que o conto avança, contudo, torna-se perfeitamente capaz de a manter por si mesmo: porque é uma crítica algo humorística de uma situação actual, tornando o metafórico no literal, que se tem vindo a desenvolver na blogosfera e que já vi muitas vezes a causar confusão. Esta foi a abordagem que mais apreciei, fazendo lembrar o utilíssimo conselho de Gaiman: make good art.

[“sobre mesinha” sobre a; “página e mansinho” de mansinho]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/06/18/a-menina-que-nao-digeria-os-livros-carlos-silva/

“A Escuridão”, Pedro Cipriano: O conto contextualiza-se num cenário apocalíptico, onde a situação actual ainda é incerta, centrando-se num grupo de cientistas e militares fechados no que me pareceu ser um centro de pesquisa, dado que o ar exterior os levaria à sua morte. Até que se verifica uma série de assassínios, demonstrando que também no interior se encontram em perigo. Infelizmente, não me achei que o mistério se encontrasse bem aproveitado, e o triângulo amoroso Rui-Rita-Débora é dispensável e pouco contribui para o enredo.

[“com intuito ver familiares” de ver; “Milhares de linhas com definiam” com o quê? (1/5)]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/a-escuridao/

“Roy just wants to have fun”, Vítor Frazão: Um conto vampiresco que vira as ideias pré-concebidas do avesso, numa escrita descontraída e quase irónica. Simples e eficaz.

[“era capaz tirar-lhe as” de tirar-lhe]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/roy-just-wants-to-have-fun/

“Pão para a alma”, Sara Farinha: Um dos poucos medos universais que será capaz de ladear o medo da morte é provavelmente o medo de uma degeneração e atrofiamento lentos, tanto do corpo quanto do espírito. Neste conto, a autora visualiza um futuro onde a raça humana se encontra a caminhar lentamente para a extinção exactamente através dessa degeneração. Miguel, no entanto, não desiste de encontrar de procurar a cura, sendo nessa insistência que encontra a pior das degenerações.

Um bom tema para exploração, em que o final incerto resultou a favor.

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“Pele de escrava”, Carina Portugal: Com a escravatura, os abusos que esta trouxe sobre muitos, e o desejo de liberdade como base, o conto assume ainda um cariz de fantasia que muito levou ao desenvolvimento do enredo. Não sendo particularmente original, é uma leitura que agrada.

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“Embalada no teu silêncio”, Sara Farinha: Numa ideia simples, revolve em torno do amor entristecido entre um selkie e uma mulher. Os diálogos constituem-se por frases curtas, julgo que exactamente numa tentativa de acentuar a tristeza e uma certa hesitação gerada por culpa, pelo saber de não ser aquilo o melhor. Não me pareceu que o seu desenvolvimento fosse dos melhores, e volta e meia há um exagero na purple prose.

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“Perdidos”, Carlos Silva: Encontramos aqui os atritos e arrependimentos entre casais que já se tornaram comuns nos dias actuais, não apenas pela situação em que se encontram, mas também pelos factores que elevaram à sua existência – perfeitamente encaixados num conto de sci-fi, com a escrita sem falhas a apontar que já se espera do autor. Apesar da simplicidade do momento apanhado e de o fim se tornar esperado a partir de certo momento, tem um resultado final favorável.

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“Estilhaços”, Carina Portugal: Há alguma coisa de atractivo em histórias sobre casas assombradas, e ainda mais quando temos criancinhas desobedientes pelo meio. Pareceu-me, no entanto, que a autora conseguiu utilizar bem os elementos que tinha para funcionarem a favor do conto, tanto na parte que mais se assemelha a um mito que se conta à beira da lareira em noites de Inverno, como no final, que apesar de já adivinhado, não deixou de manter a atenção e interesse do leitor.

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