Fornada de Contos X [Fantasy&Co]

“A Barca”, Pedro Pereira – “E se o Auto das Barcas tivesse sido escrito nos dias de hoje?” parece ser a premissa que levou a este conto. Embora não se encontre lado a lado com o original – sendo também o formato e o espaço sócio-cultural e linguístico díferes –, é uma leitura rápida e divertida.

“Cegueira”, Pedro Cipriano – Ler os primeiros parágrafos é dar uma palmada na testa: “Como não adivinhei logo pelo título que viria aí algo relacionado com o Ensaio Sobre a Cegueira?” Nunca li esse livro, o que irá sem dúvida influenciar a minha percepção e opinião sobre o conto. Julgo, contudo, que a ligação se encontra evidente (ou isso ou dei o tiro completamente ao lado), tendo-me ainda parecido que pega a narrativa onde a obra de Saramago a terminou, invertendo as situações: enquanto os outros recuperam a visão, a protagonista perde-a, ainda que momentaneamente. No tempo que dura esse evento, troca com o marido filosofias e os ensinamentos que a experiência forneceu. Também a escrita em si se procura contextualizar com a de Saramago.

“Xeque-Mate”, Carina Portugal – Nunca gostei de Prefiro Rosas, Meu Amor, à Pátria de Ricardo Reis, pela indiferença com que o sofrimento alheio é encarado pelos jogadores de xadrez. Gostei, contudo, de como a autora pegou nesse poema como base e o entrelaçou neste conto: desenvolveu-o, deu-lhe uma outra perspectiva, e manejou um equilíbrio entre o antigo e o futuro. Conseguiu desenvolver bem uma boa ideia, pegando em algo que em princípio a maioria dos leitores conhecerá (lembro-me de este poema de Ricardo Reis ser lido e analisado no âmbito da disciplina de Português) sem necessidade de ajudas extras – e para quem não o fizer… Lá está o final.

“O Campo”, Pedro Cipriano – Um grupo de jovens desafia as ordens dos pais – de não entrar em determinado campo – com o intuito de recuperar uma bola perdida. As consequências acabam por justificar a existência da ordem, e apesar de o conto se encontrar classificado como “distopia” os acontecimentos narrados prendem-se com eventos que ocorrem ainda hoje. O modo como a narrativa se desenvolveu transmitiu a impressão de se tratar mais de uma introdução que de um conto independente.

“A Faca”, André Alves – O triângulo amoroso que leva ao crime passional, trabalhado em contexto de realidades paralelas e ficção científica. Quando se pega numa tropp já tão utilizada, os restantes elementos da história precisam de algo que a faça destacar, o que não se verificou aqui. A sequência narrativa tornou-se algo confusa, terminando sem uma explicação satisfatória sobre os acontecimentos, enquanto a escrita apresentou falhas a nível da pontuação (dos diálogos, em relação ao vocativos, depois do “mas”, etc) e no desenvolvimento das personagens, que se encontram superficiais.

“A Reabilitação”, Pedro Cipriano – Não há muito que dizer sobre este conto. Trata-se de mais um “detalhe no quadro maior” do worldbuilding que o autor tem vindo a desenvolver há vários anos, desta vez focando num exercício de tortura disfarçada de reabilitação ao estilo militar. A falta de desenvolvimento de alguns pontos cruciais da trama, que teriam também criado empatia com o protagonista, e a sensação de falta de propósito do conto levaram a que não se tornasse uma história capaz de permanecer na memória.

“Rios de Sangue”, Pedro Cipriano – Novamente, um conto periférico no worldbuilding que tem vindo a ser construído pelo autor ao longo dos anos. O foco encontra-se nos soldados da Frente, seguindo o “resgate” de um deles. Os acontecimentos teriam potencial para terem sido mais aprofundados, transmitindo a impressão de que houve a intenção de demonstrar como o horror se pode tornar rotineiro – esquecendo que o rotineiro não terá de ser propriamente banal. Uma pesquisa mais aprofundada sobre as consequências mentais em soldados teria alinhavado melhor o conto.

A nível narrativo, apresenta algumas gralhas que serão facilmente colmatadas com uma revisão, assim como falhas a nível da pontuação – a falta de vírgula no vocativo, por exemplo – e no uso de alguns artigos desnecessários.

Todos os contos poderão ser lidos gratuitamente aqui, encontrando-se também disponíveis no smashwords.

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Fornada de Contos IX [Fantasy&Co]

“Livre”, Pedro Pereira – O autor volta a partir das personagens e do worldbuilding já abordados em vários dos seus contos anteriores, tornando-o em mais uma peça do puzzle geral. Narrado em primeira pessoa, o foco encontra-se em Leviatã, descrevendo o seu acordar e as primeiras acções que se seguirem. Tratou-se de uma narrativa demasiado factual, centrada em narrar os acontecimentos, mas esquecendo de transmitir ao leitor o elemento sentimental ou até mesmo manter um maior equilíbrio entre descrição directa e indirecta. Ademais, a narração em primeira pessoa implica que haja um afunilamento à visão da pessoa, expressa não apenas no transmitir das suas opiniões, mas também na linguagem e modo como pensa e se descreve – ter alguém a descrever as próprias acções com “o meu longo cabelo”, por exemplo, confere um elemento de artificialidade à narração.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638253

“O Industrioso SL4V3”, Ricardo Dias – A comédia presente no modo narrativo entrelaça-se bem no assunto mais sério que o leitor consegue depreender das entrelinhas (ainda que o próprio protagonista não o consiga). A história encontra-se bem estruturada, com um bom pacing e um final que responde no tempo certo às questões que vamos levantando durante a leitura. Ademais, destaca-se por detalhes como do nome de SL4V3 ou da nave, Vasco da Gama.

Contos disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638255

“O Mineiro”, Pedro Cipriano – Um desabamento leva ao encarceramento de um grupo de mineiros. O conto não desenvolve muito o wordbuilding ou o carácter de fantasia, deixando apenas algumas indicações que possam levar à dedução do leitor. Centra-se essencialmente nas descrições do acontecimento e na tensão – controlada, mas sentida – que o dito cria no grupo. Destaca-se pelo sucesso na ambientação, tendo esta sido bem conseguida, e sendo muito fácil visualizar o que é narrado.

Contos disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638257

“Os Historiadores”, Ricardo Dias – Um conto de Natal dentro da Ficção Científica, onde o radicalismo, emoldurado no tema “viagem no tempo”, acaba por se tornar o foco. Tudo na narração cresce para o final, no qual se verifica uma passagem bem conseguida entre o “ambiente” de FC para o mais “histórico”, através dos reis magos.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638258

“O Ídolo”, Pedro Pereira – Uma pitada de fantasia junta-se ao tema dos templários numa narrativa que se assemelha mais ao prólogo de algo maior do que a um conto per si. O enredo, simples, vai crescendo até ao final, deixado em aberto. Não traz muito de novo ao género.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638254

“No Carnaval Ninguém Leva a Mal”, Carina Portugal – Um enredo simples, mas bem desenvolvido, com uma narrativa capaz de cativar o leitor. Gostei em particular das personagens – umas novas, outras já conhecidas de outros contos – e dos detalhes que as individualizam. A ironia do título também não passa despercebida, logo nos inícios do conto.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/635549

“Raktabija”, Carina Portugal – Inspirado na – e desenvolvendo a – mitologia indiana, o conto foca-se na deusa Kali e na sua destruição dos demónios asuma. Como é comum em mitologias o que se reduz com esta simplicidade tem bastante mais complexidade por trás. A estrutura segue um crescendo contínuo, desde a introdução e ambientalização até à conclusão final. Que os actos caracterizadores da maldade dos asuma fossem essencialmente abusos e violações, na sua maioria contra mulheres, foi algo que não passou despercebido.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638263

“Protetização Total”, Ricardo Dias – Um conto curto e de fácil leitura centrado na recuperação de um indivíduo, após um acidente do qual não se recorda. A narração em primeira pessoa leva a que o leitor vá acompanhando o processo de descoberta mais ou menos ao mesmo tempo que o protagonista – embora a compreensão da reviravolta final chegue primeiro à compreensão do leitor.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638262

“Arraia”, Pedro Cipriano – Nesta curta narração o autor volta a adicionar mais um detalhe a um worldbuilding que tem vindo a utilizar (e a dar a conhecer por contos) faz já alguns anos. Para quem já leu os contos anteriores é fácil de compreender o ambiente histórico-social envolvente, mas o mesmo não pode ser dito para quem terá este conto como primeiro contacto com o worldbuilding em questão. Narrado em primeira pessoa, prende-se, naturalmente, à percepção do narrador e protagonista. O equilíbrio entre a exposição e a descrição falha um pouco em detrimento da descrição, com excepção da parte final. Aliás a descrição final, descrevendo um X que significa Y, é o melhor do conto.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638249

“A Sentinela”, Pedro Cipriano – Um conto anterior do mesmo autor narra sobre um viajante que segue de povoação em povoação avisando as gentes sobre a ameaça que os espera, da qual a única salvação é a protecção da muralha. Embora as personagens e o “tom” do conto sejam diferentes, este é, de certo modo, uma continuação. Narrado na terceira pessoa, foca-se numa batalha, descrita com foco na perspectiva de um jovem sentinela. Tal como o conto que o antecedeu, falha em esclarecer pontos fulcrais no enredo relativamente à ameaça: quem são, quais os seus motivos. Num geral, trata-se menos de um conto com princípio, meio e fim, e mais de um detalhe de algo maior.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/671239

Fornada de Contos VII [Fantasy&Co]

Depois de uma pausa na semana passada por motivos pessoais, eis a segunda parte da leitura dos contos disponíveis no Fantasy&Con, leitura essa que estive a colocar em dia com algum fervor 😉 Ficam então as opiniões a contos de Ricardo Dias, Carina Portugal, Leonor Ferrão e Pedro Cipriano.

“Desporto Radical”, Ricardo Dias: Cyberpunk não é um género pelo qual tenha grande apreço, mas este apresenta também traços de Policial, que já é bem mais do meu gosto. O enredo encontra-se bem estruturado, e as personagens apresentam uma ou duas características distintivas, suficientes para o tamanho do conto. Há um bom uso da tecnologia imaginado para o tema do assassino em série. O final ecoa ainda a Terror.

“Jim”, Carina Portugal: Um conto fofinho com o seu grau de tristeza, que usa tanto o “não aceites coisas de estranhos” como “o feitiço virou-se contra o feiticeiro”. Percebe-se de imediato qual a natureza de Jim, o que julgo ter sido propositado. As motivações do vilão ficam por esclarecer, o que achei que poderia ter sido mais desenvolvido. Destaca-se positivamente pelas descrições.

“O Meu Humano”, Leonor Ferrão: Adorei a linha de entrada fazendo um paralelo com a de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Temos aqui um narrador em primeira pessoa: o cavalo. Situando o conto num mundo onde o cavalo é a espécie dominante, a autora subverte a nossa visão, ao mesmo tempo que mantem muito dela. Explora a equitação em geral e os resultados de um mau cavaleiro em particular. É, também, um alerta, servindo tanto de entretenimento quanto de informativo. Apresenta algumas falhas a nível das vírgulas.

“O Cupão”, Pedro Cipriano: Mais um conto ambientado nowordbuilding que o autor tem vindo a desenvolver em vários contos anteriores. Também este se foca apenas num momento, desta vez no percurso de um dos revolucionários. Deixa mais subentendido do que efectivamente conta.

“O Pinheiro de Natal”, Pedro Cipriano: Uma Consoada que se revela triste para a família, mas cujas intervenções do avô falecido são não só proféticas, como podem ajudar a ultrapassar o mau momento. Notei incongruências como uma família rural e religiosa não ir à Missa do Galo, e “Consoada” ora está em minúscula ora em maiúscula. As frases do avô são por vezes ambíguas, parecendo que se referem ao neto, o único que o ouve, em vez de à avó.

“Icarus Blues”, Ricardo Dias: História de tentativa, erro, captura e fuga que utiliza pontos clássicos da SciFi. Curiosamente, considerei “Zarolho”, o alien, com uma personalidade mais sólida que o protagonista e narrador.

“Os Sapatos Negros”, Carina Portugal: Por um acaso de sorte, Âmbar escapou a uma carnificina sete anos atrás. No entanto, para cumprir os seus propósitos, o sacrifício deve ser completado, e os sapatos negros, representação e fonte de poder daquele mal, perseguem-na para terminar o serviço. O conto apresenta boas descrições e uma boa narração, mas desenvolve pouco as personagens.

“A Filha da Peste”, Carina Portugal: Até ao momento é o meu conto favorito da autora. Faz uma excelente ambientação tanto da cidade de Veneza quanto dos festejos carnavalescos, interligando-os com o enredo, que por sua vez está bem construído e multifacetado. As descrições são vívidas e fáceis de imaginar, e as personagens bem construídas, apesar do pouco espaço inerente ao formato. Espero por uma continuação, em particular uma que desenvolva a relação do Orfeo e do Ciro.

“O Poeta”, Pedro Cipriano: Mais um conto em que o autor explora uma personagem do worldbuilding que anda a desenvolver para algo maior. Desta vez aborda um velho poeta que durante vinte anos se fechou ao mundo, desconhecendo, portanto, os acontecimentos do exterior. Um sacrifício com o objectivo de grandeza literária que de nada serve, visto que esqueceu o mais importante: viver o seu próprio tempo.

“Os Cadáveres”, Pedro Cipriano: Narrado em primeira pessoa, faz uso de frases curtas para causar um maior impacto. Apresenta um grande detalhe nas descrições apocalípticas, ao mesmo tempo que mantém uma força psicológica. Há, então, um bom equilíbrio entre a mente do protagonista e aquilo que se passa em seu redor.

“Jardins Suspensos da Babilónia”, Leonor Ferrão: Do modo como o conto está ao momento em que o li, não gostei. Há pontos que se resolvem facilmente com uma revisão, como gralhas, palavras a mais e as falhas na pontuação nos diálogos. Outros já precisarão de um maior trabalho, como a estrutura e as razões para o encadear dos eventos, que se baseiam demasiado na sorte. Não desgostei da ideia base, mas o conto precisa de se expandir, de ser melhor trabalhado e de um maior desenvolvimento.

Fornada de Contos VI [Fantasy&Co]

Foi com surpresa que me apercebi fazer cerca de um ano desde que abri a página do Fantasy&Co para ler os contos e escrever umas linhas de opinião sobre os mesmos para o blog: efeitos secundários de já ler bastantes deles antes da sua publicação. A publicação, no entanto, é o que traz o “produto final”, e, em consequência, eis uma fornada de doze contos de Ricardo Dias, Pedro Pereira, Sara Farinha, Carina Portugal e Hugo Cântara, a ser complementada mais tarde com os que ficaram por opinar.

“O Visitante e o Forasteiro”, Ricardo Dias: O conto pega na criatura mítica do Djinn, começando com um tom pesado, quase lúgubre, que se vai aligeirando até ao fim, altura em que transmite a sensação inversa. Conto simples de leitura rápida onde a simplicidade do twist – as verdadeiras intenções das duas criaturas – lhe dá a sua graça.

“A Emboscada”, Pedro Pereira: Gira em torno de um ataque e de uma batalha, onde três facções desejam um só objecto. Complementa um conto anterior do autor, cada um expondo o ponto de vista de diferentes facções, ainda que ambas humanas. Tal como esse conto precedente, assemelha-se mais a um fragmento de algo maior do que a um conto independente. Algumas das frases parecem apresentar gralhas, no entanto, outras destacam-se positivamente pelas escolhas vocabulares, em particular a nível descritivo.

“A Flecha Perdida”, Pedro Pereira: Também este um conto de batalha, começa calmo, com uma cena de caça que apresenta as personagens principais, duas irmãs, e contextualiza o leitor dentro do enredo. Apresenta elementos que o ligam ao conto anterior, “A Emboscada”, e serve bem o seu propósito de prelúdio: não apenas aos contos já referidos, como a um romance maior, que após a leitura deste punhado de contos suspeito que o autor anda a desenvolver (não passa, no entanto, de conjectura minha). A nível narrativo apresenta algumas inconsistências verbais.

“Migalhas de Ontem”, Sara Farinha: O conto parte da trope de viagem no tempo, não só à Batalha de Aljubarrota, mas em particular à célebre e mítica padeira. O mistério em torno do que é esperado que a protagonista faça – e o porquê de ela se ver naquela situação – é revelado aos poucos, em “migalhas”, sendo as descobertas do leitor em consonância com as da protagonista. Contém falhas na pontuação dos diálogos, algumas vírgulas mal colocadas e a nível descritivo julgo que poderia ter desenvolvido mais o episódio dos sete espanhóis. Nota-se a importância dada ao ofício para a caracterização do espaço, o que levou a uma ambientação bem conseguida.

“Diferente”, Ricardo Dias: Apesar de ser um futuro distópico controlado pelas Clérigos, notam-se reacções que estão bem patentes no presente, sendo tão erradas e desagradáveis quanto uma distopia. Gostei em particular da relação entre Samuel e Eliza e de ver a representação dos erros que se cometem hoje em dia, não apenas em relação aos assexuais, mas a todos os que não são heterossexuais. Ressalvo, no entanto, que um assexual é uma pessoa que não sente atracção sexual, podendo ter outras (romântica, estética…) ou gostar do acto sexual em si.

“A Tempestade”, Pedro Pereira: O que não seria mais do que uma paragem numa igreja para abrigo duma tempestade torna-se em algo mais perigoso quando uma besta ataca a congregação. Não me pareceu um dos melhores contos do autor, tendo-o considerado confuso: a besta carece de maior desenvolvimento, não se compreende qual a direcção do enredo e as personagens são unidimensionais.

“Actos de Dor”, Sara Farinha: Compreende-se muito cedo que Nico está morto, ficando a dúvida se faz o que faz por vingança, por não querer ficar sozinho, ou por ambos. De igual forma, também desde cedo se desconfia – com bastante certeza – o que terá acontecido entre ele e a irmã, relação que despoletou tudo. Apesar disto, a prossecução e condução do conto ficaram confusas. No final compreende-se mais ou menos todo o enredo, mas antes disso há uma incompreensão não pelo mistério, como seria de esperar, mas pela confusão na narração.

“Herança do Escritor”, Hugo Cântara: Segue uma linha de enredo simples em torno de um segredo de família, de escritor. Ou melhor, da passagem desse segredo de uma geração para outra. As personagens também se caracterizam pela sua simplicidade e generalidade, julgo que propositadamente, visto que a nenhuma delas é atribuído nome. Apresenta falhas nas vírgulas nos vocativos, na pontuação dos diálogos e na regra por porquês.

“Nó Górdio”, Ricardo Dias: Pega na trope de viagens do tempo e anomalias temporais. Começa por mostrar o “exterior” – um homem que por acaso encontra e usa um dispositivo de viagem no tempo e é interceptado pelo protagonista –, para irmos indo pela Agência onde o dito protagonista tem papel de relevo, e acabarmos na personagem principal e seu conflito interno e pessoal: um “feitiço vira-se contra o feiticeiro” e uma decisão difícil. A narração encontra-se pejada de referências culturais, fazendo ligações entre a Agência deste conto com elementos de outros wordbuildings – uma em particular que me fez ficar contra a Agência, não se trata assim o Doctor! –, os quais não são enunciados, mas apresentam informações que bastem para serem identificados. Apresenta falhas na pontuação dos diálogos.

“Reviewer”, Ricardo Dias: Numa mistura entre tecnologia e lenda urbana, o excesso do vício é aqui tornado em conto. Trata-se de uma leitura rápida e curta, numa narração bem desenvolvida.

“Lâmina de Cristal”, Pedro Pereira: Essencialmente descritivo, centra-se no caminho e desafios do protagonista enquanto este procura cumprir a tarefa que tem em mãos. A primeira parte alterna com flashbacks da sua infância, o que lhe atribuiu um pouco mais de identidade. Notei uma repetição de palavras, que deu a ideia de eco no texto, e a grande maioria dos desafios são resolvidos por “energia”, algo próximo à ideia de magia.

“Doze Doses de Ilusão”, Carina Portugal: Joga com a fronteira entre a ilusão e a realidade, trocando as voltas do leitor até ao fim. Inicialmente fez-me lembrar “A Menina dos Fósforos”, numa adaptação a um outro género, contudo, apesar de ainda ver uma influência do ambiente, nada mais têm a ver um com o outro.

Fornada de Contos V

Opinião a doze contos publicados de forma independente e disponibilizados gratuitamente no Smashwords. Convosco, senhoras e senhores, os autores Carina Portugal, Ana C. Nunes, Ágata Ramos Simões, Manuel Alves e Olinda P. Gil.

“Duas Gotas de Sangue e um Corpo para a Eternidade”, Carina Portugal: Alicerçado numa boa estrutura, o conto apresenta um bom enredo e uma ideia-base interessante das personagens, em particular as gémeas. Contudo, tanto as personagens (sua natureza e acções) como os acontecimentos poderiam ter sido mais subtis no seu desenvolvimento, dados a entender ao leitor em vez de descritos preto no branco. Tal influenciou a sensação de as coisas se sucederem sem aviso prévio, de que são exemplo o desgosto de Cris pelo irmão – que a ser introduzido mais cedo não só teria feito mais sentido, como teria dado tempo de lhe atribuir uma razão mais sólida –, e a coincidência do aparecimento do novo xerife e a sua ida à casa das gémeas na noite do assassinato.

“Coração de Corda”, Carina Portugal: Mais uma vez, um conto que se destaca pela sua estrutura, desta vez aliada a um bom uso de elementos steampunk, tanto na ambientação como nas personagens e no enredo. Gostei em particular do twist final em relação às verdadeiras intenções e motivações do protagonista, mas as suas tendências altruístas poderiam ter sido melhor dadas a entender, torna-las conhecimento também do leitor e não apenas daquelas personagens que lhe são próximas, de modo a torná-lo mais consistente. Considerei ainda que seria de mais-valia desenvolver melhor as motivações do vilão.

“A Heroína e o Guerreiro”, Ana C. Nunes: Trata-se de uma paródia aos clichés de aventura e fantasia, em especial a alguns conceitos de personagens e suas respectivas vestimentas. Contém algumas vírgulas mal colocadas, mas nenhuma “falha técnica”, salvo seja, de maior. Uma leitura rápida e bem-disposta, acompanhada por ilustrações da própria autora.

“A Maldição do Ventre”, Ágata Ramos Simões: A história de um monstro canibal, dos seus pais, e do que lhe sucedeu. A narração por vezes alonga-se desnecessariamente, mas é boa no geral e contém um forte traço irónico.

“Vénus 12”, Manuel Alves: Sexo, acção, mistério e falta de escrúpulos em negócios são os elementos primordiais deste conto. Nota-se, ao longo da leitura, que a única função de alguns diálogos é apenas dar informação ao leitor, e com excepção de Vénus 12 e Ana, a maioria das personagens é unidimensional. O enredo, bem estruturado e desenvolvido, é o melhor conseguido do conto.

“Orin”, Manuel Alves: A criação, do Nada ao Tudo. Uma narrativa longa e psicológica, que usa noções que temos como diárias e nem as pensamos, aliadas à criação bíblica. Não gostei de algumas das ideias usadas como sendo verdades, e considerei-o demasiado longo. Nota-se, também, algumas falhas de pontuação. A forma de escrita é, no geral, aprazível, e o processo de consciencialização e criação está bem expresso.

“A Linha Recta do Corvo”, Manuel Alves: Possivelmente o conto do autor para o qual maiores expectativas tinha, mas fiquei desiludida. A sinopse dá mais importância ao aviso do corvo do que este realmente tem: poucas vezes é referido, nunca explicado, e pouca importância tem na história. Mesmo a sua aparição final é irrelevante, na medida em que tanto o leitor como o protagonista se apercebem da “revelação” que o corvo supostamente traria consigo antes da sua aparição. A narração engonha com um excesso de repetições (já percebemos que o gordo é gordo, que custa metê-lo na cova, e que Lince não gosta lá muito disso), e detalhes desnecessários (a origem familiar de Lince em nada influenciou a história), deixando de lado, por sua vez, respostas não dadas que seriam de maior interesse: quem e por que querem matar Lince, por exemplo? Por que é ele avisado pelos corvos? Numa nota mais positiva, gostei da escrita irónico, reflexo da personalidade de Lince, e do twist final, que apesar de perceptível antes de verdadeiramente “lançado”, não deixa de estar bem conseguido.

“Legado Vermelho”, Manuel Alves: Início lento e final apressado. Julgo que teria sido melhor descrever os acontecimentos da guerra com os dragões, em vez de os narrar. As personagens pareceram-me unidimensionais, faltando-lhes maior consistência e desenvolvimento. A ideia-base é boa, mas deixa perguntas por responder (dois irmãos para manter a Humanidade viva noutro planeta?)

“Equador Morto”, Manuel Alves: Um wordbuilding que desperta a curiosidade, com um enredo cimentado numa boa estrutura, e personagens que prometem. Deixa, contudo, a sensação de se tratar mais do começo de uma história maior do que propriamente um conto.

“Coração Atómico”, Manuel Alves: Uma história pequena num universo maior. “Amorosa” é o primeiro adjectivo que me vem à cabeça, contendo ainda diálogos curiosos. De certo modo, fez-me lembrar “O Soldadinho de Chumbo”. Abusa um pouco dos itálicos.

“Lili”, Manuel Alves: Um conto para crianças que também agrada a adultos. As personagens são cativantes, a linguagem é adequada sem ser redutora, e a história está bem imaginada, apresentada e conduzida.

“Na Estrada de Mértola”, Olinda P. Gil: Uma narrativa curta de suspense e terror onde o leitor fica até à última com esperanças de que a coisa reverta a favor da protagonista. Com uma escrita geralmente aprazível, vez ou outra parece haver um deslize, ora por tentativa de complexidade que acaba sem sentido (“Filomena sentiu nesse momento uma tontura a subir-lhe pelo estômago”?), ora por frases mal formuladas (“Teria o homem tinha recuperado e se levantado?”).

Fornada de Contos III [Fantasy&Co]

Nove contos disponíveis e lidos no blog Fantasy&Co. Desta vez, escritos de Pedro Pereira, Pedro Cipriano, Carlos Silva, Vitor Frazão, Carina Portugal, Sara Farinha, e Leonor Ferrão, com o seu conto de estreia no blog.

“O Acordo”, Pedro Pereira: John Harris é injustamente acusado e julgado como sendo um assassino em série. As razões para o engano não são exploradas, nem o porquê de todas as provas, inclusive o ADN, o demarcarem como culpado – suspeito do homem que lhe oferece o acordo. Mas não é esse o foco do conto: o foco é no acordo entre John e um homem suspeito, de cuja identidade desconfiamos e no final comprovamos. O enredo centra-se, então, numa acção já clássica e explorada de várias formas, em diversos modos artísticos, mas que consegue ainda assim providenciar uma leitura agradável.

Narrado em primeira pessoa, segue uma estrutura bastante linear – exposição, complicação, ponto de viragem e resolução –, com um final irónico, igualmente esperado a partir de determinado momento.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/18/o-acordo-13-pedro-pereira/

“Boas Festas Vindas do Céu”, Pedro Cipriano: Já me habituei a ir conhecendo o worldbuilding que Pedro Cipriano nos vai apresentando aos poucos através dos contos que dispersa, ora no Fantasy, ora em projectos como a Lusitânia. O método utilizado, que aqui não foi excepção, consiste em centrar-se numa personagem – Rui, o piloto, neste caso – e a partir da sua esfera privada dar a conhecer um pouco mais do panorama geral. E em nenhum deles me lembro de ter visto um final feliz, visto que quando o protagonista até nem fica muito mal, há sempre algo a lembrar as consequências para o outro lado. Algo inevitável numa guerra, e que o autor não foge a mostrar, não em tom moralista, mas em insinuações que levam o leitor a lembrar-se disso por ele mesmo.

Assim sendo, julgo já não me ser possível encarar estes contos isoladamente, mas sim como um círculo de contos, mostrando todos eles detalhes na mesma moeda (em qualquer das suas faces). Neste em específico, salienta-se a descrição do bombardeamento, que me pareceu bem conseguida. Definitivamente mais trabalhada que a personagem de Rui, do qual sabemos apenas o suficiente para ter uma ideia de onde se posiciona na imagem maior.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/27/boas-festas-vindas-do-ceu-pedro-cipriano/

“A Besta”, Pedro Pereira: Situando-se no Gerês, o enredo concentra-se num acampamento entre amigos que não corre exactamente como planeado… E praticamente tudo vira para o torto. Gostei da ideia-base, no entanto alguns momentos pareceram-me forçados, enquanto outros precisavam de maior descrição, especialmente quando traziam uma carga emocional atrás.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/09/19/a-besta-14-pedro-pereira/

“Os Blémios”, Carlos Silva: Narrado em primeira pessoa pela vítima, “Os Blémios” vai buscar um mito antigo e coloca-o na actualidade, não apenas relembrando estas criaturas já quase esquecidas, como também justificando a sua presença fora do habitat que lhes é atribuído pelo mito. Bem conseguido e bem escrito.

[“O homem à minha frente tirou óculos escuros” > “os óculos escuros”]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/03/os-blemios-carlos-silva/

“Aos Teus Olhos”, Vitor Frazão: Apesar da primeira parte do conto poder enganar, o enredo centra-se em Jules e no passado do qual ele procura avançar, sem sucesso. As personagens encontram-se bem construídas, a escrita segue o cariz sarcástico já costume ao autor – gosto particularmente do uso da gíria e da descontracção que parece incutir ao texto –, e o que vemos do worldbuilding destaca-se pela positiva. Pareceu-me, no entanto, uma prequela de algo maior.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/10/aos-teus-olhos-15-vitor-frazao/

“Assombração”, Leonor Ferrão: Seguindo o clássico da casa assombrada, um grupo de amigos de infância passa a noite de Halloween na habitação onde se diz existirem fantasma. No ano em que a narrativa decorre, a fama finalmente justifica-se, o que me leva à questão: porquê naquele ano, e não nos anteriores? Nada foi indicado no sentido do porquê de aquele ano ter sido diferente.

Gostei da imagem da assombração em si, incluindo o detalhe final. Gostaria de a ver mais trabalhada, com uma maior consistência nabackstory.

Quanto à escrita, estranhei-a. Provavelmente devido aos conectores escolhidos, e ao uso de um ou outro vocábulo que não se coadunavam com o tom geral do texto, pareceu-me monocórdica.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/10/31/assombracao-leonor-ferrao/

“A Profecia”, Pedro Pereira: Num worldbuilding onde humanos são obrigados a enfrentar demónios, a cobiça não desapareceu ainda, levando a que três entidades se enfrentem para conseguir um só objecto, poderoso o suficiente para influenciar o final da batalha. Um conto que se centra essencialmente em acção, e cujo final em aberto leva a crer que o autor planeia regressar a este panorama e personagens. Para já, não conta que elementos originais.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/11/03/a-profecia-14-pedro-pereira/

“Pintado a Sangue”, Carina Portugal: O ambiente e o enredo já foram bastante utilizados quer em literatura quer noutras formas de arte: uma casa assombrada, uma nova inquilina, e segredos antigos que, desvendados, as unem. O início demora a desenvolver-se mas, uma vez isso feito, o enredo avança a bom ritmo.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/pintado-a-sangue/

“Trapos Vivos”, Sara Farinha: Um conto simples que por vezes parece alongar-se mais do que realmente precisa. Explora o interior da personagem, e a sua relação com a boneca. Apesar de levantar a dúvida ao leitor sobre estar tudo na cabeça da personagem ou não, o bom final tira todas as dúvidas.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/trapos-vivos/

Fornada de Contos II [Fantasy&Co]

Por razões pessoais (no estilo “tenho viajado que me farto”), o blog não tem tido grandes actualizações, é verdade, mas como com snackstambém se engana a fome, eis mais um dezena de contos, onde o Fantasy volta a dominar. Fazer o quê? É onde os encontro de graça e com regularidade. Temos então os autores Pedro Pereira, Pedro Cipriano, Carlos Silva, Vitor Frazão, Carina Portugal e Sara Farinha.

“O Túmulo de Cristal”, Pedro Pereira: Um conto de scifi através do qual espreitamos para um mundo mais vasto do que aquilo que era possível colocar num conto. O enredo decorre a um ritmo lento, havendo uma repetição da palavra “cristal” e as personagens pouco interesse despertam no leitor. Já o wordbuilding tem bases bastante boas, com uma Igreja autoritária cujos deuses talvez não sejam tão divinos quanto isso, e a origem e conceito do próprio Mar de Cristal.

[“é que toda água se” a água]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-tumulo-de-cristal/

“O Guarda-Livros”, Pedro Cipriano: O conto parece desenvolver-se a dois níveis: o do livreiro, e o do worlbuilding. Na primeira parte é-nos introduzido Carlos, o livreiro, e o conhecimento de que Portugal deixou de existir, encontrando-se os territórios do que antigamente era um país em guerra constante – como consequência, uma entre várias, todo e qualquer livro que demonstrasse Portugal como país uno tornou-se proibido.

Durante as duas partes que se seguiram, em que Carlos, ante um bombardeamento inimigo, fica preso com os vizinhos no abrigo do prédio, desejando o resgate e simultaneamente temendo que o mesmo leve à descoberta dos livros escondidos, pareceu-me que o mesmo era utilizado como ponto de partida para expor o wordbuilding, a situação de futuro ficcional criado pelo autor. Na última parte, contudo, a personagem volta a ganhar maior relevância, demonstrando uma evolução (ou regressão, conforme o leitor o interprete), fruto das experiências vividas.

A nível da narração, esta não se destacou nem positiva nem negativamente, com excepção das partes 2 e 3, em que os saltos temporais não detinham qualquer marca distintiva, o que por vezes levou a confusão, obrigando à releitura do trecho.

[“A som estridente” O som (2/4); “vicissitudes da vida tinha ditado” tinham (3/4)]

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“A menina que não digeria os livros”, Carlos Silva: Qualquer coisa que na sua primeira frase tenha “Harry Potter” apanha-me de imediato a atenção. À medida que o conto avança, contudo, torna-se perfeitamente capaz de a manter por si mesmo: porque é uma crítica algo humorística de uma situação actual, tornando o metafórico no literal, que se tem vindo a desenvolver na blogosfera e que já vi muitas vezes a causar confusão. Esta foi a abordagem que mais apreciei, fazendo lembrar o utilíssimo conselho de Gaiman: make good art.

[“sobre mesinha” sobre a; “página e mansinho” de mansinho]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/06/18/a-menina-que-nao-digeria-os-livros-carlos-silva/

“A Escuridão”, Pedro Cipriano: O conto contextualiza-se num cenário apocalíptico, onde a situação actual ainda é incerta, centrando-se num grupo de cientistas e militares fechados no que me pareceu ser um centro de pesquisa, dado que o ar exterior os levaria à sua morte. Até que se verifica uma série de assassínios, demonstrando que também no interior se encontram em perigo. Infelizmente, não me achei que o mistério se encontrasse bem aproveitado, e o triângulo amoroso Rui-Rita-Débora é dispensável e pouco contribui para o enredo.

[“com intuito ver familiares” de ver; “Milhares de linhas com definiam” com o quê? (1/5)]

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“Roy just wants to have fun”, Vítor Frazão: Um conto vampiresco que vira as ideias pré-concebidas do avesso, numa escrita descontraída e quase irónica. Simples e eficaz.

[“era capaz tirar-lhe as” de tirar-lhe]

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“Pão para a alma”, Sara Farinha: Um dos poucos medos universais que será capaz de ladear o medo da morte é provavelmente o medo de uma degeneração e atrofiamento lentos, tanto do corpo quanto do espírito. Neste conto, a autora visualiza um futuro onde a raça humana se encontra a caminhar lentamente para a extinção exactamente através dessa degeneração. Miguel, no entanto, não desiste de encontrar de procurar a cura, sendo nessa insistência que encontra a pior das degenerações.

Um bom tema para exploração, em que o final incerto resultou a favor.

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“Pele de escrava”, Carina Portugal: Com a escravatura, os abusos que esta trouxe sobre muitos, e o desejo de liberdade como base, o conto assume ainda um cariz de fantasia que muito levou ao desenvolvimento do enredo. Não sendo particularmente original, é uma leitura que agrada.

http://blocodedevaneios.blogspot.co.uk/2013/08/conto-pele-de-escrava-de-carina-portugal.html

“Embalada no teu silêncio”, Sara Farinha: Numa ideia simples, revolve em torno do amor entristecido entre um selkie e uma mulher. Os diálogos constituem-se por frases curtas, julgo que exactamente numa tentativa de acentuar a tristeza e uma certa hesitação gerada por culpa, pelo saber de não ser aquilo o melhor. Não me pareceu que o seu desenvolvimento fosse dos melhores, e volta e meia há um exagero na purple prose.

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“Perdidos”, Carlos Silva: Encontramos aqui os atritos e arrependimentos entre casais que já se tornaram comuns nos dias actuais, não apenas pela situação em que se encontram, mas também pelos factores que elevaram à sua existência – perfeitamente encaixados num conto de sci-fi, com a escrita sem falhas a apontar que já se espera do autor. Apesar da simplicidade do momento apanhado e de o fim se tornar esperado a partir de certo momento, tem um resultado final favorável.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/08/perdidos-carlos-silva/

“Estilhaços”, Carina Portugal: Há alguma coisa de atractivo em histórias sobre casas assombradas, e ainda mais quando temos criancinhas desobedientes pelo meio. Pareceu-me, no entanto, que a autora conseguiu utilizar bem os elementos que tinha para funcionarem a favor do conto, tanto na parte que mais se assemelha a um mito que se conta à beira da lareira em noites de Inverno, como no final, que apesar de já adivinhado, não deixou de manter a atenção e interesse do leitor.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/estilhacos/