“O Meu Irmão”, Afonso Reis Cabral

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CABRAL, Afonso Reis – O Meu Irmão, Alfragide, Leya, 2014

Sinopse: Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana.

Numa casa de família, situada numa aldeia isolada no interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.

 

Opinião: Através de um narrador homodiegético e pouco confiável, o leitor é apresentado a um enredo que acompanha bastante a tendência da literatura portuguesa actual. O tempo narrativo alterna a cada capítulo entre o passado dos irmãos (desde a infância até ao evento, já em adultos, que se torna no clímax), e o presente isolado e dado à introspecção, numa aldeia despovoada no interior de Portugal. Não é uma história que se valha por reviravoltas ou acções/consequências inesperadas, sendo que até o “estranho episódio” do clímax mencionado na sinopse se torna adivinhável em determinado ponto.

O estilo narrativo parece experimental, um testar de águas. Ajudando à ideia de uma escrita interligada com a consciência do narrador, a diferente formatação leva a que determinados trechos sejam visualizados como apartes necessários, mas secundários – similares aos pensamentos paralelos que frequentemente temos. Não sendo um estilo fenomenal, parece cumprir aquilo a que se propõe, sendo no mínimo curioso.

O que de mais positivamente se destaca no romance são as personagens. A superficialidade ou complexidade com que são apresentadas ao leitor varia conforme a importância que lhes é dada pelo narrador. Assim, enquanto as irmãs têm uma presença praticamente rasa, os vizinhos na aldeia já são representados em maiores detalhes – ainda que presos às opiniões do narrador, cabendo ao leitor as deduções nas entrelinhas. Já Miguel e o narrador têm uma muito maior riqueza na respectiva caracterização, conseguida essencialmente de forma indirecta. É esta profundidade que permite a compreensão das motivações e reacções de cada um: ainda que não a sua aceitação; não me consigo impedir o pouco profissional comentário de expressar quão otário considerei o protagonista, logo nos inícios da leitura. O final veio comprovar que de facto o era, e ainda mais, mas fica no ar a indicação de que o círculo fecha e pouco se altera.

“O Ano da Dançarina”, Carla M. Soares

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SOARES, Carla M. – O Ano da Dançarina, Lisboa, Marcador, 2017

Sinopse: No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.

No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.

Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.

Opinião: Mais uma vez, Carla Soares consegue entregar um romance que entretém ao mesmo tempo que contextualiza o leitor numa época história portuguesa: no caso, o ano em que a “espanhola” visitou um país já muito afectado pela guerra e pelas quezílias políticas. Como indicado na sinopse, Nicolau é o protagonista e a personagem que maioritariamente é apresentada no fio condutor do enredo. Não deixa, contudo, de ser um romance de família, sendo as venturas e desventuras do núcleo familiar – e daqueles que lhes são próximos – também de grande peso na narrativa e seu desenvolvimento.

São várias as personagens utilizadas – todas com diferentes graus de importância e desenvolvimento –, tornando-se distintas pelos traços que as caracterizam e que desde cedo são indicados à compreensão do leitor, quer por caracterização directa quer indirecta. Considerei apenas que algumas falham em termos de “ribalta”, ou seja, não se encontram mal construídas, mas as suas aparições são parcas e usualmente centradas nas reacções que têm aos eventos protagonizados por outras personagens, o que levou à sensação de se tornarem mais um acessório às restantes personagens, que personagens per si.

Um factor que se me destacou foi a condução do enredo e o desenvolvimento temporal. Por um lado, cada ponto de viragem vem como consequência de actos e decisões anteriores, que foram crescendo para aquele momento, sedimentando-o: reviravoltas caídas do céu não têm aqui lugar. Por outro lado, temos o desenvolvimento de Nicolau, à medida que o vemos a lidar com o trauma pós-guerra, algo que foi bem além das mazelas físicas. Todos os percursos das personagens, onde sem dúvida se destaca o de Nicolau, são encaminhados sem a lentidão que os tornaria morosos ao leitor, nem a rapidez que os tornaria artificiais.

Outro ponto a destacar é o título: levou-me a pensar que seria sobre uma personagem (caracterizada por todos os clichés que associamos a “dançarina”), quando na verdade engloba muito mais e reflecte maior profundidade. Parece apenas um detalhe a acrescentar aqui, mas sem dúvida encaixa-se perfeitamente à obra.

Em geral, um romance histórico que merece destaque numa altura em que os romances históricos parecem encontrar-se em boa ventura no panorama editorial português.

“Singularidades de uma Rapariga Loira”, Eça de Queirós

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QUEIRÓS, Eça de – Singularidades de uma Rapariga Loira, [s.l.], Projecto Adamastor, 2013

Sinopse: “Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: «O que não contas à tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem.» Mas ele teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fora casar a Vila Real. Vi-o chorar, àquele velho de quase sessenta anos. Talvez a história seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sensível, pareceu-me terrível — mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa…

Começou pois por me dizer que o seu caso era simples — e que se chamava Macário.”

Opinião: Logo no seu início a narrativa declara tratar-se de uma história simples e, de facto, assim é. Através de um narrador homodiegético é apresentada ao leitor a história de como Macário se apaixonou, labutou por esse amor, e acabou por se decepcionar com a noiva. A falha da “rapariga loira” é desde os inícios do conto evidente para o leitor – e provavelmente também para o tio de Macário –, o que leva a que o final seja previsível e esperado. Aliás, atendendo às circunstâncias nas quais o narrador vem a saber da história dificilmente teria sido intenção do autor surpreender com o final.

Não faltam dois dos pontos mais reconhecidos do autor: A narrativa mantém o humor irónico de Eça, e nos detalhes realistas encontramos a caracterização de uma época.

Uma leitura rápida e simples sobre um “acidente singular da vida amorosa” que francamente só ocorreu por não existir maior cegueira do que a daquele que não quer ver.

Esta versão é a disponibilizada pelo Projecto Adamastor no seguinte link: http://projectoadamastor.org/singularidades-de-uma-rapariga-loura-eca-de-queiros/

“A Rainha Perfeitíssima”, Paula Veiga

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VEIGA, Paula – A Rainha Perfeitíssima, São Pedro do Estoril, Saída de Emergência, 2017

Sinopse: Em 1458 nasceu uma formosa infanta a quem chamaram Leonor. Destinada a ser rainha, a jovem cresceu e transformou-se na mais notável monarca que reinou em Portugal. Mas se a sua vida é uma inspiração, também foi um rosário de tragédias. Casou com o primo, D. João II, mas o casamento não foi feliz. O Príncipe Perfeito passou o reinado em conflito com a nobreza que o tentou assassinar. A alegria por ver o marido sobreviver foi destroçada quando o seu próprio irmão é acusado de traição e morre às mãos do rei.

Mas a maior tragédia da sua vida chega quando o filho morre de forma suspeita. Acidente ou atentado? Na terrível dor de uma mãe que perde o filho, Leonor nem teve o apoio que esperava do rei: D. João II estava mais preocupado em colocar no trono o filho bastardo que tivera com outra mulher.

Opinião: Na sua maioria apagadas na nossa História – por vários motivos –, há sempre curiosidade em ler e conhecer mais sobre as mulheres que fizeram parte do percurso de Portugal enquanto nação. Romances históricos sempre se me afiguraram como um modo de o fazer de forma aprazível e mais ou menos fidedigna. Esta obra, contudo, não se me afigura como um romance histórico. A parte “histórica” encontra-se presente, com as várias indicações referentes às personagens e eventos transmitidos ao leitor e apoiados pela bibliografia. A parte do “romance”, contudo, falha em grande escala:

Apesar de ser Leonor a figura a quem o título e sinopse dão maior relevo, durante a narrativa a personagem é passiva, pouco desenvolvida e superficial, ficando ainda ofuscada pelos monarcas (quatro) que Leonor viu reinarem durante a sua vida. Quando reage fá-lo através de diálogos artificiais – artificialidade essa que se encontra presente em praticamente todos os diálogos da obra – ou de uma narração em primeira pessoa que, assim como as partes de narrativa em terceira pessoa, se centra na infodump, provocando um desequilíbrio entre o show e o tell demasiado favorável a este último. Trata-se de uma narrativa que teria proveito de um maior desenvolvimento: permitiria um doseamento mais equilibrado da informação fornecida, ao mesmo tempo que poderia focar mais na demonstração dos sentimentos das personagens através da descrição das suas reacções, ao invés de nos dizer essa informação. Esse desenvolvimento da narrativa provavelmente acarretaria o desenvolvimento das personagens, apresentando-as com uma construção mais sólida, humana e credível.

Em relação à escrita em si apresenta algumas inconsistências, como uma personagem masculina a dizer “obrigada” em vez de “obrigado”, o “porque” interrogativo ora com a grafia “porque” ora com a “por que” (ambas aceitáveis, mas desaconselhado o seu uso alternado no mesmo texto), e em relação às vírgulas. Tratam-se, contudo, de detalhes que pertencem mais à responsabilidade da revisão.

Já a escolha da autora da época abordada é de louvar. É, de facto, um dos períodos mais interessantes da História de Portugal, e, apesar de já ter conhecimento de muitos dos eventos abordados – quer pelas já idas aulas de História, quer pelo romance D. Beatriz (inserir hiperligação), centrado na mãe de D. Leonor –, há sempre algum novo detalhe que surpreende, ou algo curioso que tinha sido esquecido.

Fornada de Contos IX [Fantasy&Co]

“Livre”, Pedro Pereira – O autor volta a partir das personagens e do worldbuilding já abordados em vários dos seus contos anteriores, tornando-o em mais uma peça do puzzle geral. Narrado em primeira pessoa, o foco encontra-se em Leviatã, descrevendo o seu acordar e as primeiras acções que se seguirem. Tratou-se de uma narrativa demasiado factual, centrada em narrar os acontecimentos, mas esquecendo de transmitir ao leitor o elemento sentimental ou até mesmo manter um maior equilíbrio entre descrição directa e indirecta. Ademais, a narração em primeira pessoa implica que haja um afunilamento à visão da pessoa, expressa não apenas no transmitir das suas opiniões, mas também na linguagem e modo como pensa e se descreve – ter alguém a descrever as próprias acções com “o meu longo cabelo”, por exemplo, confere um elemento de artificialidade à narração.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638253

“O Industrioso SL4V3”, Ricardo Dias – A comédia presente no modo narrativo entrelaça-se bem no assunto mais sério que o leitor consegue depreender das entrelinhas (ainda que o próprio protagonista não o consiga). A história encontra-se bem estruturada, com um bom pacing e um final que responde no tempo certo às questões que vamos levantando durante a leitura. Ademais, destaca-se por detalhes como do nome de SL4V3 ou da nave, Vasco da Gama.

Contos disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638255

“O Mineiro”, Pedro Cipriano – Um desabamento leva ao encarceramento de um grupo de mineiros. O conto não desenvolve muito o wordbuilding ou o carácter de fantasia, deixando apenas algumas indicações que possam levar à dedução do leitor. Centra-se essencialmente nas descrições do acontecimento e na tensão – controlada, mas sentida – que o dito cria no grupo. Destaca-se pelo sucesso na ambientação, tendo esta sido bem conseguida, e sendo muito fácil visualizar o que é narrado.

Contos disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638257

“Os Historiadores”, Ricardo Dias – Um conto de Natal dentro da Ficção Científica, onde o radicalismo, emoldurado no tema “viagem no tempo”, acaba por se tornar o foco. Tudo na narração cresce para o final, no qual se verifica uma passagem bem conseguida entre o “ambiente” de FC para o mais “histórico”, através dos reis magos.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638258

“O Ídolo”, Pedro Pereira – Uma pitada de fantasia junta-se ao tema dos templários numa narrativa que se assemelha mais ao prólogo de algo maior do que a um conto per si. O enredo, simples, vai crescendo até ao final, deixado em aberto. Não traz muito de novo ao género.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638254

“No Carnaval Ninguém Leva a Mal”, Carina Portugal – Um enredo simples, mas bem desenvolvido, com uma narrativa capaz de cativar o leitor. Gostei em particular das personagens – umas novas, outras já conhecidas de outros contos – e dos detalhes que as individualizam. A ironia do título também não passa despercebida, logo nos inícios do conto.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/635549

“Raktabija”, Carina Portugal – Inspirado na – e desenvolvendo a – mitologia indiana, o conto foca-se na deusa Kali e na sua destruição dos demónios asuma. Como é comum em mitologias o que se reduz com esta simplicidade tem bastante mais complexidade por trás. A estrutura segue um crescendo contínuo, desde a introdução e ambientalização até à conclusão final. Que os actos caracterizadores da maldade dos asuma fossem essencialmente abusos e violações, na sua maioria contra mulheres, foi algo que não passou despercebido.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638263

“Protetização Total”, Ricardo Dias – Um conto curto e de fácil leitura centrado na recuperação de um indivíduo, após um acidente do qual não se recorda. A narração em primeira pessoa leva a que o leitor vá acompanhando o processo de descoberta mais ou menos ao mesmo tempo que o protagonista – embora a compreensão da reviravolta final chegue primeiro à compreensão do leitor.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638262

“Arraia”, Pedro Cipriano – Nesta curta narração o autor volta a adicionar mais um detalhe a um worldbuilding que tem vindo a utilizar (e a dar a conhecer por contos) faz já alguns anos. Para quem já leu os contos anteriores é fácil de compreender o ambiente histórico-social envolvente, mas o mesmo não pode ser dito para quem terá este conto como primeiro contacto com o worldbuilding em questão. Narrado em primeira pessoa, prende-se, naturalmente, à percepção do narrador e protagonista. O equilíbrio entre a exposição e a descrição falha um pouco em detrimento da descrição, com excepção da parte final. Aliás a descrição final, descrevendo um X que significa Y, é o melhor do conto.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638249

“A Sentinela”, Pedro Cipriano – Um conto anterior do mesmo autor narra sobre um viajante que segue de povoação em povoação avisando as gentes sobre a ameaça que os espera, da qual a única salvação é a protecção da muralha. Embora as personagens e o “tom” do conto sejam diferentes, este é, de certo modo, uma continuação. Narrado na terceira pessoa, foca-se numa batalha, descrita com foco na perspectiva de um jovem sentinela. Tal como o conto que o antecedeu, falha em esclarecer pontos fulcrais no enredo relativamente à ameaça: quem são, quais os seus motivos. Num geral, trata-se menos de um conto com princípio, meio e fim, e mais de um detalhe de algo maior.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/671239

“Uma Mulher Respeitável”, Célia Correia Loureiro

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LOUREIRO, Célia Correia – Uma Mulher Respeitável, Barcarena, Marcador, 2016

Sinopse: 1831 – Pouco depois de se casar, a sorte do conde de Cerveira sofre um revés. Uma série de infortúnios deixam-no à beira da ruína financeira, e não demora muito para que comece a desconfiar dos intentos da estranha de beleza intrigante que desposou. Perante a dúvida, decide enviar Leonor Sanches para um exílio temporário junto do tio, que ensina no prestigiado Trinity College, em Dublim. Conforme a epidemia de cólera vai ceifando as vidas de cristãos e anglicanos na Irlanda, também o coração de Leonor Sanches se oferece à tragédia.
1857 – Cinquenta anos depois de perder o seu bem mais precioso para as tropas de Napoleão, Mariana Turner sente que está a um passo de descobrir toda a verdade sobre os acontecimentos de Março de 1809. Novas revelações apontam para que a condessa de Cerveira, encarcerada no Porto, seja a chave para resolver o mistério. Munida de uma determinação inabalável, tudo fará para conseguir deslindar o passado de Leonor Sanches – fidalga e anjo caído.

Opinião: O romance pode ser lido e compreendido de modo independente. Julgo, contudo, que causa maior impacto a quem já leu o antecessor, A Filha do Barão, não apenas por tal fornecer um maior conhecimento sobre personagens que aqui se tornam secundárias, mas também porque a questão deixada em aberto no referido romance se torna, em Uma Mulher Respeitável, no motor de todo o enredo. Tudo gira, de facto, em torno da identidade de uma mulher, explorando as consequências e ramificações das escolhas que fez e das escolhas que outros fizeram – deixando sempre discernir as alterações e oportunidades que poderia ter tido caso alguma dessas escolhas tivesse sido outra.

Como a sinopse já deixa antever, o enredo vai-se desenrolando ao longo de vários contextos temporais. Tal é feito, contudo, não de um modo linear, mas com várias “idas e vindas”, sendo a história construída como que um puzzle, peça a peça, em capítulos curtos. Contrariamente ao que se poderia supor, não considerei tal estrutura confusa: tendo em mente a identidade de Evelyn/Maria/Leonor, e beneficiando da indicação do ano, torna-se bastante fácil ao leitor situar-se no tempo da história. Estes dois pontos são fulcrais para que haja a referida facilidade. Ainda em termos narrativos, mas em relação a uma outra faceta, é de notar a linguagem cuidada da escrita, feita a equilibrar uma aproximação à época com a compreensão dos dias de hoje.

Assim como se denotou no volume anterior, é possível compreender a pesquisa por detrás do processo de escrita. Desde a caracterização a pequenas referências, o “trabalho de campo” da autora encontra-se visível a quem souber olhar, sem no entanto se tornar maçudo.

Outro ponto que também se tem vindo a transpor de uma obra para a outra refere-se às personagens. Desde o primeiro livro da autora que a construção e caracterização das personagens se me tem destacado pela positiva: este não foi diferente. Atributos e defeitos, humores consoante o momento e estado de espírito, diferentes visões da mesma persona consoante quem olha, tudo isto está presente, humanizando o que de outro modo seria apenas um nome num papel. Personagens houve que me desiludiram pelas suas atitudes: do mesmo modo que pessoas são capazes de desiludir. Compreensível? Sim. Mas nem sempre se concorda com o que se compreende e foi isso o que aqui encontrei.

Por fim, e novamente em relação ao enredo, falta-me falar das reviravoltas. À semelhança do livro anterior, os plot twists não estão feitos para serem compreendidos apenas no preciso momento em que acontecem. Havê-los há, contudo, não deixei de notar as indicações – umas mais discretas que outras – que vão sendo dadas antes das revelações. Por outras palavras, é dada ao leitor a oportunidade de adivinhar o que irá acontecer, ainda que tais descobertas sejam feitas aos poucos, ou não houvesse a necessidade de manter o interesse na leitura.

“Proxy”, VVAA

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VVAA – Proxy, [s.l.], Divergência, 2016

Sinopse: Bem-vindo, [Utilizador/a]. Proxy é o culminar de vários anos de trabalho e de estudo em leitura psico-criativa. Seis mentes, seis futuros que nunca existiram. Seis mundos. Os pináculos de Nova Oli e as entranhas de VitaVida. Modulações eléctrico-sonoras e o dilema da artificialidade. O poder da máquina e o desmoronar de uma simples equação.

Preste atenção. Aquilo que vai ler é estritamente confidencial.

Proxy é a primeira experiência antológica de cyberpunk em Português. Seis autores acompanharam-nos nesta viagem: Vitor Frazão, Júlia Durand, Carlos Silva, Marta Santos Silva, José Pedro Castro e Mário Coelho – seis dos melhores jovens autores de Ficção Especulativa nacional.

Opinião: Como indicado na sinopse, “Proxy” trata-se de uma antologia cyberpunk constituída pelos contos de seis autores portugueses que se aventuraram pelo género: a maioria salientou, aquando o lançamento, ter sido a primeira excursão ao nicho. Talvez por isso mesmo tenham levado para as respectivas histórias elementos com que já se encontravam mais familiarizados, gerando um moldar interessante – e caracterizador – do género pela sua respectiva experiência de vida. De um modo geral, a qualidade entre os contos encontra-se equilibrada, ajudando a que a antologia seja encarada como um todo e não como uma manta de retalhos. O prefácio, de João Barreiros, segue o tom e discurso já habituais do autor, seguindo um carácter generalista que pouco dá a entender sobre o cyberpunk em específico ou os contos da antologia em que se insere.

Seguem as opiniões individuais a cada conto:

Deuses Como Nós, Vítor Frazão: Começo por salientar o que mais gostei neste conto: o conceito e o relance que tivemos do worldbuilding. O autor segue a linha da “mercenária” apanhada entre a querela de dois “grandes” e respectivas visões de certo e errado, que não sem razão é uma das trops favoritas de leitores e espectadores. Contudo despertou-me muito mais o interesse e a atenção a ideia da venda de objectos que nos são agora mundanos como antiguidades e artefactos, chegando a sua venda-e-compra a relacionar-se com o tráfico ilegal. Não poucas vezes considero os detalhes como diferenciadores de uma história – em Deuses Como Nós, foi esta visão.

Em contrabalança: A estrutura seguida encontra-se um pouco caótica, tornando o conto confuso nos seus inícios. Apenas mais adiante, quando já grande parte do enredo se desenrolou, é que o leitor se consegue situar. Outro ponto negativo a nível narrativo prende-se com a protagonista: sabendo-a mulher, não consegui deixar de ter a sensação de ser um homem o narrador. Por fim, trata-se do conto que apresenta maior quantidade de gralhas, algo facilmente “limável” com uma revisão extra.

Modulação Ascendente, Júlia Durand: Não sendo uma luta do indivíduo contra o corporativismo propriamente dita, na medida em que a protagonista está resignada ao sistema no qual se encontra, também não se pode dizer que não o é, visto que a protagonista age de forma a contornar os elementos a seu favor. Trata-se do meu conto favorito da antologia, enquanto leitora, na medida em que no futuro encontramos o presente. As questões, (in)justiças e estruturas socioculturais do agora mantêm-se numa ambientação obviamente futurista, tornando o worldbuilding (lamentavelmente) credível e de fácil empatia. O enredo centra-se quase que num detalhe deste worldbuilding: filmando o formigueiro, foca-se numa formiga em específico, dando ao leitor um episódio da sua vida que, sendo apresentado com princípio, meio e fim, é sabido ser apenas isso: um episódio de muitos na vivência da protagonista. Por fim, é de salientar a utilização feita da música. O conceito explorado na ficção deste conto ganha um particular interesse quando se adquire a percepção do quão frequentemente ele é hoje aplicado, em vários e diferentes níveis. A autora, também musicóloga, soube assim atar estas duas facetas do seu dia-a-dia, criando o elemento diferenciador de Modulação Ascendente.

Pecado da Carne, Carlos Silva: Um conto bem construído, bem narrado e com personagens carismáticas. Mais uma vez, o conceito do wordlbuilding revelou-se o que mais me interessou: países e nações dão lugar a grandes corporações de saúde, onde quem tem poderio para pagar as apólices vive numa aparente utopia, enquanto quem não tem é varrido para debaixo do tapete. Como usual nestas sociedades, quanto mais se procura ver através delas, pior é o cheiro.

y + t, Marta Silva: O núcleo do enredo prende-se com a oposição que vai crescendo entre as duas personagens, y e t, nascida do modo como encaram a realidade em que vivem. À medida que cada uma delas se vai ancorando mais naquilo em que acredita, a relação – que entendi bem mais como amorosa do que como amizade – vai-se esfriando e deteriorando, até à reunião quase irónica no final. A forma narrativa, contudo, não me agradou, não tendo encontrado razões estéticas, de percepção ou de qualquer outro âmbito que tivessem levado às escolhas narrativas da autora.

Alma Mater, José Pedro Castro: Um melting pot. Imaginemos que o autor partiu vários vasos, novos e velhos, misturou os cacos e, de seguida, pegou em alguns deles para montar o seu próprio vaso. É essa a imagem que este conto me provoca, sendo necessário salientar que, de alguma forma, funcionou. Há um grande equilíbrio entre os vários elementos narrativos, levando a que a leitura seja agradável a um espectro variado de leitores. A acção é doseada com sentimento, o humor com tristeza, e o passado com o futuro. A isto, juntam-se ainda personagens bem construídas e algo inesperadas. Fechando o ciclo: um melting pot.

Bastet, Mário Coelho: Um conto com princípio, meio e fim – conta a história a que se propõe sem deixar a sensação de “precisa de mais” ou “precisa de menos”. Após um início centrado mais na contextualização no mundo criado através do show, a narrativa avança com base na acção e no tom humorístico. O enredo assume o seu momento alto com a reviravolta do final.