“Anjos”, Carlos Silva

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SILVA, Carlos – Anjos, Aveiro, Divergência, 2017

Sinopse: Numa Lisboa futurista, reconstruída após um terramoto ainda maior do que o de 1755, a informação é mais preciosa do que nunca. A mais delicada e desejada não pode correr o risco de circular pela omnipresente internet – tem de voar sobre ela, nas mãos inefáveis daqueles que se autointitulam de Anjos.

Mas nem eles estão seguros, agora que os seus inimigos sabem da terrível arma da qual são guardiões. Um engenho apenas possível no passado, capaz de inverter a balança de poder na nova cidade. O círculo está a apertar, cada vez mais letal. Ninguém sairá ileso.

 

Opinião: Um enredo de acção e mistério ambientado num worldbuilding científico-futurístico de cujos detalhes a trama não se acanha em tirar partido. É muita a informação que é necessário transmitir ao leitor, não apenas em relação ao funcionamento da sociedade e das tecnologias nela utilizadas, como também às personagens, que apesar de três ou quatro que mais se evidenciam, tem ainda um núcleo principal consideravelmente numeroso. Durante grande parte da narrativa essa transmissão é conseguida, com um bom equilíbrio entre o tell e o show, e não havendo uma ânsia de “despejar” informação logo num primeiro momento, sendo esta dada aos poucos e conforme a sua necessidade. Momentos há, contudo, em que não é tão bem conseguido, em especial no que respeita às personagens – algumas por não terem sido tão desenvolvidas quanto necessário, outras pela morte repentina e off screen que, pela posição que detêm no enredo e para o leitor, se tornou demasiado abrupta, sem necessidade.

O enredo desenvolve-se de forma lógica e estruturada, sendo que os plot twists acabam por ser deduzidos, também por esse motivo, momentos antes de se revelarem oficialmente ao leitor. Em relação à narração, segue também um registo também bastante factual, seguindo o mesmo tom quer descreva acção, quer aborde mais um desenvolvimento sentimental de uma personagem.

O mais negativo a apontar serão as gralhas – de pontuação ou palavras trocadas, por exemplo – que são constantes no texto, tendo escapado à revisão.

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“A Confissão de Lúcio”, Mário de Sá Carneiro

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CARNEIRO, Mário de Sá – A Confissão de Lúcio, [s.l.], Projecto Adamastor, 2013

Sinopse: “Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi; morto para a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar e coisa alguma desejando — eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é: demonstrar a minha inocência.

Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro, é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples, é esta.”

Opinião: Associamos confissão à admissão de algo negativo, de algo feito de mau e para o qual desejamos expiação. Apesar de ser, a seu modo, uma expiação, a história contraria essa ideia, começando assim por surpreender o leitor logo no início: algo que torna a relação título/obra num factor de engenho.

O narrador autodiegético pretende, então, deixar por escrito a sua inverosímil inocência de um crime cuja pena expiou durante dez anos em prisão, não por desejar ser ressarcido ou por considerar que tal lhe trará alguma alteração de espírito, mas puramente pela necessidade de partilhar. Trata-se de um drama existencial com traços de fantasia, onde a única personagem sem grandes características ou desenvolvimento – a mulher – é-o propositadamente e com uma função em mente. As restantes têm uma caracterização contínua ao longo da narrativa, tanto directa quanto indirecta, cujo maior ou menor grau se prende também com o peso e importância que têm para o enredo.

Apesar de trechos onde há um alongamento e repetição desnecessários – característica da época – e das falhas de utilização de vírgulas (onde é dada prioridade ao “efeito” e se acaba por colocar vírgula entre sujeito e predicado, por exemplo), a narrativa é, no seu geral, agradável à leitura, destacando-se o vocabulário excelso, mas acessível.

Esta obra encontra-se disponibilizada pelo projecto Adamastor, de forma gratuita, aqui.

“Histórias do Fim da Rua”, Mário Zambujal

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ZAMBUJAL, Mário – Histórias do Fim da Rua, Lisboa, Quetzal, 1987

Sinopse: Depois do enorme sucesso de ‘Crónica dos Bons Malandros’ – 14 edições e uma adaptação ao cinema – Mário Zambujal regressa com ‘Histórias do Fim da Rua’, uma novela que decorre numa rua antiga de Lisboa, onde as histórias – divertidas ou dramáticas – dos seus moradores de sempre, se misturam com a história de Sérgio – perdão, Dr. Sérgio – e Nídia, sua mulher, habitantes recentes. A rua, tal como o casamento de Sérgio e Nídia, estão ameaçados. Novos planos urbanísticos num caso, a usura do tempo ou a rotina dos dias, no outro. num estilo ágil, aberto e amadurecido, Mário Zambujal leva o leitor a participar, a divertir-se, a «torcer» por um ou dos outros personagens numa obra que vem a confirmar a aceitação unânime do seu livro de estreia.

 

Opinião: Um livro curto que ao longo de capítulos igualmente curtos vai dando a conhecer alguns dos habitantes mais caricatos de uma rua em particular em Lisboa, onde o ambiente e interacções de aldeia ainda se mantêm, apesar de pertencer a cidade. Ainda que todos os capítulos sejam em primeira pessoa, o narrador vai-se alternando, passando por várias das personagens comentadas num e noutro capítulo, mas predominando sem dúvida as narrações de Sérgio e Nídia, o casal de um estatuto social acima dos demais, que em paralelo com a rua recontam a história do casamento falhado, agora prestes a findar-se com um jantar de divórcio. De enredo não tem muito, fica-se pelo já dito. O foco encontra-se na caracterização indirecta das personagens e no seu desenvolvimento, feito aos remendos e através de diversos pontos de vista, em que o acontecimento que é apresentado por um, aparece reconhecido de modo diferente por outro dois capítulos a seguir. A escrita a isto contribuiu, adoptando uma informalidade que se flexibiliza para melhor se adaptar ao narrador do momento, como se de uma conversa – melhor dizer, fala – se tratasse em vez de escrita.

Apesar destas bem conseguidas contextualização e caracterizações, não considerei o melhor do autor, na medida em que conheço obras onde consegue o mesmo, sem ficar o enredo desfalcado. Ademais, o plot twist final em relação a Sérgio e Nídia tornou-se esperado e sem bases dentro do desenvolvimento do enredo que o justificassem. Mais inovador teria sido manter a ideia original.

“Mar Liberal”, Jaime de Oliveira

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MARTINS, Jaime de Oliveira – Mar Liberal, Barcarena, Marcador, 2017

Sinopse: Logo após as Invasões Francesas, Portugal entra numa profunda crise. Assassinatos, conjuras, revoluções e contra-revoluções são parte da vida de muitos portugueses. Num cenário de guerra civil, Teodoro e Rufino, dois jovens e grandes amigos de infância, partem de Leiria à conquista dos seus sonhos, com o fim de conhecer o mundo a bordo de navios da marinha mercante.

Mas esbarram nas dissonâncias de um conflito que os vai colocar em lados opostos da barricada. Com um enredo cativante, Mar Liberal é um retrato da nossa História, cheio de reviravoltas, humor, acção e desenlaces surpreendentes.

Opinião: Ambientado durante a Guerra Civil – inicia-se com a prisão de Gomes Freire de Andrade e termina com o fim da guerra –, o enredo descreve o que acontece a um punhado chave de personagens fictícias, das quais se destacam o doutor Tiago, Teodoro e Rufino. Apesar de acompanhar estas personagens e de lhes atribuir ainda eventos/mistérios passados, não consegue transmitir um propósito evidente, parecendo o enredo algo errático. Há pouco desenvolvimento dos acontecimentos que são apresentados, bem como do psicólogo das personagens, apostando-se demasiado num tell que ignora o show, e caindo-se por vezes num infodump, disfarçado em diálogos.

As personagens encontram-se ainda pouco desenvolvidas e de facetas parcas, sendo que às personagens “negativas” nada é dado de redentor, enquanto as “positivas” são demonstradas de forma inversa, possuindo apenas falhas falsas: aquelas que a bem ver se revelam como qualidades.

No que respeita à escrita, é cuidada e bem utilizada, com um detalhe ou outro a tornar um punhado de diálogos mais artificial, mas no geral agradável à leitura, e o ponto mais positivo da obra.

“Lua de Prata”, Alex Rodrigues

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RODRIGUES, Alex – Lua de Prata, [Lisboa], Escrytos, 2015

Sinopse: Eva Wolf não imagina o que ira descobrir no submundo de Nova Iorque. Dylan James não imagina o que ira encontrar fora do seu mundo. Dois destinos que se cruzam numa historia onde a união entre o real e o sobrenatural poderá ser a resposta as vidas solitárias de ambos. Mas poderá uma história de amor sobreviver a uma guerra que não lhes pertence?

Opinião: Um romance paranormal entre uma humana que acredita em lobisomens, e um lobisomen que é o último da sua estirpe, apanhado num master plan que pretende despoletar uma guerra entre vampiros e lobisomens. Tudo decorre, contudo, demasiado rápido e com um desenvolvimento muito pobre. Os acontecimentos seguem a uma celeridade que não permite que sejam absorvidos e aprofundados, dados a conhecer através de descrições básicas, que se mantêm na superficialidade estritamente essencial. As personagens são ocas, de descrição essencialmente física e personalidade rasa, com relações de igual modo ocas e pouco credíveis, na medida em que nascem sem razão para isso: os protagonistas, por exemplo, apaixonam-se no primeiro momento, sem ter havido qualquer oportunidade para realmente se conhecerem. É uma paixão puramente plot driven, à base do “porque sim”.

A narração assemelha-se mais a um texto académico que a ficção, não despoletando qualquer envolvimento no leitor, mas não querendo dizer que se encontra também sem falhas ao nível linguístico: destacam-se as falhas de pontuação, em particular nos diálogos, na inexistência das vírgulas de vocativo, e no seu uso depois de “mas”, em vez de antes, como seria o correcto, por exemplo; a mistura do tempo verbal narrativo, alternando entre o Presente do Indicativo e o Pretérito Imperfeito, sem que haja razão gramatical para o fazer; e a cacofonia narrativa, gerada por repetições aproximadas, em especial de advérbios terminados em “-mente”.

Diria tratar-se mais de um primeiro rascunho a partir do qual se desenvolveriam os próximos processos de reescrita do que de um produto final, pronto para o mercado.

“Mulheres Fora da Lei”, Anabela Natário

 

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NATÁRIO, Anabela – Mulheres Fora da Lei, São Pedro do Estoril, Desassossego, 2017

Sinopse: Conheça as maiores criminosas dos últimos três séculos em Portugal.

Cuidado com elas! São 23 mulheres, desde assassinas a vigaristas e gatunas. Uma desfez-se do marido, servindo-lhe um prato de arroz temperado com arsénio ao jantar. Outra, seguindo um plano mais elaborado, temperou um clister com a mesma intenção. Uma terceira ia buscar crianças para adotar e desfazia-se delas, asfixiando-as com uma tira de pano. Menos violentas, mas não menos criminosas, são as larápias de mão leve, algumas verdadeiras figuras públicas, cujas aventuras nos dão a conhecer o Portugal de outros tempos. Mulheres Fora da Lei convida-nos a viajar pela vida das maiores criminosas dos últimos três séculos. E só o facto de já estarem todas enterradas no passado nos deixa alguma tranquilidade.

 

Opinião: Trata-se de um conjunto de vinte e duas histórias sobre vinte e três mulheres (uma das histórias aborda um duo) que de comum têm o serem portuguesas e o serem criminosas – com crimes a variar do furto ao homicídio. Algumas causam pena (com outro contexto sócio-económico, quiçá o desfecho não fosse díspar), outras nem tanto. Cada uma destas histórias pode ser lida de modo independente, não tendo mais que oito ou dez páginas, o que leva a que se torne uma leitura passível de ser feita com vagar e espaçadamente.

Além da história do crime propriamente dito também são acrescentados à narrativa outros detalhes: a maioria contribui para o contexto sócio-cultural do tempo de vida da fora-da-lei em apreço, o que não apenas situa e ambientaliza o leitor, como também leva a alguma compreensão – se não pelo crime, pelas razões externas à criminosa que levaram ao dito. Alguns, contudo, ainda que curiosidades, são rapidamente esquecidos e pouco se vê da utilidade à narrativa em causa, acrescentando apenas “palha”.

Funciona, enfim, como uma introdução bem conseguida a um lado da História portuguesa que passa usualmente despercebido aos canais de conhecimento e aprendizagem habituais.

“A Pirata”, Luísa Costa Gomes

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GOMES, Luísa Costa – A Pirata, Lisboa, Dom Quixote, 2006

Sinopse: A história aventurosa de Mary Read, pirata das Caraíbas. A Pirata é uma biografia ficcionada da célebre Mary Read, uma das poucas mulheres-pirata e que há memória. Conhece-se a história de Mary Read pela breve descrição que dela faz o capitão Charles Johnson na História Geral dos Piratas. Sabe-se que nasceu em Inglaterra, que foi soldado na Flandres e que foi capturada na Jamaica com a tripulação do famoso capitão Calico Jack Rackam e a sua amante, a terrível Anne Bonny. Condenadas à morte na forca, Mary Read e Anne Bonny viram a sentença adiada por estarem grávidas. Mary Read veio a morrer na prisão, em Abril de 1721.

 

Opinião: Considerar a obra como uma biografia, ainda que ficcionada, é puxar a brasa à sardinha. Em capítulos curtíssimos, cada qual começando com uma “sinopse” indicando os acontecimentos do capítulo em questão, é adoptado um tom informal, mais próximo ao de um conto tradicionalmente oral, com intervenções directas do narrador, ainda que o dito não seja uma personagem. Há um desequilíbrio enorme entre o show e o tell, a pesar para este último, que torna a história morosa. Os eventos não são aprofundados, nem as personagens desenvolvidas, levanto a uma falta de empatia.

Em suma, um livro que ficou aquém das expectativas, desiludindo pelo modo como escolheu apresentar a proposta escolhida.