Fornada de Contos VIII [Fantasy&Co]

“O Vizinho do 4-B”, Ricardo Dias: Não propriamente um conto, mas uma peça de teatro, de fantasia cómica, centrada no diálogo entre duas coscuvilheiras. São figuras bem nossas conhecidas, acredito, e ver reproduzido o seu comportamento e comentários típicos num contexto mais sobrenatural – sem que elas próprias o saibam – tornou a peça numa bem sucedida comédia. Quanto ao “mistério” da identidade do vizinho contemplado, inicialmente deixou-me em dúvida, tendo chegado a colocar a hipótese de outras criaturas. O avançar do diálogo, no entanto, vai conferindo as pistas que o leitor necessita para tirar a conclusão acertada, a qual é confirmada no último acto.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/543491

“O Fugitivo,”, Pedro Pereira: Narrado na primeira pessoa, oferece uma perspectiva de ficção-científica à destruição de Sodoma. Os elementos bíblicos mais conhecidos encontram-se bem encaixados, e o enredo segue uma linha simples: um fugitivo a procurar escapar aos seus perseguidores. Não tem, no entanto, nenhum momento em que surpreenda, sendo também a forma narrativa algo desprovida de sentimentos.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/543490

“Génesis”, Pedro Pereira: Um conto de ficção-científica que é um detalhe de uma história maior. A narração é directa e concisa, apresentando algumas gralhas. Julguei Jado, o protagonista, invulgarmente inocente para uma pessoa com as vivências que ele tem, contudo, isso parece ter-se “resolvido” no final.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/550553

“O Lago”, Pedro Cipriano: Com a acção a arrastar-se no início e a apressar-se no final, a leitura tornou-se morosa. Nota-se o que o autor procurar abordar e explorar, no entanto, o desequilíbrio do pacing da acção, junto com a falta de empatia entre o leitor e a personagem, pouco fizeram para que apreciasse a leitura.

Escaparam, ainda, algumas gralhas.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/567733

“O Artefacto”, Pedro Pereira: Como já se tem tornado habitual ao autor, o enredo do conto é um detalhe numa história maior, facilmente notável não apenas pelos elementos em comum com contos anteriores, como também pelo final em aberto. Apesar de ser uma leitura rápida e chamativa para determinado público-alvo, julgo que falhou um pouco no desenvolvimento das personagens, as quais se aproximam do unidimensional. As reviravoltas do enredo são, na sua maioria, também deduzíveis, em particular por quem já tem uma boa bagagem dentro deste tipo de leituras.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/567731

“Na Noite em que o Inferno Subiu à Terra”, Ricardo Dias: No que se pressupõe ser um grupo de sobreviventes reunidos, o narrador conta aos ouvintes como foi a sua experiência quando pela primeira vez os demónios surgiram na Terra. Apesar de não haver quaisquer interrupções no texto, os comentários do narrador são eficientes a transmitir uma ideia de diálogo, o que leva a que não haja a sensação de monólogo.

Uma leitura interessante, com um formato informal e conteúdo pesado, cujo plot twist final é adivinhável pelo leitor antes de ser descoberto, mas não demasiado cedo.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/567729

“O Jardim do Éden”, Pedro Cipriano: Pode-se considerar este conto como uma recontagem, ou pelo menos um paralelismo, de Adão e Eva sob uma perspectiva da Ficção Científica. Levanta algumas questões, na medida em que aborda o receio do pecado, mas também a inocência de não saber o porquê de ser errado.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/587902

“O Muro”, Pedro Pereira: Um conto de Fantasia apocalíptica que realça as consequências que advêm de todas as escolhas. A opção de focar a narração num detalhe e numa personagem permitiu que os sentimentos da dita personagem fossem melhor desenvolvidos, aumentando, por consequência, a empatia entre protagonista e leitor. Em relação ao worldbuilding, é dado o suficiente para que seja compreendido.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/587908

“O Guia”, Pedro Cipriano: Desta leva foi a leitura que menos gostei. A narrativa arrasta-se e o enredo encontra-se mal desenvolvido. Apesar de o protagonista ter como função convencer os outros a segui-lo, e de haver indicações que o faz com frequência, a única coisa que o vemos a fazer são discursos, os quais não são eloquentes, esclarecedores, nem particularmente argumentativos.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/587862

“Livre”, Pedro Pereira: Mais um conto que faz ligação com o enredo e worldbuilding de contos anteriores. Desta vez, o foco é no rasto de destruição e no seu causador. Senti falta de um maior desenvolvimento das descrições, que se tornam o factor central neste tipo de narrativa.

Disponível em: https://fantasyandco.wordpress.com//?s=livre&search=Ir

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“Viagem à Índia”, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

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MAGALHÃES, Ana Maria, ALÇADA, Isabel – Viagem à Índia, Alfragide, Caminho, 2003

Sinopse: Nesta viagem à Índia, Orlando e os seus amigos Ana e João enfrentaram tempestades, incêndios, conflitos, traições, perigos de toda a ordem ao lado dos marinheiros ousados que acompanharam Vasco da Gama. E com eles saborearam também o prazer das grandes descobertas.

Opinião: Antes de Harry Potter chegar e destronar tudo e todos, a colecção Viagens no Tempo tinha estatuto entre os meus livros favoritos, sendo uma das principais responsáveis pelo meu gosto de História. Chegava a não compreender como é que Uma Aventura era tão conhecida, enquanto esta colecção se mantinha mais nas sombras. Foi principalmente por isso – pelo desejo de terminar uma colecção que me foi e é tão querida, assim como pela curiosidade de ver como os encararia agora – que peguei no Viagem à Índia, um livro pelo qual esperei durante a minha infância, e que quando foi finalmente publicado já eu tinha saído dela.

Não foram poucos os pontos que se destacaram que não eram exactamente como me recordava. Já não saberei dizer se tal se deve a eu ter uma diferente percepção, ou se é algo que aconteceu mais com este livro e não tanto com os anteriores. Desconfio de uma mistura. Por exemplo, parece-me que o desenvolvimento das personagens e sua participação no enredo ficou aqui aquém daquele que temos em livros anteriores. O Orlando, que eu recordo como uma figura entre um avô e um professor, encontra-se extremamente apagado. A Ana parece reduzida a um estereótipo feminino, cujo único papel no enredo é namorar dois moços em simultâneo e desculpar-se com “não sei qual deles escolher, amo-os aos dois” – ficando por explorar o que seria o seu maior desafio, não ter o seu género descoberto, estando presa num navio com vários homens durante tempos a fio. Nem ficamos a saber que nome masculino adoptou, ou se chegou a adoptar algum! Já o João apresenta-se de acordo com a minha lembrança: um brincalhão afoito, de mente e língua rápidas. As minhas únicas ressalvas prendem-se com o facto de as suas peripécias serem episódios isolados – algo que julgo dever-se à visão de adulto, e que para o público-alvo não é problemático – e o esquecimento sobre os objectivos do rapaz que aconteceu aqui e ali (por exemplo, a sua declaração de vingança ao ser vítima de Álvaro Novo, que apesar de todo o seu ênfase, é esquecida e nunca mais mencionada, nem com a intenção de afirmar que dela desistiu).

Outro ponto de divergência entre a leitura actual e as minhas lembranças prende-se com a rapidez da acção. Tudo acontece muito rapidamente: as personagens entram quase imediatamente na máquina do tempo, sem grandes delongas ou introduções, a viagem decorre com os factores históricos como pano de fundo, permitindo algumas aventuras, e o final dá-se ainda o trio protagonista não regressou ao seu tempo actual, optando por deixar no ar as intenções de resolver as questões que ficaram em aberto desta ou daquela maneira, em vez de demonstrar a sua resolução efectiva. Atendendo ao público-alvo, não considerei esta apresentação rápida de aventuras e rapidez no desenvolvimento do enredo como algo negativo: adequa-se ao leitor em vista. Senti, contudo, uma certa falta de desenvolvimento, que acredito ser mais deste livro em específico, que doutras da colecção. Apesar dos anos, tenho em memórias passagens e eventos que reflectem um maior desenvolvimento, quer do contexto histórico, quer das personagens – tanto protagonistas como secundárias – que aqui não se deu, talvez por um desejo de o acabar o mais depressa possível.

No geral, considerei Viagem à Índia como adequado ao público a que se destina. Gostei de o ler, gostei de recordar, e gostei de comparar. As ilustrações mantêm-se como uma mais-valia que muito animam. Não me parece, contudo, que se encontre entre os melhores da colecção, havendo outros que lhe são consideravelmente superiores em matéria de desenvolvimento histórico e das personagens.

“Insonho: Durma Bem”, VVAA

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VVAA – Insonho: Durma Bem, Paraná, Estronho, 2015

Sinopse: O folclore português é nostálgico. É fado e saudade. Saudade das tardes sentados, no chão da sala, a ouvir o avô contar sobre o lobisomem. É medo e respeito. Como naquelas noites em que nos deitávamos e pensávamos no Insonho ou na Mula sem Cabeça. Falar sobre o folclore português é viajar pelo interior de Portugal e encontrar as lendas que cheiram a infância e se perderam na pressa de crescer.
A antologia “Insonho – Durma bem!” pretende resgatar essas memórias; trazer ao leitor a inquietude de ser criança, outra vez, e temer as histórias destes seres tristes ou maléficos. Aqui reúnem-se as Mouras Encantadas, o Saca-Unhas, o Adamastor, o Carago, o Bicho Papão e outros numa coletânea que promete embalá-lo num sonho fantástico e cheio de magia. Mas cuidado. Eles podem aparecer… Durma bem!

Opinião: Quando a Estronho e a Valentina Silva Ferreira anunciaram a antologia, abrindo o call to arms, a temática chamou-me de imediato a atenção. Portugal tem um folclore riquíssimo em lendas e mitos, não só muitos como também variados, e apesar de me parecer que este livro apresenta uma boa mão-cheia do aproveitamento das ditas, também muito ficou ainda por explorar. Espero, portanto, ver outros trabalhos que o façam.

Reflectindo o seu ponto de partida, a antologia mostra nove contos muito diversos entre si, tanto nas lendas abordadas, como nos estilos narrativos. Têm em comum apenas o folclore português, e embora a grande maioria seja ambientada no rural, também aí encontramos excepções. Mas melhor será a opinião individual a cada conto:

“Ao Meio-dia”, Carlos Silva: O conto de abertura recupera um leque de lendas antigas, como o carago, o homem das sete dentaduras e bruxarias de aldeias (talvez aquilo que o leitor mais depressa reconhece), interligando-as numa história consistente e bem ambientada, de amor, invejas e tragédia. Julgo que poderia ter desenvolvido mais as informações em relação ao homem das sete dentaduras, que não ficou explícito para quem não o conhece, mas nada mais tenho a apontar, excepto, e por um bom motivo, as citações do início, que se destacaram – não é todos os dias que vemos éditos reais e verídicos em relação a sereias.

“Duelo de Lendas”, Valentina Silva Ferreira: Temos aqui a interligação de várias criaturas místicas, em particular as relacionadas ao sono, que efectivamente duelam entre si, fazendo da protagonista humana e doente campo de batalha (pobre moça). Num twist final o vencedor é outro, que não duelando açambarcou os lucros. Tanto a descrição do ambiente em redor da personagem quanto das suas acções físicas encontra-se muito boa; no entanto, senti falta de um maior desenvolvimento no terror sentido pela personagem no pesadelo, a nível psicológico. Em termos de escrita, aponto apenas a pontuação nos diálogos, que vez ou outra falhou.

“Na Escuridão” Vitor Frazão: À primeira vista a premissa parece “adolescentes fazem o que não deviam e dá asneira”, sempre um favorito. Toda a ambientação – e interacção entre as personagens – dá a entender um filme de terror série B, com uma Moira Encantada. Otwist final, no entanto, confere mais substância às personagens e desvenda os motivos ocultos. Mais uma vez notei uma falha na pontuação dos diálogos, mas num ponto bem mais positivo temos uma boa escrita coloquial, já característica do autor.

“A Voz de Lisboa”, André Pereira: O que inicialmente parece “apenas” um acidente no metro de Lisboa, logo apresenta um cariz sobrenatural. Visto que é narrado em primeira pessoa, o leitor acompanha a (in)compreensão do protagonista, o que salienta o terror psicológico. Considerei um excelente crescimento do texto, tanto da parte do caminho da individualidade para a legião, como da lenta resposta que se foi formando ao chamamento e, em consequência, da compreensão dos acontecimentos.

“A Noite em que o Bicho-Papão Encontrou Kafka no Cimo de um Telhado”, Francisco J. V. Fernandes: Um conto de narrativa calma que alterna entre a infância marcada pelo receio do Bicho-Papão e a velhice, nos últimos momentos de vida. Efectua uma junção muito bem conseguida entre a lenda portuguesa – delimitada por características portuguesas, como a cantilena da avó para afugentar a criatura – e A Metamorfose, de Kafka.

“Sant’Iroto”, Ana Luiz: O início fez-me lembrar a minha infância, visto que cresci numa quinta, e reconheci as actividades da catraia. Toda a ambientação me pareceu natural, a evocar o verídico tanto da dita quinta, quanto da aldeia dos meus bisavós, bem mais para o interior. Trata-se do conto que mais adoptou o tom que utilizamos para falar entre nós das “experiências” sobrenaturais. Tem, no entanto, algumas gralhas.

“Por Sete Encruzilhadas, por Sete Vilas Acasteladas”, Miguel Raimundo: Um conto lupino, que recupera a ideia mais nacional de lobisomen e segue uma narrativa que associamos mais ao tradicional. Um detalhe curioso é a narradora ser uma bruxa de um século anterior ao nosso, a contar uma história ainda mais anterior que o seu próprio tempo.

“Ao Sexto Dia”, Inês Montenegro: Porque ninguém comenta os seus próprios contos em blogs literários, não é?

“Sangue, Suor e… Unhas”, João Rogaciano: O último conto apresenta uma estrutura policial, sendo um encontro entre este género e o sobrenatural. Julgo que poderia ganhar com um maior desenvolvimento do sentimento das vítimas quando são atacadas, e alguns dos diálogos são demasiado expositivos, tornando-se pouco naturais. Também as vírgulas falharam por algumas vezes. É de salientar, a nível positivo, o encadeamento dos acontecimentos e sua condução, bem como o twist final acerca do assassino.

“Por Mundos Divergentes”, VVAA

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VVAA – Por Mundos Divergentes, Aveiro, Divergência, 2014

Sinopse: Num futuro por vezes próximo, por vezes distante, Portugal sucumbe dos mais variados estados ditatoriais. Aquele que pensa é um inimigo do Estado. Um inimigo da pátria que tem de ter cuidado… e os que não têm cura, devem ser sacrificados pelo bem maior.

Por mundos divergentes conta com cinco contos distópicos escritos por Ana C. Nunes, Nuno Almeida, Pedro G. Martins, Ricardo Dias e Sara Farinha.

Opinião:

“O Patriarca”, Ricardo Dias: Narrado em primeira pessoa, o conto apresenta uma boa estrutura e uma clara inspiração em Orwell. A maioria das personagens não apresenta complexidade, centrando-se a caracterização no protagonista – sendo esta bem doseada ao longo do conto. Apesar das limitações de um narrador autodiegético, o leitor não só compreende o que está a ocorrer, como o faz ainda antes da personagem – inclusive o final, que se torna evidente um pouco cedo demais.

“Em Asas Vermelhas”, Nuno Almeida: O wordbuilding fez-me considerar uma inspiração “ariana” como base: divisão da sociedade entre os loiros, de pele branca e olhos azuis/verdes a viverem no luxo tecnológico, e os morenos, vivendo na lixeira da cidade muralhada. O enredo centra-se na revolução que inevitavelmente advém, mais tarde ou mais cedo, de tal conceito, partindo dos pontos de vista – ainda que em terceira pessoa – de três personagens que, como se tornou bastante comum, são como que forçadas a assumir um papel na revolução. A estrutura está evidente: apresentação das personagens e worldbuilding, evento que despoleta os acontecimentos, clímax, e resolução. Fica, no entanto, a sensação de que seria uma história para um formato maior.

“Dispensáveis”, Ana Nunes: Recordam-se de ouvir sobre sociedades em que os filhos, chegada certa altura, abandonavam os pais numa montanha? É o ponto de partida para esta distopia, situada em Portugal, e com um travo de ditadura salazarista. Narrado em primeira pessoa, segue a visão parcial de um idoso que se tornou “dispensável” e deve, por isso, abandonar a sociedade: ou, mais correctamente, ser abandonado por esta. Uma premissa interessante, com um final ajustado ao que foi demonstrado sobre o wordbuilding. Apresentou, no entanto, algumas falhas e gralhas, como por exemplo uma troca de nomes, e a personagem do neto mais novo, cuja construção o faz parecer irreal.

“Arrábida8”, Pedro G. P. Martins: Apesar de ter sido o worldbuildingque mais me despertou o interesse, foi o conto que menos gostei. Julgo que ficou um grande potencial por desenvolver, não apenas no mundo criado, mas também no enredo. Não se percebe bem qual a importância do evento que se encontra no centro do enredo, nem o porquê de ser “ilegal”, algo a que o grande cariz científico não ajuda.

“Somos Felizes”, Sara Farinha: O meu conto favorito da antologia. A premissa é simples, mas poderosa: um mundo onde ser infeliz não é opção. Todos devem ser felizes. Tendo presenciado um momento marcante, o protagonista tem não só de lidar com uma depressão, como com a pressão de fingir tê-la ultrapassado. Uma situação pela qual bastantes pessoas passam na actualidade, e que está bem adaptada ao wordbuilding do conto. A autora consegue manter o interesse do leitor nesta “batalha” do protagonista, e do percurso que este percorre.