“Frei Luís de Sousa”, Almeida Garrett/ “Que Farei com Este Livro?”, José Saramago

frei luís de sousa

Li este jovem pela primeira vez andava no meu décimo… décimo primeiro? Algures por aí. Lembro-me de não ter gostado, de ter achado o drama um exagero, sendo particularmente ríspida com Maria, a declarar morrer “de vergonha” quando estava na cara que a rapariga era tuberculosa.

Continuo a considerar que existe um dramatismo excessivo, o qual não consigo apreciar. No entanto, a maior consciência do contexto histórico e literário, bem como a atenção aos temas tratados, levaram-me a apreciar bem mais a leitura. Desde o alerta subtil (ou não tão subtil quanto isso) da justiça que não pode haver em fazer os filhos pagarem pelos erros dos pais, até ao acto de rebelião de Manuel, demonstrando o orgulho da independência portuguesa, e passando ainda pelo paralelismo entre D. João e D. Sebastião – acredito que Garrett tenha querido alertar para as reais consequências do sebastianismo.

A prose é, de facto, linda, e não pude deixar de reparar no quanto Garrett gosta de brincar com o conceito de foreshadowing. Tantas e tão explícitas indicações havia do que estava para a acontecer, que acabei por visualizar um cartaz em letras vermelhas a simpaticamente oferecer a informação. Que falta de discrição, senhor Garrett!

Que Farei com Este Livro

José Saramago resolveu pegar na situação em torno da publicação d’Os Lusíadas – que na altura não havia vanities, mas era preciso arranjar dinheiro de qualquer maneira, uma chatice – e escrever uma peça. Foi o que fez com “este livro”, o qual é, naturalmente… “Os Lusíadas”! (Quem esperava “Frei Luís de Sousa” levante o braço)

Gostei dos diálogos, com vocabulário adequado e bendita pontuação. O simbolismo encontra-se presente por todo o lado, o leitor que se divirta a encontra-lo e tirar as suas interpretações – aqueles que gostam de o fazer, que já ouvi queixas –, e é notória a crítica (ou aviso?) ao presente através do passado.

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[Teatro] “Preocupo-me, Logo Existo”

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Título: Preocupo-me, Logo Existo

De: Eric Bogosian

Tradução e interpretação: Diogo Infante

Direcção cénica: Natália Luiza

Espaço cénico e figurinos: Maria João Castelo

Desenho de luz: João Cáceres Alves

Música e sonoplastia: João Gil

Produção executiva: Rui Calapez e Maria João Santos

Duração: Aproximadamente 80 minutos

Rating: M/12

Co-produção EGEAC/Cinema S.Jorge

Com o patrocínio do Montepio Geral

Sinopse: Ao longo de 1h15, Diogo Infante vai-se metamorfoseando em 8 personagens distintas, que podemos encontrar actualmente em muitas cidades ocidentais, apresentadas de forma caleidoscópica num confronto directo com o público, onde tabus e o absurdo de uma certa modernidade são expostos.

A universalidade do discurso e dos paradigmas que representa torna os textos de Bogosian profundamente actuais e pertinentes.

A apatia generalizada, a ausência e/ou contradição dos discursos, a ganância, a violência, o sexo, as drogas, a religião, a banalidade do quotidiano, e a procura de sentimentos para a vida são temas visados pelas suas personagens.

Todas usam o artifício do discurso directo para desabafar as suas frustrações e o público pode facilmente reconhecê-las ou identificar-se com elas.

Opinião: “Precisa de soltar o seu bebé interior” é o que a primeira personagem não parece cansar-se de nos repetir. Armando Silva, assim se chama a criatura, é baixinho, com óculos de fundo de garrafa, uma barriguinha já esférica, a fugir para a falta de cabelo, fato de tweed e lacinho (‘cause bowties are cool!), de passinhos pequeninos e constantemente a passar o lenço pelo nariz. Todos estes traços parecem exagerados em comparação com a figura de cartão em tamanho real dele mesmo – único acessório presente em palco para esta personagem em especial –, e um pouco mais adiante descobrimos porquê. Falando directamente com o público, como o farão todas as personagens que se lhe seguem, incentiva-o com grande convicção a tornar este mundo melhor através de actos egoístas. Não sei em relação aos restantes expectadores, eu ainda estou a ponderar responder “o meu bebé interior precisava de dormir” a um futuro atraso às aulas. I’m pretty sure it will work out. Toda a gente fica mais mansa com bebés, porquê que não com um interior? Quando entrar no mundo laboral, então é que uiui, será um mimo!

Segue-se-lhe um taxista (camionista?) de camisinha branca, crucifixo ao pescoço, boina a acompanhar todo o ar de quem escarra para o chão e ideias bem fixas sobre a razão da miséria do país – resumidas a imigrantes e homossexuais. O tal religioso muito temente a Deus que não vê qualquer incongruência entre isso e as ideias racistas e homofóbicas. E porque já que se fala de fé, eis a terceira personagem: “ok, este é o tipo de aristocrata rico que um comunista chamaria um mimo”. Não se tratou de política e a personagem cuja identidade manterei salvaguardada para quem estiver a planear assistir ao espectáculo, não era aristocrata. Riqueza já é outra conversa, mas talvez mais uma riqueza de outra ordem – em todo o caso, o senhor que parecia um dandy e tinha uma invejável bengala com cabeça de cavalo lançou-se num monólogo sobre, tsc tsc, vocês confiam a vossa sorte a um Deus que mandou espetar pregos nas mãos do próprio filho. Que acham que irá fazer convosco, que não lhe são nada?, atirando-nos com o seu cartão de negócios no final. Suspicious, my dear sir, suspicious.

A personagem que menos tempo esteve em palco, mas talvez aquela que arrancou mais risos de Eu não acredito nisto, é preciso ser-se muito estúpido para… foi o médico. A falar com o Armando Silva, aquele tal primeiro que pelos visto estava em medicação quando nos falou, daquelas com efeitos secundários a dar com um pau e que nos deixam a ponderar permanecer doentes, tal a força do “venha o Diabo e escolha.” A única razão pelo qual permaneço descansadinha em relação às minhas futuras idas ao Hospital é a convicção de que se fossem muito frequentes estes casos, metade da população já estaria morta, em vez de nas ruas a protestar contra a austeridade.

Dentro do mesmo assunto, ainda que de forma consideravelmente geral, caramba, é muito mau sinal quando já não nos admiramos de ver um músico (de rock?) evidentemente drogado/chapado/já de neurónios lixados/make your choice a perder-se num “porquê que não devem usar drogas” – e a falhar redondamente; diz que usar a maioria das palavras para contas histórias de como se diverte com as ganzas e de como as melhores músicas que alguma vez fez implicaram aspirar pó branco pelo nariz não ajuda à mensagem. Oh, e os índios. É preciso ajudar os índios da Amazónia: os pobres coitados não têm ipads e isso assim não pode ser.

E do tipo famoso, passa-se para o tipo-com-a-mania-que-é-bom-e-agindo-com-a-arrogância-correspondente que não sabia se haveria de chamar a atenção do seu interlocutor – o próprio Diogo Infante, imagina-se, além de nossas excelências, suponho – se para a bichice dos gestos (nãovoumencionarquemmefezlembrar), se para o parla piede “ai, não tens tempo para ver a minha peça de segunda categoria que é de primeira? Deves-te achar bom, deves… Sem um agente não eras nada, sem ninguém a ajudar não és nada, ai esse é o contacto do teu agente? Ai tão bom, ai sempre gostei de ti, anda ver a minha peça, ai tens de ir embora? Pois eu também tenho compromissos e estou aqui a dar-te o meu tempo, deves-te achar muito importante, deves…” (tambéaquinãovoumencionarquemmefezlembrar).

Ora a sinopse que escarrapachei ali em cima fala de oito personagens, e eu já vou para a última fazendo apenas sete… Well, ou aquilo contou quando só tivemos uma “voz” ou eu me esqueci de alguma… Conhecendo-me, esqueci-me e só me recordarei cerca de três minutos depois de actualizar o blog, portanto, bola para a frente! A última personagem aparece a falar-nos de camisa com alguns botões por apertar, a fazer ainda a gravata e em tudo a demonstrar ser um homem comum, do dia-a-dia, alguém que poderia estar muito bem sentado no lugar ao nosso lado a assistir ao espectáculo. É com ele que se apreende o porquê do título da peça – e é graças também a ele que eu não voltarei a comer pêssegos em calda do mesmo modo.

A peça é uma crítica, no sentido subtil de nos expor a personagens e situações que nos obrigam a pensar, a preocuparmo-nos e a formular juízos – fazendo-o entretendo e divertindo. O Diogo Infante, por sua vez, demonstrou uma grande capacidade de caracterização e representação. Numa altura em que uma grande parte da nova geração de actores e actrizes parece considerar o seu trabalho como decorar um texto e debitá-lo em frente à câmara, não me canso de elogiar e chamar atenção para aqueles que efectivamente dão valor ao ofício. A essência de cada uma das personagens foi muito bem apanhada e partilhada com a plateia – personagens que, como puderam ler, se diversificam muito entre si –, existindo uma actuação não apenas no próprio texto – e a capacidade de fazer as inflexões adequadas a cada uma das personagens já seria uma mais-valia por si só –, mas também a nível de expressão corporal: o modo de estar, de se movimentar, as expressões faciais, os gestos com as mãos, a posição dos braços, e afins. Ademais, com exclusão do mencionado poster em cartão do Armando Silva a acompanhar o mesmo, uma cadeira e um cabide com algumas peças de vestuário, nada mais existia no palco a fazer a ambientação. O espaço que envolvia cada uma das personagens foi conseguido com sucesso pela força da sugestão, interligando-se sons com os gestos do actor.

Definitivamente é uma peça que recomendo, muito bem conseguida e com uma excelente actuação. Num extra que os teatros pequenos de cidades pequenas têm as suas vantagens, nhanhanha, tive oportunidade de pedir autógrafo, fotografia e falar pouco, ok, mas só porque não fiquei até mais tarde com o Diogo Infante, que além de bom profissional, também é uma pessoa extremamente simpática, perfeitamente capaz de lidar com o público, vulgo, esta parte mais sociável da sua profissão.