“O Meu Irmão”, Afonso Reis Cabral

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CABRAL, Afonso Reis – O Meu Irmão, Alfragide, Leya, 2014

Sinopse: Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana.

Numa casa de família, situada numa aldeia isolada no interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.

 

Opinião: Através de um narrador homodiegético e pouco confiável, o leitor é apresentado a um enredo que acompanha bastante a tendência da literatura portuguesa actual. O tempo narrativo alterna a cada capítulo entre o passado dos irmãos (desde a infância até ao evento, já em adultos, que se torna no clímax), e o presente isolado e dado à introspecção, numa aldeia despovoada no interior de Portugal. Não é uma história que se valha por reviravoltas ou acções/consequências inesperadas, sendo que até o “estranho episódio” do clímax mencionado na sinopse se torna adivinhável em determinado ponto.

O estilo narrativo parece experimental, um testar de águas. Ajudando à ideia de uma escrita interligada com a consciência do narrador, a diferente formatação leva a que determinados trechos sejam visualizados como apartes necessários, mas secundários – similares aos pensamentos paralelos que frequentemente temos. Não sendo um estilo fenomenal, parece cumprir aquilo a que se propõe, sendo no mínimo curioso.

O que de mais positivamente se destaca no romance são as personagens. A superficialidade ou complexidade com que são apresentadas ao leitor varia conforme a importância que lhes é dada pelo narrador. Assim, enquanto as irmãs têm uma presença praticamente rasa, os vizinhos na aldeia já são representados em maiores detalhes – ainda que presos às opiniões do narrador, cabendo ao leitor as deduções nas entrelinhas. Já Miguel e o narrador têm uma muito maior riqueza na respectiva caracterização, conseguida essencialmente de forma indirecta. É esta profundidade que permite a compreensão das motivações e reacções de cada um: ainda que não a sua aceitação; não me consigo impedir o pouco profissional comentário de expressar quão otário considerei o protagonista, logo nos inícios da leitura. O final veio comprovar que de facto o era, e ainda mais, mas fica no ar a indicação de que o círculo fecha e pouco se altera.

“O Ano da Dançarina”, Carla M. Soares

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SOARES, Carla M. – O Ano da Dançarina, Lisboa, Marcador, 2017

Sinopse: No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.

No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.

Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.

Opinião: Mais uma vez, Carla Soares consegue entregar um romance que entretém ao mesmo tempo que contextualiza o leitor numa época história portuguesa: no caso, o ano em que a “espanhola” visitou um país já muito afectado pela guerra e pelas quezílias políticas. Como indicado na sinopse, Nicolau é o protagonista e a personagem que maioritariamente é apresentada no fio condutor do enredo. Não deixa, contudo, de ser um romance de família, sendo as venturas e desventuras do núcleo familiar – e daqueles que lhes são próximos – também de grande peso na narrativa e seu desenvolvimento.

São várias as personagens utilizadas – todas com diferentes graus de importância e desenvolvimento –, tornando-se distintas pelos traços que as caracterizam e que desde cedo são indicados à compreensão do leitor, quer por caracterização directa quer indirecta. Considerei apenas que algumas falham em termos de “ribalta”, ou seja, não se encontram mal construídas, mas as suas aparições são parcas e usualmente centradas nas reacções que têm aos eventos protagonizados por outras personagens, o que levou à sensação de se tornarem mais um acessório às restantes personagens, que personagens per si.

Um factor que se me destacou foi a condução do enredo e o desenvolvimento temporal. Por um lado, cada ponto de viragem vem como consequência de actos e decisões anteriores, que foram crescendo para aquele momento, sedimentando-o: reviravoltas caídas do céu não têm aqui lugar. Por outro lado, temos o desenvolvimento de Nicolau, à medida que o vemos a lidar com o trauma pós-guerra, algo que foi bem além das mazelas físicas. Todos os percursos das personagens, onde sem dúvida se destaca o de Nicolau, são encaminhados sem a lentidão que os tornaria morosos ao leitor, nem a rapidez que os tornaria artificiais.

Outro ponto a destacar é o título: levou-me a pensar que seria sobre uma personagem (caracterizada por todos os clichés que associamos a “dançarina”), quando na verdade engloba muito mais e reflecte maior profundidade. Parece apenas um detalhe a acrescentar aqui, mas sem dúvida encaixa-se perfeitamente à obra.

Em geral, um romance histórico que merece destaque numa altura em que os romances históricos parecem encontrar-se em boa ventura no panorama editorial português.

“Singularidades de uma Rapariga Loira”, Eça de Queirós

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QUEIRÓS, Eça de – Singularidades de uma Rapariga Loira, [s.l.], Projecto Adamastor, 2013

Sinopse: “Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: «O que não contas à tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem.» Mas ele teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fora casar a Vila Real. Vi-o chorar, àquele velho de quase sessenta anos. Talvez a história seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sensível, pareceu-me terrível — mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa…

Começou pois por me dizer que o seu caso era simples — e que se chamava Macário.”

Opinião: Logo no seu início a narrativa declara tratar-se de uma história simples e, de facto, assim é. Através de um narrador homodiegético é apresentada ao leitor a história de como Macário se apaixonou, labutou por esse amor, e acabou por se decepcionar com a noiva. A falha da “rapariga loira” é desde os inícios do conto evidente para o leitor – e provavelmente também para o tio de Macário –, o que leva a que o final seja previsível e esperado. Aliás, atendendo às circunstâncias nas quais o narrador vem a saber da história dificilmente teria sido intenção do autor surpreender com o final.

Não faltam dois dos pontos mais reconhecidos do autor: A narrativa mantém o humor irónico de Eça, e nos detalhes realistas encontramos a caracterização de uma época.

Uma leitura rápida e simples sobre um “acidente singular da vida amorosa” que francamente só ocorreu por não existir maior cegueira do que a daquele que não quer ver.

Esta versão é a disponibilizada pelo Projecto Adamastor no seguinte link: http://projectoadamastor.org/singularidades-de-uma-rapariga-loura-eca-de-queiros/

“A Rainha Perfeitíssima”, Paula Veiga

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VEIGA, Paula – A Rainha Perfeitíssima, São Pedro do Estoril, Saída de Emergência, 2017

Sinopse: Em 1458 nasceu uma formosa infanta a quem chamaram Leonor. Destinada a ser rainha, a jovem cresceu e transformou-se na mais notável monarca que reinou em Portugal. Mas se a sua vida é uma inspiração, também foi um rosário de tragédias. Casou com o primo, D. João II, mas o casamento não foi feliz. O Príncipe Perfeito passou o reinado em conflito com a nobreza que o tentou assassinar. A alegria por ver o marido sobreviver foi destroçada quando o seu próprio irmão é acusado de traição e morre às mãos do rei.

Mas a maior tragédia da sua vida chega quando o filho morre de forma suspeita. Acidente ou atentado? Na terrível dor de uma mãe que perde o filho, Leonor nem teve o apoio que esperava do rei: D. João II estava mais preocupado em colocar no trono o filho bastardo que tivera com outra mulher.

Opinião: Na sua maioria apagadas na nossa História – por vários motivos –, há sempre curiosidade em ler e conhecer mais sobre as mulheres que fizeram parte do percurso de Portugal enquanto nação. Romances históricos sempre se me afiguraram como um modo de o fazer de forma aprazível e mais ou menos fidedigna. Esta obra, contudo, não se me afigura como um romance histórico. A parte “histórica” encontra-se presente, com as várias indicações referentes às personagens e eventos transmitidos ao leitor e apoiados pela bibliografia. A parte do “romance”, contudo, falha em grande escala:

Apesar de ser Leonor a figura a quem o título e sinopse dão maior relevo, durante a narrativa a personagem é passiva, pouco desenvolvida e superficial, ficando ainda ofuscada pelos monarcas (quatro) que Leonor viu reinarem durante a sua vida. Quando reage fá-lo através de diálogos artificiais – artificialidade essa que se encontra presente em praticamente todos os diálogos da obra – ou de uma narração em primeira pessoa que, assim como as partes de narrativa em terceira pessoa, se centra na infodump, provocando um desequilíbrio entre o show e o tell demasiado favorável a este último. Trata-se de uma narrativa que teria proveito de um maior desenvolvimento: permitiria um doseamento mais equilibrado da informação fornecida, ao mesmo tempo que poderia focar mais na demonstração dos sentimentos das personagens através da descrição das suas reacções, ao invés de nos dizer essa informação. Esse desenvolvimento da narrativa provavelmente acarretaria o desenvolvimento das personagens, apresentando-as com uma construção mais sólida, humana e credível.

Em relação à escrita em si apresenta algumas inconsistências, como uma personagem masculina a dizer “obrigada” em vez de “obrigado”, o “porque” interrogativo ora com a grafia “porque” ora com a “por que” (ambas aceitáveis, mas desaconselhado o seu uso alternado no mesmo texto), e em relação às vírgulas. Tratam-se, contudo, de detalhes que pertencem mais à responsabilidade da revisão.

Já a escolha da autora da época abordada é de louvar. É, de facto, um dos períodos mais interessantes da História de Portugal, e, apesar de já ter conhecimento de muitos dos eventos abordados – quer pelas já idas aulas de História, quer pelo romance D. Beatriz (inserir hiperligação), centrado na mãe de D. Leonor –, há sempre algum novo detalhe que surpreende, ou algo curioso que tinha sido esquecido.

Fornada de Contos IX [Fantasy&Co]

“Livre”, Pedro Pereira – O autor volta a partir das personagens e do worldbuilding já abordados em vários dos seus contos anteriores, tornando-o em mais uma peça do puzzle geral. Narrado em primeira pessoa, o foco encontra-se em Leviatã, descrevendo o seu acordar e as primeiras acções que se seguirem. Tratou-se de uma narrativa demasiado factual, centrada em narrar os acontecimentos, mas esquecendo de transmitir ao leitor o elemento sentimental ou até mesmo manter um maior equilíbrio entre descrição directa e indirecta. Ademais, a narração em primeira pessoa implica que haja um afunilamento à visão da pessoa, expressa não apenas no transmitir das suas opiniões, mas também na linguagem e modo como pensa e se descreve – ter alguém a descrever as próprias acções com “o meu longo cabelo”, por exemplo, confere um elemento de artificialidade à narração.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638253

“O Industrioso SL4V3”, Ricardo Dias – A comédia presente no modo narrativo entrelaça-se bem no assunto mais sério que o leitor consegue depreender das entrelinhas (ainda que o próprio protagonista não o consiga). A história encontra-se bem estruturada, com um bom pacing e um final que responde no tempo certo às questões que vamos levantando durante a leitura. Ademais, destaca-se por detalhes como do nome de SL4V3 ou da nave, Vasco da Gama.

Contos disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638255

“O Mineiro”, Pedro Cipriano – Um desabamento leva ao encarceramento de um grupo de mineiros. O conto não desenvolve muito o wordbuilding ou o carácter de fantasia, deixando apenas algumas indicações que possam levar à dedução do leitor. Centra-se essencialmente nas descrições do acontecimento e na tensão – controlada, mas sentida – que o dito cria no grupo. Destaca-se pelo sucesso na ambientação, tendo esta sido bem conseguida, e sendo muito fácil visualizar o que é narrado.

Contos disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638257

“Os Historiadores”, Ricardo Dias – Um conto de Natal dentro da Ficção Científica, onde o radicalismo, emoldurado no tema “viagem no tempo”, acaba por se tornar o foco. Tudo na narração cresce para o final, no qual se verifica uma passagem bem conseguida entre o “ambiente” de FC para o mais “histórico”, através dos reis magos.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638258

“O Ídolo”, Pedro Pereira – Uma pitada de fantasia junta-se ao tema dos templários numa narrativa que se assemelha mais ao prólogo de algo maior do que a um conto per si. O enredo, simples, vai crescendo até ao final, deixado em aberto. Não traz muito de novo ao género.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638254

“No Carnaval Ninguém Leva a Mal”, Carina Portugal – Um enredo simples, mas bem desenvolvido, com uma narrativa capaz de cativar o leitor. Gostei em particular das personagens – umas novas, outras já conhecidas de outros contos – e dos detalhes que as individualizam. A ironia do título também não passa despercebida, logo nos inícios do conto.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/635549

“Raktabija”, Carina Portugal – Inspirado na – e desenvolvendo a – mitologia indiana, o conto foca-se na deusa Kali e na sua destruição dos demónios asuma. Como é comum em mitologias o que se reduz com esta simplicidade tem bastante mais complexidade por trás. A estrutura segue um crescendo contínuo, desde a introdução e ambientalização até à conclusão final. Que os actos caracterizadores da maldade dos asuma fossem essencialmente abusos e violações, na sua maioria contra mulheres, foi algo que não passou despercebido.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638263

“Protetização Total”, Ricardo Dias – Um conto curto e de fácil leitura centrado na recuperação de um indivíduo, após um acidente do qual não se recorda. A narração em primeira pessoa leva a que o leitor vá acompanhando o processo de descoberta mais ou menos ao mesmo tempo que o protagonista – embora a compreensão da reviravolta final chegue primeiro à compreensão do leitor.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638262

“Arraia”, Pedro Cipriano – Nesta curta narração o autor volta a adicionar mais um detalhe a um worldbuilding que tem vindo a utilizar (e a dar a conhecer por contos) faz já alguns anos. Para quem já leu os contos anteriores é fácil de compreender o ambiente histórico-social envolvente, mas o mesmo não pode ser dito para quem terá este conto como primeiro contacto com o worldbuilding em questão. Narrado em primeira pessoa, prende-se, naturalmente, à percepção do narrador e protagonista. O equilíbrio entre a exposição e a descrição falha um pouco em detrimento da descrição, com excepção da parte final. Aliás a descrição final, descrevendo um X que significa Y, é o melhor do conto.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/638249

“A Sentinela”, Pedro Cipriano – Um conto anterior do mesmo autor narra sobre um viajante que segue de povoação em povoação avisando as gentes sobre a ameaça que os espera, da qual a única salvação é a protecção da muralha. Embora as personagens e o “tom” do conto sejam diferentes, este é, de certo modo, uma continuação. Narrado na terceira pessoa, foca-se numa batalha, descrita com foco na perspectiva de um jovem sentinela. Tal como o conto que o antecedeu, falha em esclarecer pontos fulcrais no enredo relativamente à ameaça: quem são, quais os seus motivos. Num geral, trata-se menos de um conto com princípio, meio e fim, e mais de um detalhe de algo maior.

Conto disponível gratuitamente em: https://www.smashwords.com/books/view/671239

“Não Faz Sentido – Por Trás da Câmera”, Felipe Neto

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NETO, Felipe – Não Faz Sentido – Por Trás da Câmera, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2013

Sinopse: Criado por Felipe Neto em 2010 sem maiores pretensões, o Não Faz Sentido tornou-se um fenômeno da internet brasileira e o primeiro canal de vídeos em língua portuguesa a ultrapassar a marca de 1 milhão de inscritos.

Confundido muitas vezes com seu personagem reclamão, Felipe Neto expõe nesta obra sua outra face, sem óculos escuros, muito diferente da que se vê em seus vídeos mais famosos.

Do garoto que se levantou da falência para a exposição meteórica (que o acabou levando à depressão); dos bastidores envolvendo o vídeo contra a série Crepúsculo ao desentendimento com celebridades; acompanhamos, com muita sinceridade, uma história de sucesso por trás dos panos.

Você conhece o Não Faz Sentido. Agora vai conhecer a história, através de uma linguagem bem-humorada e sem nunca se levar muito a sério, pela lente de quem está por trás da câmera. E comprovar que, apesar do nome, este livro nos apresenta a história de um projeto cujo sucesso possuiu não apenas toda lógica, como também todos os motivos para se comunicar com uma geração altamente conectada, disposta a revolucionar a maneira como lidaremos com a produção e o conteúdo do entretenimento mundial.

Opinião: Na curiosidade de ler os tão famosos livros de youtubers não podia ficar de fora um dos poucos youtubers brasileiros que cheguei a “seguir” com “mais ou menos” regularidade. Tratou-se de uma leitura fácil e descontraída, fruto da forma informal da narrativa, próxima a uma conversa de café. Logo no início o autor afirma não se tratar de uma biografia, entendendo não ter feito ainda nada que valha uma biografia: com excepção da parte final, cumpre essa indicação, focando-se de facto mais na história do canal que na sua vida pessoal – ainda que os pareceres e visões sejam, inegável e indubitavelmente as de Felipe Neto, ou não fosse ele o autor.

Apresenta algumas falhas ao nível da estrutura. Além de dois capítulos que se pretendem interlúdios cómicos, mas que não só não o são como em nada acrescentam ao conjunto da obra, o início é caótico, disperso e sem foco: começa um assunto, interrompe para falar de outro, interrompe novamente para falar sobre outro… Escreve o que vem à cabeça conforme se lembra, o que não resulta bem. A mudança de registo encontra-se bem vincada quando Felipe começa realmente a narrar a história do canal. O caos narrativo cede lugar a uma linha cronológica, onde os acontecimentos mais marcantes da história (e formato) do canal são partilhados, junto com o processo de pensamentos e decisões que levaram aos ditos, os resultados que daí se obtiveram, e a atribuição de crédito de algumas das frases mais conhecidas dos vídeos, quando tal se justificou. No final de cada capítulo inclui-se o acesso aos vídeos mencionados no capítulo em questão, o que simultaneamente auxilia o leitor desconhecedor da temática, e aumenta as visualizações do canal.

Em relação às posições e opiniões expressas são várias aquelas com que discordo, inclusive algumas chego a considerar desrespeitosas (e desnecessárias) para com determinados grupos. Há, contudo, a noção de que o livro é de 2013. Acompanhando vez ou outra os vídeos de Felipe Neto é possível percepcionar uma mudança de mentalidade e atitude em mais do que uma questão, existindo a probabilidade de muito do aqui escrito serem opiniões datadas e já alteradas: o processo de crescimento é, afinal, contínuo.

Como já referido, na sua parte final a narrativa foge um pouco da história do Não Faz Sentido para entrar na do autor: mantendo-se, todavia, no âmbito do Youtube, através das campanhas publicitárias, passos empresariais e projectos como o Parafernalha. Acabou por se tornar a parte do livro que mais “novidades” me trouxe, visto que realmente não tinha noção do factor empresarial que actualmente se encontra nos canais de Youtube.

Não Faz Sentido é, portanto, uma leitura simples que, contrariamente a Muito Mais que 5inco Minutos, o único outro livro de youtuber que li até ao momento, parece dirigir-se a um público mais amplo do que aqueles que já são fãs do canal. Além de perceptível para o público em geral, desenvolve também mais do que se pode encontrar no Youtube, trazendo efectivamente material novo, ainda que balizado pela percepção do autor.

“Uma Mulher Respeitável”, Célia Correia Loureiro

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LOUREIRO, Célia Correia – Uma Mulher Respeitável, Barcarena, Marcador, 2016

Sinopse: 1831 – Pouco depois de se casar, a sorte do conde de Cerveira sofre um revés. Uma série de infortúnios deixam-no à beira da ruína financeira, e não demora muito para que comece a desconfiar dos intentos da estranha de beleza intrigante que desposou. Perante a dúvida, decide enviar Leonor Sanches para um exílio temporário junto do tio, que ensina no prestigiado Trinity College, em Dublim. Conforme a epidemia de cólera vai ceifando as vidas de cristãos e anglicanos na Irlanda, também o coração de Leonor Sanches se oferece à tragédia.
1857 – Cinquenta anos depois de perder o seu bem mais precioso para as tropas de Napoleão, Mariana Turner sente que está a um passo de descobrir toda a verdade sobre os acontecimentos de Março de 1809. Novas revelações apontam para que a condessa de Cerveira, encarcerada no Porto, seja a chave para resolver o mistério. Munida de uma determinação inabalável, tudo fará para conseguir deslindar o passado de Leonor Sanches – fidalga e anjo caído.

Opinião: O romance pode ser lido e compreendido de modo independente. Julgo, contudo, que causa maior impacto a quem já leu o antecessor, A Filha do Barão, não apenas por tal fornecer um maior conhecimento sobre personagens que aqui se tornam secundárias, mas também porque a questão deixada em aberto no referido romance se torna, em Uma Mulher Respeitável, no motor de todo o enredo. Tudo gira, de facto, em torno da identidade de uma mulher, explorando as consequências e ramificações das escolhas que fez e das escolhas que outros fizeram – deixando sempre discernir as alterações e oportunidades que poderia ter tido caso alguma dessas escolhas tivesse sido outra.

Como a sinopse já deixa antever, o enredo vai-se desenrolando ao longo de vários contextos temporais. Tal é feito, contudo, não de um modo linear, mas com várias “idas e vindas”, sendo a história construída como que um puzzle, peça a peça, em capítulos curtos. Contrariamente ao que se poderia supor, não considerei tal estrutura confusa: tendo em mente a identidade de Evelyn/Maria/Leonor, e beneficiando da indicação do ano, torna-se bastante fácil ao leitor situar-se no tempo da história. Estes dois pontos são fulcrais para que haja a referida facilidade. Ainda em termos narrativos, mas em relação a uma outra faceta, é de notar a linguagem cuidada da escrita, feita a equilibrar uma aproximação à época com a compreensão dos dias de hoje.

Assim como se denotou no volume anterior, é possível compreender a pesquisa por detrás do processo de escrita. Desde a caracterização a pequenas referências, o “trabalho de campo” da autora encontra-se visível a quem souber olhar, sem no entanto se tornar maçudo.

Outro ponto que também se tem vindo a transpor de uma obra para a outra refere-se às personagens. Desde o primeiro livro da autora que a construção e caracterização das personagens se me tem destacado pela positiva: este não foi diferente. Atributos e defeitos, humores consoante o momento e estado de espírito, diferentes visões da mesma persona consoante quem olha, tudo isto está presente, humanizando o que de outro modo seria apenas um nome num papel. Personagens houve que me desiludiram pelas suas atitudes: do mesmo modo que pessoas são capazes de desiludir. Compreensível? Sim. Mas nem sempre se concorda com o que se compreende e foi isso o que aqui encontrei.

Por fim, e novamente em relação ao enredo, falta-me falar das reviravoltas. À semelhança do livro anterior, os plot twists não estão feitos para serem compreendidos apenas no preciso momento em que acontecem. Havê-los há, contudo, não deixei de notar as indicações – umas mais discretas que outras – que vão sendo dadas antes das revelações. Por outras palavras, é dada ao leitor a oportunidade de adivinhar o que irá acontecer, ainda que tais descobertas sejam feitas aos poucos, ou não houvesse a necessidade de manter o interesse na leitura.