“Elfanos: O Legado”, Dud@

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Dud@ – Elfanos: O Legado, [s.l.], Capital Books, 2016

 

Sinopse: Joana pensa que tem uma vida normal. Até que um estranho homem aparece e desestabiliza tudo. De repente, aquilo que pensava saber sobre os seus pais não condiz com a verdade. Nem aquilo que pensava saber sobre os seus amigos mais íntimos…

Obrigada a escolher entre o seu mundo, a família mais próxima e os amigos, ou acompanhar Marcus para um lugar desconhecido e mágico, Joana vê-se numa encruzilhada que mudará definitivamente a sua vida e daqueles que a rodeiam.

Bem-vindo às Terras Brancas, no Reino de Elfanos, no Mundo Antigo.

 

Opinião: Este livro é um embrião. Trata-se mais de um primeiro rascunho que de uma obra final, pronta para o mercado. O enredo pode resumir-se ao facto de Joana descobrir ser um elfo – a herdeira do trono dos elfos, em boa verdade –, decidir regressar à sua terra de origem, com os amigos a reboque (porque cinco adolescentes podem fazer o que lhes der na telha, e as justificações apresentadas não tiveram força suficiente para suspender a crença), e descobrir que o avô tem sido um tirano racista e xenófobo. Durante a viagem de Joana e os amigos há pequenos conflitos a procurar dar um pouco de acção, mas não só muitos dos episódios ou parecem surgir de lado nenhum, ou em nada contribuem para o enredo, também há uma falta de um conflito maior. A isto não contribui o pacing, extremamente desorganizado: chega-se ao ponto de parecer nunca se sair da introdução.

No que toca às personagens, carecem de substância e desenvolvimento. São mais ideias que personagens per si, sendo muito do que são ou sentem dito ao invés de demonstrado. As relações entre si brotam sem qualquer sequência ou desenvolvimento. Os diálogos são repetitivos e infantis. Torna-se difícil acreditar na sua existência, e por conseguinte sentir qualquer tipo de empatia ou compreensão.

Em relação à ideia em geral considerei ter alguns tópicos interessantes de se abordar – violência doméstica, relações inter-classes, respeito inter-etnias –, que poderiam ter sido um bom foco. No entanto nota-se uma falta de informação e pesquisa que se traduziram num quase despacho no modo como foram utilizadas, acabando por tornar algo que poderia ser uma mais-valia em algo irreal e superficial, usado apenas como factor de dramatismo.

Em suma, uma obra que necessita ainda de ser repensada, revista e reescrita.

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Fornada de Contos XI [Fantasy&Co]

Sensivelmente meio ano depois, mais uma fornada de contos, da autoria de Pedro Pereira, Carina Portugal, André Alves e Ricardo Dias, escritos no âmbito do projecto Fantasy&Co.

“Os Sobreviventes”, Pedro Pereira – Narrado em formato de diário, os eventos vão seguindo um crescendo a partir do acidente inicial que despoletou a transformação de um grupo de mineiros. A cada entrada é dada mais informação ao leitor, funcionando quase como um puzzle, em que cada peça permite descartar várias hipóteses, até se chegar à conclusão de qual o mito/monstro aqui retratado. Lê-se muito bem, e o formato utilizado mantém o interesse do leitor.

“O Marciano Humanista”, Ricardo Dias – Através de entradas de um diário/registo ficamos a conhecer a evolução da visão de um marciano em relação às espécies da Terra, planeta invadido. Uma narrativa que se salienta pelo paralelismo com o colonialismo e infelizmente também com a actualidade.

“A Florista”, Carina Portugal – Contém uma boa ambientação e descrições funcionais, onde se torna fácil imaginar todos os cenários. O enredo toma como alicerces assassinatos, violência doméstica, e um teor de fantasia, desenvolvendo a narração em boa medida: nada está a mais, e nada ficou a menos.

“A Canção das Colheitas”, Ricardo Dias – Um poema de fantasia/horror que me fez lembrar as palavras de Neil Gaiman sobre “Coraline”: por que não escrever horror/terror para crianças? Imagino que ficaria excelente se musicado por um coro de crianças (sem sarcasmos, ironias, ou sentidos ocultos).

“Um Belo Amanhecer”, Carina Portugal – Uma sequela d’A Florista que pode ser lida de forma independente. Tanto as personagens como o enredo convergem para um só foco narrativo: o da justiça “popular” levada a cabo pelo fantasma de Cecília. Na outra face da moeda, essas mesmas personagens são também unidimensionais, e o enredo simples. Destaca-se a narrativa bem conseguida, com ênfase nas descrições.

“Instintos”, André Alves – Expõe uma sociedade onde aos vinte e um anos o ser humano é submetido a um teste que indica com que animal é compatível. De seguida, os genes desse animal são mesclados ao do humano, com efeitos diversos de pessoa para pessoa, mas geralmente sem levantar problemas, e trazendo até benefícios. A ideia tem um bom potencial, mas a prossecução ficou aquém, com uma estrutura narrativa desequilibrada e um pacing mal conseguido. Já o enredo levanta uma série de questões que não vemos respondidas: por que só os panda-vermelhos “vêem” o errado nos humanos? Por que temos uma só excepção nos panda-vermelhos nesse quesito, e qual a razão de ser uma excepção? Por que se sabe ou assume que há uma conspiração por trás, e que os administradores lhes irão fazer, quando não houve qualquer indício nesse sentido até ao momento? E o que havia, afinal, de errado para que tudo isto acontecesse? Denota-se ainda algumas falhas em relação a tempos verbais e à omissão de vírgulas no vocativo. A escrita em si, no geral, é fácil à leitura.

“A Guilhotina de 20 Cordas”, André Alves – A premissa do “matavas uma pessoa para salvar muitas mais” é utilizada como fio condutor de enredo, emoldurada pelas características de um worldbuilding de Fantasia. Nota-se a preocupação do autor em demonstrar a problemática nos seus cinzentos, mas o facto de grande parte da narrativa se basear apenas em tell, e existir um ponto de vista predominante, tornou estes esforços mal sucedidos. Do mesmo sofrem as personagens, as quais são personagens-tipo, presentes apenas para representação de uma ideia e, por conseguinte, unidimensionais. Por fim, em relação à escrita, ficou aquém de onde poderia estar, com repetições vocabulares a empobrecer o texto e a causar cacofonia da leitura, e falhas de pontuação como a ausência de vírgulas nos vocativos, por exemplo, ou o uso de hífens em vez de travessões quando os diálogos. Destaca-se positivamente a concepção da Guilhotina de 20 Cordas e seu funcionamento, providenciando também um título apelativo ao conto.

Todos os contos podem ser lidos gratuitamente aqui.

 

Top5 – Leituras 2017

Decidi fazer o que todos os anos já outros fazem, mas que para mim é novo: um top5 de leituras do ano (kudos para todos os que já o haviam percebido pelo título, que atentos). Trata-se de uma lista baseada única e exclusivamente em gosto pessoal, e que abarca todas as leituras feitas durante o ano, não apenas as que foram agraciadas com uma resenha no blog. Nenhum dos livros virá com crítica a acompanhar, apenas uma rápida opinião e a respectiva sinopse – tanto título quanto sinopse serão aqui colocado em conformidade com o idioma em que foram lidos, pois ou detestei de morte as traduções dadas em português, ou simplesmente não as há, e democraticamente pareceu-me a decisão mais correcta. Avancemos:

 

“Simon vs The Homo Sapiens Agenda”, Becky Albertalli

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Livros narrados na primeira pessoa não costumam cair-me no goto, mas quando há excepções, é para serem uma senhora de uma excepção. Facilmente o livro que mais gostei este ano, em torno do crescimento da personagem, receosa de mudanças, e em particular de ser perpectivada pelos outros de modo diferente.

Sinopse: “Sixteen-year-old and not-so-openly gay Simon Spier prefers to save his drama for the school musical. But when an email falls into the wrong hands, his secret is at risk of being thrust into the spotlight. Now Simon is actually being blackmailed: if he doesn’t play wingman for class clown Martin, his sexual identity will become everyone’s business. Worse, the privacy of Blue, the pen name of the boy he’s been emailing, will be compromised.

With some messy dynamics emerging in his once tight-knit group of friends, and his email correspondence with Blue growing more flirtatious every day, Simon’s junior year has suddenly gotten all kinds of complicated. Now, change-averse Simon has to find a way to step out of his comfort zone before he’s pushed out—without alienating his friends, compromising himself, or fumbling a shot at happiness with the most confusing, adorable guy he’s never met.”

 

“A Rainha Subjugada”, Philipa Gregory

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Tendo lido vários livros da autora, é realmente com os romances em torno dos Tudor que ela se destaca. Catarina Parr, a última das rainhas de Henrique VIII, é aqui a protagonista e narradora, tendo a sua personagem uma construção muito bem conseguida (baseada no pouco que nos chega), e capaz de criar empatia com o leitor. Ademais, a escrita de Gregory consegue um equilíbrio entre as descrições do espaço envolvente, e as introspecções das personagens, criando uma leitura agradável, onde mal se percebe o tempo passar.

Sinopse: “Intriga, ambição, poder, amor e história, com uma pesquisa rigorosa e contada de forma soberba sobre Catarina Parr. A última e sexta mulher sobrevivente de Henrique VIII. Uma mulher forte, intelectual, culta e de uma beleza cativadora.”

 

“O Covil Dos Lobos” (Blackthorn e Grimm #3), Juliet Marillier


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O livro que encerra uma trilogia que honestamente achei que seria uma saga. Não é o melhor de Marillier, mas tem os elementos que tornam único o seu trabalho: personagens marcantes, com relações bem construídas, um enredo cativante e engendrado, e um worldbuilding em que o real e a fantasia se entrelaçam. Ademais o “não é o melhor de” é o “melhor que” muitos outros bons autores conseguem.

Sinopse: “Blackthorn conhece bem as regras: não procurar vingança, ajudar qualquer pessoa que pedir e praticar apenas o bem. Mas depois da provação recente que ela e Grim sofreram sabe que tem de encontrar o homem que lhe arruinou a vida.”

 

“O Assassino do Bobo” (O Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

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Alienada como andei este ano, foi uma surpresa entrar na livraria e descobrir que a saga mais recente de Hobb já estava a ser trabalha em Portugal. Para quem desconhece a saga, não é um bom começo. O livro é lento, sendo praticamente uma introdução. Para quem já é fã, ler sobre as personagens que conhece – plus as novas e as suas reacções às ditas – é um regresso a casa, que não se torna moroso não apenas pela nostalgia, mas essencialmente pela capacidade narrativa de Hobb, e das pequenas tramas com que vai lidando enquanto a trama maior vai tomando o seu lugar, pouco a pouco, quase como que pelo canto do olho.

Sinopse: “Tomé Texugo tem levado uma vida pacífica há anos, retirado no campo na companhia da sua amada Moli, numa vasta propriedade que lhe foi agraciada por serviços leais à coroa. Mas por detrás da sua respeitável fachada de homem de meia-idade, esconde-se um passado turbulento e de violência. Na verdade, ele é FitzCavalaria Visionário, um bastardo real, utilizador de estranhas magias e assassino. Um homem que tudo arriscou pelo seu rei, com grandes perdas pessoais. Até que, numa noite fatídica, um mensageiro chega com uma mensagem que irá transformar o seu mundo. O passado arranja sempre forma de se intrometer no presente, e os acontecimentos prodigiosos de que foi protagonista na companhia do seu grande amigo, o Bobo, vão voltar a enredá-lo. Se conseguirem, nada na sua vida ficará igual…”

 

“How the Marquis Got his Coat Back”, Neil Gaiman


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Um curto e engraçado, spinoff de “Neverwhere”, onde se descrever como conseguiu o Marquês o seu casaco de volta (para quem ainda tinha dúvidas de ser esse o enredo). Dois pontos essenciais são aqui desenvolvidos: a personagem do Marquês; e o sistema de metro de Londres. Da Outra Londres, digo.

Sinpose: “The coat. It was elegant. It was beautiful. It was so close that he could have reached out and touched it.”

And it was unquestionably his.”

“O Coro dos Defuntos”, António Tavares

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TAVARES, António – O Coro dos Defuntos, Alfragide, Leya, 2015

 

Sinopse: Um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974.

Vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos.

Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro.

E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça.

Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar…

 

Opinião: Em capítulos muitos curtos – de três ou quatro páginas – a narrativa vai seguindo, num linguajar excessivo pelo abuso de palavreado mais incomum e regionalismos, não tendo havido o cuidado num equilíbrio vocabular. Como indicado na sinopse, o enredo ambienta-se numa aldeia do interior português durante a ditadura, pegando num punhado de personagens-chaves que por um motivo ou por outro se destacam na povoação. Inicialmente o enredo desenrola-se sem que pareça ter fio de condutor. À medida que avançamos vamos discernindo a linha de enredo, que contudo se mantém demasiado leve.

Não foi uma leitura que me tenha agradado por aí além. A premissa seria interessante – dentro do esperado num prémio Leya – e as personagens têm potencial para se tornarem únicas. Tanto a narrativa quanto o enredo, contudo, são erráticos, e apenas ao fim de algum tempo é que se depreende uma espécie de continuidade. Esse factor, aliado ao estilo de escrita, levou a que tenha considerado a leitura abaixo das expectativas, e aquém do título, um dos melhores que já considerei.

“Uma Outra Voz”, Gabriela Ruivo Trindade

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TRINDADE, Gabriela Ruivo – Uma Outra Voz, Alfragide, Leya, 2013

 

Sinopse: Cinco vozes, uma história de família que se cruza com um século de História de Portugal.

João José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.

Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.

 

Opinião: Ao início da narrativa fica o leitor com a impressão de que irá acompanhar vários elementos, e gerações, de uma família. À medida que a leitura avança, contudo, chega a compreensão de que todas as vozes, todos os focos narrativos, ainda que dando a conhecer um pouco da sua personagem-núcleo são perspectivas que se aglutinam na caracterização (e descoberta) de uma só personagem: a última a ter a sua voz, mas que nunca deixa de se encontrar omnipresente. No final, todas os episódios e histórias acabam por ser elementos que dão a conhecer a sua.

A linha temporal não é contínua, apresentando avanços e recuos. Numa primeira fase cada “voz”, além da história mais pessoal que dá a conhecer, contém também um evento familiar marcante – um casamento ou um funeral, por exemplo – “reminiscente” e outro do seu “presente”. A “voz” seguinte pega no “presente” anterior como seu “reminiscente”, e apresenta um “presente”, gerando assim um ciclo que auxilia o leitor a situar-se no espaço temporal, até que o seu conhecimento sobre as personagens e respectivas histórias seja o bastante para não necessitar desta bengala, que prontamente desaparece.

Trata-se de uma narrativa que prende, com uma estrutura interessante, da qual apenas julguei desnecessária ao enredo a “voz” do jovem inserido na Revolução, visto parecer uma peça extra num puzzle onde não se encaixa.

“Como Não Morrer de Fome em Portugal”, Lucy Pepper

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PEPPER, Lucy – Como Não Morrer de Fome em Portugal, Lisboa, Objectiva, 2016

Sinopse: Um retrato cómico de Portugal sob o olhar atento e sátiro de uma inglesa. Lucy Pepper é acutilante, divertida e certeira na capacidade que tem para nos descrever, sem nunca denegrir, apontando sempre os nossos pontos fortes e o nosso enorme capital para melhorar enquanto povo e país.

 

Opinião: Utilizando a gastronomia portuguesa como fio condutor, Lucy Pepper dá-nos um conjunto de histórias e peripécias que tem vivenciado na sua vida em Portugal, e que só mesmo o cultural clash lhes poderia retirar o carácter rotineiro que já têm aos olhos de um português. Desde a família, aos vizinhos, aos comportamentos, ao clima, ao modo de vivenciar as festas, nada escapou. E, claro, sempre com uma comidita pelo meio. O que o livro faz, no fundo, é reunir características comuns à maioria dos portugueses, sendo que por “comuns” não se pretende “a todos”. Apanhei-me a acenar a cabeça numa concordância indignada em relação ao facto de as casas se tornarem geladas durante o Inverno, quando tal não acontece em outros países bem mais frios. Dei graças por não me encontrar sozinha na minha opinião em relação à tirania da sopa, e discordei sobre a bola de Berlim na praia não ser das coisas mais apetecidas de sempre. Tive várias reacções, mas todas elas tiveram algo em comum: ri-me, que é afinal um dos principais propósitos deste livro.

A escrita é despretensiosa e a narrativa leve, em consistência com o propósito do livro. Falharam algumas gralhas e pontuação, que caiem mais no âmbito da revisão que da escrita. Trata-se de uma leitura fácil e divertida, particularmente boa para o final de um dia cansativo.

“O Teu Rosto Será o Último”, João Ricardo Pedro

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PEDRO, João Ricardo  – O Teu Rosto Será o Último, Alfragide, Leya, 2012

Sinopse: Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu.

Através de episódios aparentemente autónomos – e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 –, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão políticas, pela guerra colonial.

Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias – muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras – que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar toas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?

 

Opinião: O romance é alimentado em episódios de três gerações, sendo mais constituídos por peças de uma história do que pela sua totalidade. O “episódios aparentemente autónomos” constante na sinopse indica a possibilidade de se ler cada capítulo como um conto, contudo, há continuidade e ligação entre eles, o que leva à consideração de que mais do que “autónomo”, o adjectivo que melhor se encaixa seja “errático”. Esta estrutura errática do enredo acabou por se tornar no que considerei de mais interessante no romance.

Também a escrita poderá ser considerada errática: o estilo narrativo altera-se conforme as divisões narrativas, sendo que apesar de na sua maioria os diferentes estilos não serem desagradáveis à leitura, todos trazem um déjà vu que os empobrece: o autor parece não ter um estilo próprio, optando antes por mimicar o de outros autores, e falhando na subtileza com que o que faz.

O enredo, por sua vez, tem a potencialidade de manter o interesse; explora, todavia, tópicos já muito explorados – Portugal ditatorial, interior de Portugal, drama existencial do homem, etc – não bastando, portanto, por si só. De algo similar sofrem as personagens, que não se encontrando propriamente mal construídas, pouco têm para que fiquem na memória do leitor.