“Três dicas para prender o leitor já nas primeiras páginas do seu livro”, aula por André Vianco

andré

Na passada Segunda-feira, dia 15, o autor brasileiro André Vianco utilizou as graças da Internet para dar uma pequena aula em torno de três ferramentas (dicas, na verdade) úteis para conquistar e prender leitores à obra que nos interessa: a nossa. Apesar de na descrição do evento estar “para aplicar ao primeiro parágrafo”, a verdade é que todas as ferramentas que foram faladas são necessariamente construídas ao longo de toda a obra. E, para ser honesta, também me pareceram (e parecem) mais bom senso de escritor que outra coisa.

“Para quê escrever sobre isso, então?”

Por duas razões: tentar angariar views para o blog Apesar de eu ter achado que era senso comum, pude perceber pela caixa de comentários que outros não partilhavam a mesma opinião. Mas mais do que isso: porque Vianco é bom a explicar. Além de ter uma atitude descontraída que deixa os outros à vontade, Vianco consegue explicar o que deseja com clareza e de forma directa, indo ao ponto e ainda dando exemplos que ilustram bem aquilo que quer expressar.

A aula (sim, vou continuar a chamar-lhe assim) seguiu uma estrutura tripartida. Cada ferramenta teve um “bloco”, onde se incluiu a explicação da ferramenta em questão, a elucidação de perguntas colocadas pela assistência em relação ao que acabara de ser explicado, e um pequeno vídeo que ora mostrava resenhas de livros do autor, ora filmagens em eventos literários. Não faltaram promoções em torno dos livros/cursos ministrados pelo autor, mas temo que se tenham restringido àqueles que estavam a assistir no momento.

“Ok, ok, mas o que se falou, então?”

Não me irei alongar muito sobre o conteúdo. Primeiro, porque irei deixar o link da dita aula no final do texto para aqueles que se interessarem, segundo porque, nas sábias palavras de uma ex-professora minha da faculdade, “detesto apontamentos, vocês dizem-me que eu disse isto e aquilo e que está nos vossos apontamentos, quando eu não disse nada disso, e vocês só têm aí apontado aquilo que acharam que eu disse”. Ou seja, mesmo apontando tudo, há sempre a possibilidade (grande) de fazer asneira, não é?

Mas vamos lá arriscar só um bocadinho.

A primeira ferramenta falada foi a “A Promessa”. E eu imaginei logo uma história de terror envolvendo sacrifícios satânicos, mas é algo bem mais simples: ter consciência do género em que se está a escrever, e manter o clima do dito. Se o livro é terror, tem de manter o clima de terror. Lembrei-me de imediato de um livro que li há pouco mais de um ano cujo título, capa e sinopse gritavam “romance histórico”. Um livro que durante 90% da leitura foi romance histórico. E nos últimos 10% deu uma virada e subitamente eu tinha, sem aviso, ficção-científica nas mãos. Fiquei possessa. Não porque desgoste de ficção-científica per si, mas porque tinha começado aquele livro com a promessa de romance histórico, e essa promessa foi quebrada nas suas páginas finais. Se como leitora senti quão mau é quebrar a promessa, como escritora tenho de ter cuidado para não fazer o mesmo. Nas palavras de Vianco, há que “pagar o género”: fornecer ao leitor aquilo que ele espera ao pegar num livro de determinado género.

A segunda ferramenta foi chamada de “Grau de Aproximação”. Depreendi que seria, em suma, a rede de personagens, com os diferentes graus de relações, os diferentes objectivos que tanto podem torná-las aliadas como antagonistas, os diferentes pontos de vista. Não é algo que se deixa no cantinho, no background: a história pode ser construída usando e abusando desta rede, seja para plot twists, resoluções, conexão entre personagens, determinar as acções das personagens, etc, etc.

A terceira ferramenta, o “Ticking Clock”, é aquela de que menos falarei: por motivos de saúde, não pude prestar muita atenção. Depreendi, no entanto, do que fui ouvindo que é semelhante a uma consciencialização de que existe um limite de tempo para o protagonista ou para a história. Há um final countdown que pode muito bem ser figurativo (e muitas vezes é), em cujo final o protagonista ora será massacrado ora será coroado pelas consequências dos eventos. Seguindo esta lógica, julgo que se poderá dar como exemplo deste ticking clock a procura e destruição dos horcruxes na saga “Harry Potter”.

Como já disse acima, considerei as três ferramentas bastante ligadas ao bom senso. Apesar de não as nomear, já tinha retirado boa parte do que foi explicado da minha experiência enquanto leitora. Não deixo, contudo, de considerar a aula útil. Não apenas para consolidação de conhecimentos, e pelo facto de agora ter nomes a dar “aos bois”, como por ter, realmente, apreciado a forma como André Vianco conduziu as explicações.

Deixo, então, o link da aula aos interessados:

Da arte de enviar emails

Enviar um email não é o mesmo que começar uma conversa num chat. O contexto é diferente, o objectivo é (maioritariamente) diferente, a linguagem também deveria ser diferente: especialmente quanto o email não se destina a enviar a um amigo aqueles apontamentos bestiais que arranjamos daquela disciplina do Diabo que ninguém consegue fazer, mas sim a assuntos mais ou menos comerciais, mais ou menos formais, mais ou menos laborais, mais ou menos isto, mais ou menos aquilo… Ou mesmo totalmente tudo isto. Por conseguinte, saltam-me os olhos das órbitas com casos em que um email começa por “Oi como vais” (sem o ponto de interrogação, vírgulas e que tais) e avança num gatafunho de letras comidas, abreviações internáuticas e tratamentos de quem deve ter sido colega na tropa, lá nos grandesRangers de Lamego.

“Ó Maria Inês, mas isso são coisas óbvias, caramba!”, dizem vocês, que são pessoas com lógica e bom senso, e não tratam o desconhecido como se fosse o amigo de longa data, inseparável desde o infantário, ou se lhe dirigem com o vocabulário do gangster lá do sítio. São, pois são, mas nem isso previne que tal aconteça.

Há uns meses, deu-se a situação de ter de trocar uma quantidade de emails num contexto que, sendo a pessoa em questão desconhecida e de haver contrato envolvido – um negócio, portanto –, considerei haver razão para um tratamento, pelo menos, semi-formal. Em resposta, recebia textos alérgicos ao uso de maiúsculas (fosse o valter hugo mãe, e eu teria compreendido, mas não, não era), sem qualquer tipo de cumprimento e despedida, e uma total falta de pontuação, chegando ao ponto de eu ter de fazer um esforço desmesurado para traduzir o que ainda hoje suspeito ser uma variante manhosa do Português. A pessoa em questão era um editor – e logo ali decidi nunca mais assinar fosse o que fosse com a editora em questão. Pois se um dos seus editores não era capaz de escrever convenientemente num simples email! A situação teria sido outra caso estivéssemos a trocar mensagens numa rede social, mas não, não foi o caso, não havia essa atenuante. A minha confiança naquela editora morreu ali, e nem com o funeral me preocupei.

Esta situação é apenas um exemplo das consequências que a falta de noção da linguagem apropriada a cada situação pode acarretar. Eu não chego ao pé dos meus professores/patrões/orientadores com a mesma linguagem que tenho perante os meus amigos/familiares. Qualquer pessoa com um mínimo de noções sociais faz o mesmo. Se eu, iniciante, sem qualquer tipo de rendimento da escrita, sem grandes reconhecimentos, recuso voltar a tratar com uma editora que não sabe escrever emails, que farão os grandes autores? É cavar a própria cova, perfumá-la, e chafurdar nela.

E por isso, deixo alguns pontos que deveriam ser básicos e instintivos:

1 – Cumprimentar e despedir

É verdade que por vezes chego ao pé de alguém começando logo a falar – no entanto, é algo que faço com alguns poucos escolhidos, quando assim o calha. De um modo geral, é considerado rude saltar o cumprimento ou meter-se na alheta sem dizer “água vai”. O mesmo serve em relação aos emails, com a possível excepção dos amigos e familiares, dependendo do tipo de relação em questão.

2 – Em caso de dúvida, formal ou semi-formal

Mais uma vez, excepção para os amigos e familiares. Mas aquela pessoa que não te conhece de lado nenhum, aquele email laboral, aquela situação no limbo que não tens bem a certeza que estilo adoptar… Formal ou semi-formal, alterando depois consoante o tipo de resposta recebida.

3 – Pontuação

Porque eu vou começar a esganar quem finge que ela não existe! Lembram-se daquele testamento cujo autor morreu antes de o pontuar, e que cada um dos possíveis beneficiários pontuou conforme lhe era mais conveniente, causando uma salgalhada do catano? É um dos exemplos que os professores primários dão aos seus pequeninos alunos para estes compreenderem a importância da pontuação, o quanto esta pode alterar o significado e a compreensão de um texto, e caramba, é um exemplo que funciona.

4 – Evitar abreviaturas

Ou escrita similar à que a juventude gosta muito de levar para facebooks, twitters, ask.fm, tumblrs, e todas as demais redes sociais, com a possível excepção do hi5, apenas e só porque este se encontra às moscas. Já ocorreu que quem está do outro lado, mesmo o amigalhaço das cervejas, pode não fazer ideia do que aquilo significa? Até o “yolo” eu já tive de explicar o que era, e numa altura em que já estava mais do que disseminado.

5 – Assunto

Evitar o (Sem Assunto), fazendo-o ir directo ao ponto, nem demasiado extenso, nem tão enigmático que tê-lo ou não tê-lo vai dar ao mesmo.