“Demência”, Célia Correia Loureiro

capa

LOUREIRO, Célia Correia – Demência, Porto, Coolbooks, 2019

 

Sinopse: Numa pequena aldeia beirã, duas mulheres de gerações diferentes leem o seu destino nas mãos de um mesmo homem: Letícia foi vítima de um marido ciumento e manipulador, e Olímpia é a mãe extremosa desse agressor.

Mas quando Letícia regressa para assistir Olímpia, aos primeiros sinais de demência, os traumas que traz na bagagem ameaçam estilhaçar o silêncio conivente dos aldeões. Ainda que ostracizada, Letícia esforça-se por esquecer os tumultos do seu casamento, enquanto Olímpia pede ajuda ao amigo de infância, Sebastião, para reconstruir as próprias memórias e entender o que se passou com o seu único filho.

 

Opinião: Demência é um dos primeiros romances da autora, tendo sido recentemente reeditado por uma segunda editora. Como indicado na sinopse, foca-se em duas mulheres de gerações diferentes, Olímpia e Letícia, ambas vítimas de abusos domésticos, ainda que díspares na concretização. Encontra-se estruturado em capítulo curtos, e a narrativa é fluida, quer pelas construções frásicas, quer pelas escolhas vocabulares, o que proporciona uma leitura agradável. No entanto, a existência de algumas gralhas, má colocação de vírgulas, e discrepância em tempos verbais justificam uma nova revisão.

Podemos dizer ser, portanto, a violência doméstica e o silêncio (quando não mesmo recusa) social em seu redor o tema aqui em foco. Trata-se, infelizmente, de algo ainda actual e sobre o qual há ainda muito que falar e actuar. A contextualização espacial da acção numa aldeia nortenha do interior português leva, contudo, a que sejam referidos e lembrados outras problemáticas a necessitar de resposta, como o é o esquecimento votado ao interior e os problemas que daí advêm: a escassez de transportes, as dificuldades de emprego, os custos extra associados a manter as crianças na escola, entre outros.

Ao longo da leitura surgem, contudo, algumas incoerências que a serem sanadas contribuiriam para o melhoramento da obra, algumas em relação às personagens, outras ao encaminhamento do enredo. Por exemplo, a insistência, numa fase mais tardia, de que Letícia e Lívia poderiam ser sido amigas “se a história fosse outra” quando Olívia era já tremendamente hostil com Letícia muito antes da morte do filho; o desconhecimento de Pilar sobre se Gabriel se encontrava em casa, aquando o incêndio posto da sua residência, quando fora o ter-se cruzado com ele na estrada o que a levara a ir buscar as meninas a casa dele; a inexistência de consequências de maior para uma mulher e duas crianças que passaram ao relento uma noite fria de Outubro, no Norte e interior de Portugal (as quais, ademais, haviam saído com a intenção de bater à casa do padre: por que não o fizeram?); por fim, a colocação de Letícia como professora na escola da aldeia, a qual não seguiu os trâmites estatais, e não deixando dúvidas sobre ter sido um facilitismo criado para o desenvolvimento do enredo.

Já a um nível mais pessoal, não apreciei o romance entre Letícia e Gabriel: considerei-o descabido no contexto da obra, da qual esperava uma maior abordagem à relação entre Letícia e Olímpia.

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