Book Tales

“Perguntem a Sarah Gross”, João Pinto Coelho

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COELHO, João Pinto – Perguntem a Sarah Gross, Alfragide, D. Quixote, 2015

Sinopse: Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador.

Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.

 

Opinião: As vivências de Kimberly e de Sarah começa por ter narrativas paralelas que, num crescente peso da de Sarah, acabam por se unir. Kimberly é uma jovem que, para fugir de abuso por parte de um familiar, aceita a posição de docente num colégio interno. Sarah passou uma infância privilegiada e de um começo de vida adulta auspicioso para as perdas da Segunda Guerra Mundial, a morte de um filho, e a impossibilidade de se defender de um abusador que para todos os demais era um homem sensível e respeitador. Através da história de Sarah, Kimberly ganha forças para levar a sua própria vida adiante.

O tempo narrativo oscila entre estes dois períodos, nunca os despejando ao leitor, antes desenrolando-os e deixando curiosidades para depois. Estas oscilações encontram-se bem demarcadas, não havendo dúvidas ou confusões para o leitor sobre qual a linha temporal em que se encontra. A base histórica encontra-se bem fundamentada, sendo evidente o conhecimento do autor sobre este contexto, e os elementos de descrição, reflexão e de diálogo encontram-se geralmente bem equilibrados.

A maior falha encontra-se, contudo, nas personagens. No que respeita às personagens secundárias, a maioria não vai além de uma única ideia ou propósito, tornando-se unidimensionais: veja-se o exemplo de Therese, de Dylan, de Justin, ou do tio de Kim. Outras falham por inutilidade, sendo que o seu desaparecimento do enredo em nada o alteraria. Sarah, contudo, será o mais grave, por se tratar da personagem de maior peso. A sua construção advém inteiramente do que as restantes personagens afirmam e narram sobre ela, mas a própria Sarah não o demonstra ao leitor. Assim, não se compreende a fascinação nas restantes personagens por ela, logo desde a sua infância. Não há uma caracterização indirecta que o justifique ou consolide, o que, por seu lado, leva a que não haja crença por parte do leitor de ser ela tudo aquilo que dizem. Por conseguinte, a personagem planeada como centro do romance enfraquece, enfraquecendo a percepção que o leitor retira da leitura.

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