ALEX, Michel – Custom Circus: Mekanon, Barcarena, Divergência, 2019
Sinopse: Numa terra futura devastada pela insanidade humana, o estilo de vida voltou a ser orgulhosamente nómada. Clãs de bikers, apoiados por caravanas de trailers e camiões, guiados pelos seus druidas, vagueiam pelo imenso deserto que é agora o Atlântico, fugindo a uma devastadora escuridão que lhes ameaça roubar a liberdade e a vida. Cabe a Storme, Roker e Blu, pertencentes ao grupo mais sagrado dos Wheels, salvaram o estilo de vida, as tradições e a alma de todas as tribos da roda. Mas os senhores das trevas têm outros planos para o que resta da Humanidade, em que o amor, a música e a individualidade não têm lugar. Esta é a imensa história do Custom Circus.
Nota: Este exemplar foi oferecido pela Divergência ao BookTales. Pode ser adquirido aqui. Poder-se-á também conhecer mais sobre o Custom Circus – cuja actuação vai além da literatura – aqui.
Opinião: O livro inicia-se com um capítulo 0 onde de imediato o autor se apresenta também como narrador, uma confluência visível várias vezes ao longo da narrativa: apesar da narração heterodiegética, são inúmeros os momentos em que o narrador/autor se dirige ao leitor, apresenta viragens no enredo como sendo sua vontade, ou relembra o facto de serem as personagens não mais do que isso. Explica ainda a origem da saga e um pouco sobre o seu contexto ficcional: o mundo pós-apocalíptico e os protagonistas que o vivem.
É evidente a influência da imagem durante todo a narrativa. Desde a descrição do ambiente à das personagens, o modo como se movimentam, como se vestem, e como se movem, é patente que o autor continha um ideia clara do que queria que o leitor visualizasse com a leitura. Infelizmente falha ao não aprofundar os elementos da obra: algo que é comum a várias facetas. O enredo é linear e pouco inovador – os vilões a quererem sobrepor-se aos heróis pelo poder –; as personagens assemelham-se entre si, tanto pelo modo de estar como pelo de falar, sendo as personagens femininas particularmente similares entre si; as relações entre as personagens são abruptas, sem substância narrativa que as sustente; o pacing do enredo é irregular, dando a ideia de os desenvolvimentos descritos terem sido lembrados conforme se foi escrevendo, sem que uma revisão e reescrita posterior o equilibrassem; o próprio worldbuilding, o elemento que se poderia tornar no mais forte pilar da obra, carece de aprofundamento, tornando-se em não mais que uma imagem, em vez de um contexto sócio-cultural.
Algo que se evidencia no estilo de escrita é a informalidade. Sabemos, pelo próprio autor, ter o Custom Circus surgido por conta das insónias, ou seja, será válido deduzir que a escrita seria, primordialmente, do autor para si próprio, e só depois destinada a terceiros. A ser esse o caso, não é de estranhar a descontracção narrativa. Ao alterar-se a sua finalidade, todavia, teria sido aconselhável uma revisão profunda que expurgasse certos detalhes que atribuem um carácter de amadorismo ao texto: pegando em três exemplos, o excesso de onomatopeias (em particular as que pretendem reproduzir risos ou choro); a escolha de linguagem floreada em diálogos, a qual os torna pouco credíveis; e o uso erróneo de parágrafos, separando o verbo da fala, e pontuação nos diálogos, como se pode ver:
“ – Ah! Que linda criatura! Pareces tão jovem…
Constata Zaat, com a face sempre velada na penumbra do seu manto.”
Apesar da ideia cerne da obra ser chamativa, a sua prossecução carece nos pontos indicados, o que infelizmente levou a que não me fosse uma leitura aprazível.