“Sombras da Noite Branca”, Sandra Carvalho

capa

CARVALHO, Sandra – Sombras da Noite Branca, Lisboa, Presença, 2013

Sinopse: O momento de todas as decisões aproxima-se. Halvard, o Filho do Dragão, espera ansiosamente a chegada da Noite Branca para assimilar o Conhecimento Absoluto e tornar-se um deus na Terra. Quase todos os seus inimigos foram destruídos; apenas o rei Ivarr do povo viquingue, os Guardiães das Lágrimas do Sol e da Lua e os Sacerdotes dos Penhascos ainda resistem. Entretanto, a guerreira Kelda da Montanha Sagrada treinou com afinco sob a orientação do feiticeiro Sigarr e está pronta para se tornar mestra da Arte Obscura. Apesar de saber que a celebração desse ritual irá extinguir a luz da sua essência, ela persiste, pois acredita que só assim poderá deter o avanço sanguinário do irmão gémeo. Todavia, a revelação de que o seu destino é concretizar a profecia e não contrariá-la poderá abalar as suas convicções. Terá Kelda a determinação e a força necessárias para cumprir a missão que a Pedra do Tempo lhe atribuiu, enquanto chora a perda do amor do príncipe da Gente Bela? Ou, sobre o Altar do Mundo, cederá ela à tentação do poder e abrirá o seu coração às sombras da Noite Branca?

 

Opinião: Oitavo e último livro da saga d’As Pedras Mágicas, Sombras da Noite Branca mantém-se consistente com a narrativa apresentada até aqui. À excepção do prólogo e epílogo em terceira pessoa, Kelda mantém-se como narradora e protagonista do enredo, o que leva a que o leitor saiba apenas por terceiros, e em tell, de várias batalhas e acções decorridas sem a presença da personagem; por outro lado, segue com bastante detalhe os desenvolvimentos psicológicos – e podemos mágicos – de Kelda, na sua demanda pela aquisição do poder necessário para vencer o irmão.

O pacing realiza-se num encadear de acontecimentos e viragens bem concebidas. Infelizmente, dois grandes factores levam a que esse ponto positivo se ofusque: a falta de desenvolvimento (que se centra quase exclusivamente no factor “esotérico”) e a narrativa em si. Como verificado nas obras anteriores, também aqui predominam em excesso pet words (“com mil ratazanas”; “aleivosa”; etc), uma mescla desequilibrada de vocábulo comum e vocábulo excessivamente formal, e artificialidade nos diálogos.

No que diz respeito às personagens, são poucas as novas personagens inseridas: algo de esperar, atendendo a que se trata do último livro de uma longa saga. As poucas excepções são desnecessárias e pouco peso têm para o enredo, podendo ser eliminadas sem provocar alterações. Das que já são conhecidas ao leitor, poucas alterações sofrem, o que também não teria sido necessário. Ajudaria, por outro lado, incluir-se na publicação árvores de família, dado que a certo momento as gerações e ramificações são tais (relembro: oito livros, três gerações) que se torna difícil para o leitor manter-se actualizado sobre quem é quem e como se relaciona quem com quem.

Algo que contribui para não se apreciar tanto a leitura quanto poderia é a resolução de problemas utilizando o método Deus Ex Machina, em que a solução como que cai do céu: no caso, através de magia ou de entes mágicos. Teria havido uma maior riqueza de enredo, e de construção de personagem, se as personagens desenvolvem soluções pelos seus próprios meios. Do mesmo modo, seria de evitar um final quase perfeito em que cada sobrevivente – alguns incompreensíveis – encontra amor e filhos, recordando o final de Os Três Reinos.

Sombras da Noite Branca é, em suma, um livro com interesse aos leitores que têm vindo a acompanhar a saga, principalmente pelo ponto final que coloca, sem, todavia, revelar melhorias ou evolução em relação aos seus antecessores.

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