“O Corsário dos Sete Mares: Fernão Mendes Pinto”, Deana Barroqueiro

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BARROQUEIRO, Deana – O Corsário dos Sete Mares: Fernão Mendes Pinto, Albufeira, Casa das Letras, 2012

Sinopse: Fernão Mendes Pinto é o exemplo vivo do aventureiro português do século XVI, que embarcava para o Oriente com o fito de enriquecer. Curioso, inteligente, ardiloso e hábil, capaz de todas as manhas para sobreviver, vai tornar-se num homem dos sete ofícios, sendo embaixador, mercador, médico, mercenário, marinheiro, descobridor e corsário dos sete mares – Roxo, da Arábia, Samatra, China, Japão, Java e Sião – por onde, durante vinte anos, navegou e naufragou, ganhou e perdeu verdadeiros tesouros, fez-se senhor e escravo, amou e foi amado, temido e odiado. Herói polémico e marginalizado, Fernão participa em campanhas de paz e guerra, da Etiópia à China, sendo também um dos primeiros portugueses a visitar o Japão, onde introduz os mosquetes ali desconhecidos e fica nas crónicas locais como o noivo do primeiro matrimónio de uma japonesa com um ocidental. Através de Fernão Mendes Pinto e dos testemunhos das personagens com quem se cruza, na sua peregrinação pelo Oriente longínquo, a autora faz ainda a narrativa dos principais episódios da grande saga dos Descobrimentos Portugueses, como as conquistas de Goa e Malaca, o heróico cerco de Diu ou as campanhas do Preste João na Etiópia. Em sete mares se divide o romance, por onde o leitor, na pele das personagens, fará uma intrigante viagem no Tempo, ao encontro de si próprio e de mundos e povos antigos, tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes, uma peregrinação na busca incessante de fortuna, encarnada na demanda da mítica Ilha do Ouro.

Opinião: O enredo indicado tanto pelo título como pela sinopse estrutura-se numa divisão por “livros”, cada qual representando um dos mares navegados, e correspondendo a um episódio em específico (um cerco, um julgamento, um cárcere, etc), que serve de base às diversas histórias. Por sua vez, cada “livro” subdivide-se em capítulos, todos nomeados por dizeres de vários povos, e iniciando-se com o trecho de um documento histórico: uma carta, um registo civil, um poema, ou a citação de uma obra de época, incluindo a própria “Peregrinação”.

É notável ao leitor a pesquisa realizada pela autora, não só histórica e cultural, como também documental: encontra-se evidente nas descrições dos costumes e usos do dia-a-dia (roupas, utensílios, modos de cumprimento), nas tramas, e nos vocábulos utilizados, alguns dos quais justificam as notas-de-rodapé que finalizam cada capítulo. A narrativa é em terceira pessoa, com grande base em diálogos, à excepção de algumas (bem demarcadas) intervenções em primeira pessoa da autora, momentos em que autora e narradora se identificam. Essas intervenções são usualmente relacionadas com alguma explicação temporal ou justificação por determinada opção narrativa.

Há, contudo, um abuso de tell nas situações de acção, superficialidade nos episódios mais sentimentais (advinda da falta de aprofundamento), e artificialidade nos diálogos, não apenas pelo registo mais escrito que oral, como também pelas situações em que personagens partilham com outras informações que os receptores já sabem – sendo evidente ser o único objectivo que o leitor também as saiba. Estes elementos acabam por trazer um certo nível de aborrecimento à leitura.

No que respeita às personagens, também a sua construção está prejudicada pelo excesso de tell, e Fernão Mendes Pinto, ainda que sendo a ligação entre todas as histórias, é frequentemente uma personagem passiva, fazendo pouco mais do que escutar as restantes, ao ponto de a sua existência ser esquecida durante grande parte da leitura dos primeiros “livros”. Nas últimas ganha um maior destaque, sendo demonstrado tanto pelas acções de louvor quanto de reprovação, não havendo uma santificação do aventureiro.

Os episódios com as personagens femininas foram os que me despertaram maior interesse, sendo os que gostaria que tivessem sido mais desenvolvidos: não apenas pelo enredo, mas principalmente pelas personagens, que demonstram potencial para uma construção mais complexa, e mais do que instrumental à narrativa.

Apesar do tema de interesse e do grande trabalho “de bastidor” que se encontra visível, as escolhas narrativas e a opção quase constante pela explanação sem demonstração tornaram o romance moroso.

“Paraíso”, Tatiana Salem Levy

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LEVY, Tatiana Salem – Paraíso, Lisboa, Tinta da China, 2016

Sinopse: «João Felipe Albuquerque Junqueira retornou a casa quatro dias após o meu enterro. Por volta das seis, ele se sentou à mesa, perfumado, na companhia de sua esposa. Quem surgiu para servir o vinho foi Laura, e João Felipe estranhou a minha ausência, perguntou por mim à outra mucama, que permaneceu calada. Quando Laura chegou com os pratos já servidos, ele se indignou contra aquele disparate, comer sopa em pleno verão. Fingindo não ter ouvido o comentário, Mariana levou a colher à boca antes de o incitar a fazer o mesmo, alegando que aquela sopa tinha sido cozida especialmente para ele, com ingredientes que o ajudariam a recuperar a força, depois de tão longa viagem. Vencido pelo cansaço, João Felipe levou um susto assim que ergueu a colher, com um enorme pedaço de carne. Observou-o com minúcia e percebeu que se tratava de uma língua.»

Opinião: O romance curto desenvolve-se em três tempos: o presente, onde a protagonista se isola num retiro paradisíaco disponibilizado por uma amiga, não apenas para escrever, mas principalmente para lidar com uma espera; o passado, por cujos trechos o leitor vai conhecendo as bagagens emocionais da protagonista; e o ficcional, a história que a protagonista escreve, mesclada de realidade com ficção, e situada num momento histórico de escravatura. É através desta tridimensionalidade temporal que se torna possível a abordagem de várias questões complexas, desde a escravatura à violência doméstica, a noção de identidade à SIDA. Umas narradas com evidência, outras deixando apenas o necessário para serem intuídas, mas nenhuma tratada com superficialidade.

É seguida a perspectiva da protagonista, o que muito influência a construção das restantes personagens: a ideia que o leitor tem delas não é a sua totalidade, ou sequer a junção de várias facetas, enquanto encaradas por vários modos de ver. Estão sujeitas e limitadas à visão da protagonista, e por conseguinte também surgem com esta limitação ao leitor. Não significa que se mantém imutáveis ao longo da narração, mas sim que apenas se tornam algo mais, quando se modificam aos olhos da protagonista.

O romance peca por alguns exageros, mais expectáveis da novela televisiva, e que não lograram suspender a crença de leitor. No geral, contudo, constitui uma leitura agradável, onde o estilo narrativo é capaz de diferenciar discurso directo e indirecto sem necessidade das indicações gráficas tradicionais.

“A Vendedora de Calcinhas Usadas e Outras Profissionais”, Mariana de Lacerda

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LACERDA, Mariana de – A Vendedora de Calcinhas Usadas e Outras Profissionais, Recife, EX!, 2018

Sinopse: Na internet, podemos ser quem quisermos, ou até desaparecer por completo…

O que fazer quando tudo dá errado? Assumir identidades falsas? Vegetar dentro de casa? Apelar para maneiras inconfessáveis de ganhar dinheiro? São todas soluções exploradas pelos quatro jovens retratados aqui, nem sempre com os melhores resultados.
Marisa, aluna aplicada da faculdade de História da UFPE, é a única que tem metas bem definidas e vem conseguindo alcançá-las, sendo o elo de ligação entre os demais, ainda que nem sempre tenha consciência disso. Porque Recife é um ovo — de codorna!

 

Opinião: Quatro histórias que utilizam o protagonismo de três mulheres e um homem, todos na casa dos vinte, para explorar diversas facetas da auto-representação que se realiza sob o escudo – dúbio – da internet. Em “Renata” temos a duplicidade necessária para manter um negócio que tornaria a protagonista condenada pela sociedade; em paralelo, encontramos o namorado no último conto a levar uma duplicidade no mundo real, trabalhando como “convidado contratado” em diversos eventos. Apesar das vantagens que uma função e outra trazem aos restantes sectores das respectivas vidas, a incapacidade de honestidade, de expor esta duplicidade, termina com a relação.

Já Alessandra, outra das personagens centrais, vai mais longe: num ímpeto, lança a mentira que cresce até à criação de uma nova vida, que a jovem procura apresentar como sendo a única e a real, ao ponto de cometer um crime ao expor as imagens de uma criança, sem conhecimento dos pais.

Inês nada cria. Incapaz de lidar com os primeiros tropeções que recebe da vida, fecha-se no mundo dos blogs e das redes sociais, onde a criação de redes e a aquisição de informação e segredos alheios se tornam numa obsessão. É o fantasma que a todos vê e a todos segue, demonstrando como qualquer detalhe inócuo é informação.

Todas estas narrativas exploram a relação do ser humano com a internet e com a questão de identidade; as influências e as pressões sociais, bem como os modos de reacção. Marisa, o elemento social “comum” das personagens, é o elo de ligação mais evidente, mas não o único. As ramificações que as unem são várias. É, todavia, no aniversário de trinta anos de Marisa, narrado no epílogo, que com um avançar de tempo se juntam os finais de todas as personagens, interligando-se na sua maioria.

A Vendedora de Calcinhas Usadas e Outras Profissionais é uma leitura curta, em que as peças de um puzzle se juntam para uma imagem final, e cuja narrativa em terceira pessoa se encontra aprazível e bem desenvolvida.

“O Filho do Dragão”, Sandra Carvalho

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CARVALHO, Sandra – O Filho do Dragão, Presença, 2012

Sinopse: Após a cruenta batalha que reduziu a Ilha dos Sonhos a cinzas, Kelda, filha do Rei da Lua e da Rainha do Sol, assume-se como Sacerdotisa dos Penhascos, a fim de salvar o seu povo do ferro e do fogo dos inimigos. Durante a longa viagem que a levará à Terra das Montanhas de Areia, a jovem guerreira, eleita decisora pela Pedra do Tempo, interroga-se se irá encontrar Halvard, o seu irmão gémeo, marcado pelo destino para concretizar a profecia do Filho do Dragão. Kelda acalenta a esperança de que ainda será possível desviá-lo do trilho da perdição. Contudo, antes terá de combater Deimos, o rei do Povo do Fogo, assim como Sigarr, o terrível feiticeiro que raptou Halvard quando este era criança.

Opinião: Comecei a leitura sem grande memória dos acontecimentos anteriores, resultado de erro meu, visto tratar-se de uma saga que pela quantidade de personagens – cobre três gerações – torna aconselhável ser lida com menor tempo de intervalo entre os volumes. Não demorei, contudo, a “retomar o fio à meada”, visto que são feitas menções aos eventos anteriores com bastante regularidade. Ademais, o seu enredo foca-se mais numa preparação para o que está por vir, e no caminho de reflexão de Kelda em relação ao irmão, a Sigarr, e ao seu próprio papel tanto em relação à profecia quanto ao auxílio ao seu povo. As certezas da protagonista são questionadas não apenas por terceiros, mas também (e finalmente) pela própria, desenvolvendo sentimentos contraditórios advindos do embate entre o amor que tem ao irmão e aquilo que vê acontecer; algo que enriqueceu a personagem. Com excepção da batalha final, as cenas de acção que decorrem durante a maior parte da narrativa são pequenas contendas ou treinos de armas, evidenciando-se ainda mais o carácter introspectivo do enredo.

Mantendo continuidade com o livro anterior, Kelda é tanto protagonista quando narradora, com excepção do epílogo, baseado em Lysander, e no prólogo, centrado na Observadora Íris, uma das novas personagens deste volume. Tanto o prólogo quanto o epílogo se encontram em terceira pessoa.

No que à narração diz respeito, mantém-se grande parte das falhas já previamente apontadas: um excesso no uso de pontos de exclamação e de três pontos, bem como da expressão “com mil ratazanas (adjectivo à escolha)”; abuso de vocabulário formal, que não condiz com a narrativa geral e apenas contribui para uma sensação de artificialidade; e demasiada ênfase em sentimentos românticos sem qualquer desenvolvimento ou início plausível. A adicionar, neste volume em particular, encontramos o  uso na ficção de elementos que existem em culturas reais, apresentando-os de forma superficial e preconceituosa; o descaso de situações de abuso que a protagonista descobre com o objectivo narrativo de caracterizar o horror do local, mas que logo de seguida parece esquecer, deixando (supomos) que as vítimas dos abusos referidos permaneçam nessa situação; e, por fim, a mudança brusca do antagonista e vilão de vários dos volumes da saga, gerada pela paixão que desenvolve por Kelda.

Penúltimo volume da saga, teria beneficiado de uma revisão tanto à narrativa quanto ao desenvolvimento das relações entre as personagens.

“Ecologia”, Joana Bértholo

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BÉRTHOLO, Joana – Ecologia, Alfragide, Caminho, 2018

Sinopse: Numa sociedade que se fundiu com o mercado – tudo se compra, tudo se vende – começamos a pagar pelas palavras. A estranheza inicial dá lugar ao entusiasmo. Afinal, como é que falar podia permanecer gratuito?

Há seis mil idiomas no mundo. Seis mil formas diferentes de dizer «ecologia», e tão pouca ecologia. Seis mil formas diferentes de dizer «paz», e tão pouca paz. Seis mil formas diferentes de dizer «juntos», e é cada um por si.

 

Opinião: Apesar das várias personagens trabalhadas e desenvolvidas ao longo das páginas do romance – dividido em três partes correspondentes a três vagas de actuação, sem os tradicionais capítulos –, o protagonismo encontra-se na distopia e, em particular, na linguagem. Darla, Candela, Carolina, o Fotógrafo, e tanto outros são, apesar da sua construção e individualidade, mais importantes enquanto perspectivas e pelos papéis que desempenham no desenrolar da alteração do mundo, que pelas suas acções enquanto agentes humanos.

Não é pouco o que é abordado e utilizado por Bértholo; a autora utiliza as ferramentas ao seu dispor com uma sagacidade e enxuto que impedem a superficialidade que usualmente surge quando se procura referir vários temas que detêm tanta actualidade quanta temporalidade: segurança/privacidade; saúde/privacidade; os meios sociais enquanto distracção; a mercantilização do impensável, até se tornar pensável; a aceitação tácita da retirada de direitos, em particular quando levada de pouco em pouco e envolvida como estudo/ciência; os ciclos de criminalidade perpetuados por falta de oportunidade; a permanência do crime organizado que dinheiro e influência podem comprar, por maior que sejam as alterações sociais; a sensação de incapacidade face às mudanças que se observam; o equilíbrio entre a vida profissional e a privada; entre outros. Mas, acima de tudo, a linguagem: não apenas a portuguesa, ainda que tome foco em muitos dos enxertos, em particular com as questões de Candela, uma criança curiosa em aprendizagem, durante a maior parte da narrativa, cujo olhar ainda-não-normalizado questiona as “incongruências” linguísticas; mas da linguagem em geral: linguagens e dialectos, melhor dizendo, mais ou menos conhecidos, quase perdidos, em pleno período áureo, de que pouco se sabe. Tal é conseguido através do enredo em si: a progressiva mercantilização da linguagem, o pagar para falar, que traz consigo o estudo e interesse pelas línguas – uma mescla entre o desejo e necessidade de fugir às palavras mais dispendiosas e um genuíno interesse.

Todavia, também o próprio formato narrativo contribui nesse sentido. Bértholo não se limita a um estilo narrativo. Utiliza vários, variando os narradores (usa tanto a primeira quanto a terceira, e mesma a menos encontrada segunda, pessoa), a composição visual do texto, e, inclusive, elementos externos. O uso de elementos e notícias reais, com as respectivas fontes, fornecem ao leitor o necessário para que acredite que a ficção descrita possa ser real, ou, no mínimo, para temer a sua credibilidade. Neste ponto, é de admirar a lembrança de inserir algo tão simples e eficaz na prossecução da obra.

Ecologia é uma leitura que, não tendo um enredo ou personagens fracas, vale muito mais pela sua prossecução e construção: tornando-se a escolha do título óbvia aquando o final.