“Lobo de Rua”, Jana P. Bianchi

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BIANCHI, Jana P. – Lobo de Rua, Blumeau, Dame Blanche, 2016

 

Sinopse: Essa é uma novela sobre homens, lobos e luas.

Raul é um morador de rua, um homem invisível e desgraçado como tantos outros. Como se sua desgraça não fosse suficiente, Raul contrai a maldição da licantropia, tornando-se um lamentável lobo de rua. Tito Agnelli não compartilha do abandono de Raul, mas conhece muito bem a sensação de ser rasgado por dentro, todos os meses, pela coisa vil que se abriga nele. Assim, compadecido com o sofrimento do recém-transformado, Tito acolhe Raul na Alcateia de São Paulo, extinta até então por falta de lobisomens residentes na Pauliceia. Depois de décadas de contaminação, Tito conhece cada detalhe da maldição que o transforma em lobisomem. Além disso, conhece também a Galeria Creta, um lugar em São Paulo onde ele e outros dos seus são bem vindos nas noites de lua.

Basta pagar o preço.

 

Opinião: Apesar de não indicado na sinopse, a própria obra assume-se como um prólogo de algo maior, servindo de introdução ao universo criado, o que se nota pela estrutura do enredo, bem como por algumas indicações em relação a determinadas personagens. Trata-se de uma noveleta de fantasia urbana, onde se encontra uma crítica subtil, mas firme, à sociedade e ao modo como alguém (pessoa ou animal) “de rua” é tratado. Cada capítulo inicia-se com o trecho de um tratado fictício sobre licantropia, no qual vão sendo dadas informações “científicas” e “históricas” sobre a espécie ao leitor, transmitindo deste modo um conhecimento necessário, e que de outra maneira se poderia tornar maçudo.

O prólogo (ou capítulo 0) explora a mudança interior, fazendo uma separação muito interessante entre o menino e o lobo aquando a transformação: como se o espírito/alma/consciência de Raul se mantivesse presa no corpo, comandado pelo “outro”, mas tendo momentos em que se confundem entre si. A morte que logo ocorre não é gratuita nem apenas para chocar: indica a aleatoriedade da matança, a capacidade de compreender e recusar “comida podre”, e o mal que essas acções causam ao menino.

Já no capítulo 1, vemos uma maior exploração das alterações físicas e da dor que acarretam. É também apresentada a segunda personagem de maior interesse à trama, ainda que de forma vaga, sem se saber sequer o nome, pois apesar da narrativa em terceira pessoa, é seguida a perspectiva de Raul. Ao longo dos capítulos seguintes, é através das suas descobertas e conhecimentos que o leitor também descobre e conhece, salvo raras excepções.

É interessante a premissa da licantropia como sendo uma doença sexualmente transmissível, em que a mulher pode carregar o vírus sem sentir os seus efeitos, e transmiti-lo ao homem, o qual, uma vez contaminado, pode ou não tornar-se lobisomem, dependendo de uma predisposição genética. Há um grande foco na transformação, o qual foi bem conseguido, causando empatia ao mesmo tempo que cria imagens claras. A reviravolta final resulta, ainda, de um encadeamento lógico, não sendo aleatória.

Em relação à caracterização das personagens, é realizada tanto com descrição directa quanto indirecta. Encontram-se bem distintas entre si, havendo um maior foco nos protagonistas. Às restantes são atribuídas características suficientes para que se reconheçam, sem, contudo, serem aprofundadas. Aponto apenas a estranheza de se caracterizar alguém como “velha” aos quarenta anos, em particular quando é dito parecer ter trinta.

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