Book Tales

“Confidências”, Felipa Garnel

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GARNEL, Felipa – Confidências, Alfragide, Lua de Papel, 2019

Sinopse: Em busca de novas experiências, Felipa Garnel decidiu ser motorista da Uber por uns tempos. Ao volante, quase sempre de óculos escuros, começava os dias às seis da manhã. Viu um pouco de tudo. Como a senhora que a meio da viagem começa num pranto ao recordar a inimaginável violência de um sequestro. Ou o casal de franceses que levou para dentro do carro a discussão que já vinha de fora – com consequências dramáticas.  Felipa Garnel ouvia e registava todas as histórias. À noite, ao jantar, partilhava com o marido e com as filhas as peripécias do dia.  Sabia sempre onde começavam as viagens, mas nunca como acabavam: algumas terminavam ainda antes de chegar ao destino; outras deixaram-lhe marcas para sempre.  Na prosa enérgica da autora, conhecemos a enfermeira que perdeu a mãe, o casal gay que esconde das famílias o seu segredo, a mulher que afoga em álcool o seu desgosto de amor… O livro oferece-nos uma visão única, sem filtros, do que se passa realmente num Uber quando se fecham as portas – e começam as Confidências. São essas histórias de vida – todas reais – que a jornalista agora nos conta. Vamos pois entrar com ela no carro e acompanhá-la até ao fim da corrida – a rir, a chorar ou simplesmente incrédulos, porque dentro de um Uber, cabe o mundo.

 

Opinião: Os capítulos curtos e o tamanho de letra – grande – facilitam a leitura da narrativa em primeira pessoa, ainda que muito baseada em diálogos. Estes, infelizmente, não são credíveis, não tanto pelo conteúdo, mas sim pela formulação artificial. Naturalmente não seria possível para a autora apontar as conversas enquanto conduzia, sendo necessária a reconstrução mais tardia e de memória, o que leva a uma compreensível alteração superficial, bem como à necessidade de reajustar o oral ao escrito. Todavia, essa reconstrução não ficou bem conseguida: com frases gramaticalmente correctas, apesar de longas, e um encadeamento de falas demasiado ordenado e límpido, desapareceu a oralidade do diálogo. Ademais, foi-me impossível não desconfiar da veracidade de todas as histórias apresentadas, não tanto pelas histórias em si, mas pela facilidade e passividade com que os clientes se predispunham a particular detalhes íntimos e privados, de situações muitas vezes delicadas, com uma desconhecida.

O livro começa pela tentativa de apelar ao leitor através de uma história de cancro infantil, em que fica subentendida a morte da criança. Explica o processo de pensamento/decisão pelo qual Felipa Garnel decidiu desenvolver este projecto, bem como as acções que teve de tomar (a inscrição na plataforma, o contacto com a agência de alugar do automóvel, etc), e apenas então avança com as restantes histórias. A adicionar ao já dito em relação à narrativa, acrescenta-se ainda uma eventual purple prose, e uma repetição exagerada da afirmação de “não estar a fazer isto pelo dinheiro”, entendendo-se o “isto” como a condução de um Uber.

Quanto a gralhas, são raras (“Filipe Neto” em vez de “Felipe Neto”, por exemplo, em referência ao youtuber brasileiro), e de pouca consequência, estando a revisão bem conseguida no seu geral.

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