
MARQUES, Helena – O Último Cais, Alfragide, Dom Quixote, 2003
Sinopse: Marcos ama Raquel. Raquel ama Marcos. Casados há dezasseis anos, amam-se com a mesma paixão e ternura do princípio. Raquel é linda, serena, inteligente. Têm dois filhos adolescentes, André, parecido com o pai, e Benedita, fisicamente igual à mãe, mas sem a sua essência. Uma família de gente bela e feliz. Porque será então que Marcos continua a partir em missões de um ano, como médico da Armada? Fugirá do tédio de uma ilha, bela, sim, mas sempre a mesma, claustrofóbica, ou fugirá de algo mais importante, mais assustador, enterrado bem no fundo da sua mente?
Raquel espera. Como Penélope, espera com paciência, com amor, “É feliz, apesar de tudo”. Ensina a Benedita os preceitos, as regras, as tradições que tanto ama. Conta-lhe histórias da família, a tragédia da tia Constança, das primas Ana Adelaide e Maria dos Anjos. Mas Raquel sonha. Sonha em viajar, visitar ao lado de Marcos os lugares que ele conhece e, talvez, conhecer Malta, La Valleta, terra dos seus antepassados Villa, gostaria de saber se lá existem também mulheres como ela com “cabelos cor de vinho velho, pernas altas, olhos cinzentos e uma resoluta insubmissão”.
É um tempo sereno, mais tarde chamado época vitoriana, um Funchal do século XIX, onde passeamos pelas ruas, pelas quintas, entramos nas casinhas de prazeres, ouvimos as estórias contadas a meia voz pelas velhas criadas, juntas na cozinha, enquanto os patrões jantam no salão.
Conhecemos a história de Raquel, Benedita, Clara, com os olhos do pai e a alegria da mãe, Nicolau, Luciana, Catarina Isabel, Marta e Maria, Carlota, Marcos. Marcos que Raquel tanto ama, só ela podendo acender as pequenas manchas verdes nos seus olhos cor de mel. É uma história bela, de gente bela, numa época de tradições, regras, preconceitos, mas também de avanços nas ideias e na tecnologia.
Acompanhamos Marcos até ao fim, ouvindo Bach e Beethoven, “velho marinheiro na ponte de um navio ancorado, à espera de chegar ao seu último cais”, sabendo quem iria encontrar no Paraíso.
Opinião: A contextualização sócio-cultural é feita logo no primeiro capítulo, através de diálogo: decorre o século XIX, com os movimentos abolicionistas, a guerrilha com os Zulus, e, em Inglaterra, as sufragistas – questões que serão o pano de fundo. São também apresentadas algumas das linhas caracterizadas das personagens, em particular Marcos e a necessidade que sente em sair constantemente da ilha da Madeira, apesar da família e da paixão pela esposa, que deixa para trás ao fazê-lo.
Marcos será uma personagem constante na novela, começando com ele, e terminando com a sua morte, todavia, a narrativa vai mais além: cada capítulo é a história de uma personagem, um fio que contribui para a tapeçaria, que acabam por se explicar e complementar umas às outras. Crítica, ainda, o todo da sociedade, através da representação do detalhe, num aprofundamento que exige reflexão, ainda que nem sempre do negativo. Encontramos um grande – mas não exclusivo – foco na mulher, nas expectativas e no papel que delas se espera, o que delas se presume, ou o que elas driblam.
Em termos narrativos, o que se poderia considerar como despejo de informação torna-se numa leitura atractiva pelo manejo da prosa e pela precisão das informações. Sem se perder em introspecção, aborda o ser humano, em particular as questões femininas, e a solidão/saudade dos que ficam.