“Jacinta: A Profecia”, Manuel Arouca

Jacinta

AROUCA, Manuel – Jacinta: A Profecia, [Alfragide], Oficina do Livro, 2016

 

Sinopse: A história de Jacinta, uma criança tocada pelo divino que se sacrificou para que os nossos corações se transformassem.

“No convento de Pontevedra, Lúcia volta a pegar na fotografia da transladação de Jacinta. À mente vem-lhe uma sequência de imagens da prima com aquele seu sorriso e rosto radioso. Não se esquece, sente como se a tivesse presente, como ela, com os seus braços magros, a apertou contra o seu peito quando voltou de Ourém, repetindo várias vezes com aquela sua voz melodiosa “não contaste o segredo ao administrador, não contaste, pois não?” Lúcia em lágrimas sossegava-a, afagando-lhe os cabelos. As mesmas lágrimas que escorrem agora pela sua face enquanto segura a fotografia.”

 

Opinião: A premissa – e a capa, e o título e o marketing – gera a expectativa de um livro sobre os pastorinhos de Fátima, com foco em Jacinta, a mais nova, e não se pode dizer que não cumpre com essa expectativa. De facto o que aqui temos é a história dos pastorinhos, conforme o conhecimento que dela temos enquanto povo. Os poucos trechos da irmã Lúcia no “presente” tornam os muitos capítulos do “passado” em reminiscências que se centram no evento das Aparições, e dos interrogatórios que se seguiram. Pouco mais além dessas situações é abordado, não se ficando a conhecer muito mais sobre a vida das crianças que o já público, ou por o autor não o considerar de relevo – apesar do carácter informativo e do peso na ambientação que teria –, ou por desejar manter o foco no lado mais “público”. Qualquer que tivesse sido a motivação, acabou por gerar um romance semi-biográfico onde não se ultrapassa o superficial, e a repetição de dúvidas, situações, dilemas e antagonismos enfatiza a sensação de sobrar pouco da leitura quando espremida.

Outro ponto a destacar será o narrador: inicialmente entendido como em terceira pessoa, logo se torna evidente não se tratar de uma narração neutra. O narrador é omnipresente, mas é uma personagem por si só, com claros favoritismos, tendência a narrar os eventos conforme a sua própria opinião, e por vezes assumindo um “eu” cuja identidade não é perceptível, na medida em que nenhuma das existentes poderia ter todos os conhecimentos demonstrados na narração. Esta posição narrativa delimita, por conseguinte, a apresentação das personagens, que surgem ao leitor com os condicionalismos da opinião do narrador sobre elas.

O romance foi publicado ou reeditado aquando as celebrações do aniversário de Fátima. Atendendo ao público-alvo cujo interesse e gosto poderá despoletar, dificilmente poderia ter tido melhor altura – uma indicação de consciência dos leitores a que se dirige a louvar.

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