“O Cônsul Desobediente”, Sónia Louro

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LOURO, Sónia – O Cônsul Desobediente, [Lisboa], Saída de Emergência, 2009

 

Sinopse: A História de Aristides de Sousa Mendes. O homem que, para salvar 30.000 inocentes, desobedeceu a Salazar e foi perseguido. Há pessoas que passam no mundo como cometas brilhantes, e as suas existências nunca serão esquecidas. Aristides de Sousa Mendes foi uma dessas pessoas. Cônsul brilhante, marido feliz, pai orgulhoso, teve a sua vida destruída quando, para salvar 30.000 vidas, ousou desafiar as ordens de Salazar. Cônsul em Bordéus durante a Segunda Guerra, é procurado por milhares de refugiados para quem um visto para Portugal é a única salvação. Sem ele, morrerão às mãos dos alemães. Infelizmente, Salazar, adivinhando as enchentes nos consulados portugueses, proibira a concessão de vistos a estrangeiros de nacionalidade indefinida e judeus. Sob os bombardeamentos alemães, espremido entre as ameaças de Salazar, as súplicas dos refugiados e sua consciência, Aristides sente-se enlouquecer. E então toma a grande decisão da sua vida: passar vistos a todos quantos os pedirem. Salvará 30.000 inocentes mas destruirá irremediavelmente a sua vida.

 

Opinião: Aristides de Sousa Mendes tornou-se num dos seres humanos mais meritórios no percurso de Portugal ao sacrificar a sua carreira e bem-estar pelo grande número de desconhecidos que, fugindo do extermínio, lhe pediu vistos de passagem por Portugal: vistos que foram concedidos, à revelia das ordens expressas do Governo. Sónia Louro volta a pegar no que terá sido a realidade e tece-a em formato de romance, demonstrando grande capacidade de escolha sobre a “personagem” elegida. Como se a decisão que o imortalizou não se bastasse, Aristides levou uma vida capaz de manter o interesse do leitor, e que a autora dá a conhecer, não lhe ocultando também os defeitos, e tomando por base uma pesquisa que se nota no próprio texto, sem necessidade das constantes notas de rodapé, a indicar de onde se adquiriu esta ou aquela informação, e que acabam por se tornar morosas pela sua quantidade, sendo uma interrupção frequente à leitura.

A narrativa não é linear, com os capítulos alternando entre episódios da vida anterior e os momentos de acção em Bordéus que o tornaram conhecido. Apesar de se tratar de um mecanismo que por si só não é negativo, acaba aqui por ter esse efeito, na medida em que é desnecessário à narração, e acaba por lhe criar rupturas. Outro ponto negativo prende-se com a revisão, que deixou passar falhas de pontuação – em particular nos diálogos – e gralhas como uma ou outra troca entre os nomes dos filhos da personagem.

O maior ponto positivo, por outro lado, prende-se com o desenvolvimento gradual das acções em Bordéus: não sendo demasiado apressada nem demasiado lenta, a autora conseguiu uma apresentação realista e emocional do que terá sido uma decisão feita pouco a pouco, com as dúvidas e hesitações que além de humanizarem a personagem, tornam ainda mais louvável a decisão da pessoa.

Trata-se, portanto, de uma leitura que permite um maior conhecimento sobre o homem, não esquecendo que ainda que biografia, não deixa de ser um romance.

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“O Defunto”, Eça de Queirós

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QUEIRÓS, José Maria Eça de – O Defunto, [s.l.], Projecto Adamastor, 2013

Sinopse: “Ela ficara sobre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e levada! Quem era esse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, tão quieta, tão pouco povoada de memórias e de homens? E ele decerto a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era coisa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa…

Assim, um homem, e moço decerto bem nascido, talvez gentil, penetrava no seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tão intimamente mesmo se entranhara esse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que já para ele se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para ele subir, se arrumava de noite uma escada!… E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada… Para quê?…”

Opinião: Um conto em cinco partes onde o ódio gerado pelo ciúme cego e infundado do vilão leva ao amor entre o casal protagonista, numa reminiscência às tragédias gregas, onde as profecias dos oráculos se concretizavam exactamente ao tentar-se serem evitadas, depois de conhecidas. A principal linha seguida é, no entanto, a dos contos-de-fadas onde o herói em desvantagem (e na ignorância) é auxiliado por uma entidade sobrenatural – neste caso também com um cariz cristão. Esta influência denota-se ainda nas personagens, construídas segundo os ideais primórdios deste género – a mulher bela, pura e inacessível; o herói crente, respeitador, gentil, mas que não recusa também a oportunidade de consumar o seu amor, etc –, e em função do papel que representam.

Apesar de alguma repetição – como que a querer garantir que determinadas ideias ficam bem vincadas no leitor – é, em termos narrativos, um dos escritos mais fáceis de acompanhar do autor. Talvez por não se inserir tanto no realismo, não se nota a mesma ênfase em detalhar ao ínfimo o ambiente e a sociedade envolventes, o que leva a uma narrativa mais enxuta.

Este conto pode ser adquirido gratuitamente aqui.