“A Confissão de Lúcio”, Mário de Sá Carneiro

lúcio

CARNEIRO, Mário de Sá – A Confissão de Lúcio, [s.l.], Projecto Adamastor, 2013

Sinopse: “Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi; morto para a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar e coisa alguma desejando — eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é: demonstrar a minha inocência.

Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro, é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples, é esta.”

Opinião: Associamos confissão à admissão de algo negativo, de algo feito de mau e para o qual desejamos expiação. Apesar de ser, a seu modo, uma expiação, a história contraria essa ideia, começando assim por surpreender o leitor logo no início: algo que torna a relação título/obra num factor de engenho.

O narrador autodiegético pretende, então, deixar por escrito a sua inverosímil inocência de um crime cuja pena expiou durante dez anos em prisão, não por desejar ser ressarcido ou por considerar que tal lhe trará alguma alteração de espírito, mas puramente pela necessidade de partilhar. Trata-se de um drama existencial com traços de fantasia, onde a única personagem sem grandes características ou desenvolvimento – a mulher – é-o propositadamente e com uma função em mente. As restantes têm uma caracterização contínua ao longo da narrativa, tanto directa quanto indirecta, cujo maior ou menor grau se prende também com o peso e importância que têm para o enredo.

Apesar de trechos onde há um alongamento e repetição desnecessários – característica da época – e das falhas de utilização de vírgulas (onde é dada prioridade ao “efeito” e se acaba por colocar vírgula entre sujeito e predicado, por exemplo), a narrativa é, no seu geral, agradável à leitura, destacando-se o vocabulário excelso, mas acessível.

Esta obra encontra-se disponibilizada pelo projecto Adamastor, de forma gratuita, aqui.

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