“Os Espiões”, Luis Fernando Verissimo

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VERISSIMO, Luís Fernando – Os Espiões, [s.l.], Alfaguara, 2009

Sinopse: Luis Fernando Verissimo constrói, neste livro, uma alegoria híbrida de mitologia, humor e mistério. Ainda se curando da ressaca do final de semana, na manhã de uma terça-feira, o funcionário de uma pequena editora recebe um envelope branco, endereçado com letras de mãos trêmulas. Dentro, as primeiras páginas de um livro de confissões escrito por uma certa Ariadne, que promete contar sua história com um amante secreto e depois se suicidar. Atormentado por sonhos românticos, esse boêmio frustrado com seu casamento, e infeliz no trabalho, decide tomar uma atitude – descobrir quem é Ariadne e, se possível, salvá-la da morte anunciada. Na mitologia grega, ela ajuda Teseu a sair do labirinto. No entanto, o autor cria uma Ariadne ao contrário, que vai enfeitiçando o protagonista e seus amigos de bar, os espiões deste livro.

Opinião: Quando o editor de uma vanity recebe o primeiro capítulo de uma obra que, apesar dos erros ortográficos, lhe despoleta o interesse numa vida que tem como falhada, é despoletado também o enredo. Segue-se um mistério policial em povoação pequena, onde a investigação é levada a cabo por um grupo de homens estarolas, fazendo uso tanto dos capítulos que vão chegando quanto das informações que vão conseguindo in loco. Estas informações chegam ao narrador, o editor, por vias de terceiros, estando portanto limitadas tanto à visão desses terceiros, como são depois moldadas à livre interpretação feita pelo narrador, que se vê como o herói salvador de uma pura donzela romanesca.

Ao longo da leitura nota-se a exímia comédia caricatural tanto ao meio editorial quanto à acção populacional em meios pequenos, assim como à tendência de tirar conclusões erróneas por puramente se ter em conta a própria percepção, ignorando a mais geral. Contribuem também para esta caricatura as personagens, que apesar de à primeira vista parecem apenas um conjunto de criaturas excêntricas pelo mero objectivo da comédia, acabam por ir relevando o seu propósito e demonstrando uma alteração de atitudes e comportamentos em consequência dos eventos.

A conjugação de tudo o acima indicado gera uma leitura crítica e divertida, com o final que se esperaria.

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“Anjos”, Carlos Silva

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SILVA, Carlos – Anjos, Aveiro, Divergência, 2017

Sinopse: Numa Lisboa futurista, reconstruída após um terramoto ainda maior do que o de 1755, a informação é mais preciosa do que nunca. A mais delicada e desejada não pode correr o risco de circular pela omnipresente internet – tem de voar sobre ela, nas mãos inefáveis daqueles que se autointitulam de Anjos.

Mas nem eles estão seguros, agora que os seus inimigos sabem da terrível arma da qual são guardiões. Um engenho apenas possível no passado, capaz de inverter a balança de poder na nova cidade. O círculo está a apertar, cada vez mais letal. Ninguém sairá ileso.

 

Opinião: Um enredo de acção e mistério ambientado num worldbuilding científico-futurístico de cujos detalhes a trama não se acanha em tirar partido. É muita a informação que é necessário transmitir ao leitor, não apenas em relação ao funcionamento da sociedade e das tecnologias nela utilizadas, como também às personagens, que apesar de três ou quatro que mais se evidenciam, tem ainda um núcleo principal consideravelmente numeroso. Durante grande parte da narrativa essa transmissão é conseguida, com um bom equilíbrio entre o tell e o show, e não havendo uma ânsia de “despejar” informação logo num primeiro momento, sendo esta dada aos poucos e conforme a sua necessidade. Momentos há, contudo, em que não é tão bem conseguido, em especial no que respeita às personagens – algumas por não terem sido tão desenvolvidas quanto necessário, outras pela morte repentina e off screen que, pela posição que detêm no enredo e para o leitor, se tornou demasiado abrupta, sem necessidade.

O enredo desenvolve-se de forma lógica e estruturada, sendo que os plot twists acabam por ser deduzidos, também por esse motivo, momentos antes de se revelarem oficialmente ao leitor. Em relação à narração, segue também um registo também bastante factual, seguindo o mesmo tom quer descreva acção, quer aborde mais um desenvolvimento sentimental de uma personagem.

O mais negativo a apontar serão as gralhas – de pontuação ou palavras trocadas, por exemplo – que são constantes no texto, tendo escapado à revisão.

“A Confissão de Lúcio”, Mário de Sá Carneiro

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CARNEIRO, Mário de Sá – A Confissão de Lúcio, [s.l.], Projecto Adamastor, 2013

Sinopse: “Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi; morto para a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar e coisa alguma desejando — eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é: demonstrar a minha inocência.

Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro, é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples, é esta.”

Opinião: Associamos confissão à admissão de algo negativo, de algo feito de mau e para o qual desejamos expiação. Apesar de ser, a seu modo, uma expiação, a história contraria essa ideia, começando assim por surpreender o leitor logo no início: algo que torna a relação título/obra num factor de engenho.

O narrador autodiegético pretende, então, deixar por escrito a sua inverosímil inocência de um crime cuja pena expiou durante dez anos em prisão, não por desejar ser ressarcido ou por considerar que tal lhe trará alguma alteração de espírito, mas puramente pela necessidade de partilhar. Trata-se de um drama existencial com traços de fantasia, onde a única personagem sem grandes características ou desenvolvimento – a mulher – é-o propositadamente e com uma função em mente. As restantes têm uma caracterização contínua ao longo da narrativa, tanto directa quanto indirecta, cujo maior ou menor grau se prende também com o peso e importância que têm para o enredo.

Apesar de trechos onde há um alongamento e repetição desnecessários – característica da época – e das falhas de utilização de vírgulas (onde é dada prioridade ao “efeito” e se acaba por colocar vírgula entre sujeito e predicado, por exemplo), a narrativa é, no seu geral, agradável à leitura, destacando-se o vocabulário excelso, mas acessível.

Esta obra encontra-se disponibilizada pelo projecto Adamastor, de forma gratuita, aqui.

“Histórias do Fim da Rua”, Mário Zambujal

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ZAMBUJAL, Mário – Histórias do Fim da Rua, Lisboa, Quetzal, 1987

Sinopse: Depois do enorme sucesso de ‘Crónica dos Bons Malandros’ – 14 edições e uma adaptação ao cinema – Mário Zambujal regressa com ‘Histórias do Fim da Rua’, uma novela que decorre numa rua antiga de Lisboa, onde as histórias – divertidas ou dramáticas – dos seus moradores de sempre, se misturam com a história de Sérgio – perdão, Dr. Sérgio – e Nídia, sua mulher, habitantes recentes. A rua, tal como o casamento de Sérgio e Nídia, estão ameaçados. Novos planos urbanísticos num caso, a usura do tempo ou a rotina dos dias, no outro. num estilo ágil, aberto e amadurecido, Mário Zambujal leva o leitor a participar, a divertir-se, a «torcer» por um ou dos outros personagens numa obra que vem a confirmar a aceitação unânime do seu livro de estreia.

 

Opinião: Um livro curto que ao longo de capítulos igualmente curtos vai dando a conhecer alguns dos habitantes mais caricatos de uma rua em particular em Lisboa, onde o ambiente e interacções de aldeia ainda se mantêm, apesar de pertencer a cidade. Ainda que todos os capítulos sejam em primeira pessoa, o narrador vai-se alternando, passando por várias das personagens comentadas num e noutro capítulo, mas predominando sem dúvida as narrações de Sérgio e Nídia, o casal de um estatuto social acima dos demais, que em paralelo com a rua recontam a história do casamento falhado, agora prestes a findar-se com um jantar de divórcio. De enredo não tem muito, fica-se pelo já dito. O foco encontra-se na caracterização indirecta das personagens e no seu desenvolvimento, feito aos remendos e através de diversos pontos de vista, em que o acontecimento que é apresentado por um, aparece reconhecido de modo diferente por outro dois capítulos a seguir. A escrita a isto contribuiu, adoptando uma informalidade que se flexibiliza para melhor se adaptar ao narrador do momento, como se de uma conversa – melhor dizer, fala – se tratasse em vez de escrita.

Apesar destas bem conseguidas contextualização e caracterizações, não considerei o melhor do autor, na medida em que conheço obras onde consegue o mesmo, sem ficar o enredo desfalcado. Ademais, o plot twist final em relação a Sérgio e Nídia tornou-se esperado e sem bases dentro do desenvolvimento do enredo que o justificassem. Mais inovador teria sido manter a ideia original.