“Os Loucos da Rua Mazur”, João Pinto Coelho

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COELHO, João Pinto – Os Loucos da Rua Mazur, Alfragide, Leya, 2017

Sinopse: Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.

Paris, 2001. Yankel – um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama – recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram – e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk – hoje um escritor famoso – está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne – a editora que não diz tudo o que sabe –, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.

Opinião: Este livro é uma manta de retalhos. Inicialmente segue uma estrutura mais ou menos linear, em que o presente demonstra assuntos por resolver, mas que é, no seu essencial, uma razão para retornar ao passado, onde aí sim o enredo central se desenrola. O desenvolver da narrativa reformula, contudo, estes conceitos, e, sem nunca deixar de ir dando a conhecer o passado – com um ou outro detalhe que fica em questão ter sido real ou invenção de Eryk –, as linhas começam a cruzar-se e a intercalar-se, acabando por, na sua mescla, formar o bordado final. Através desta (des)construção narrativa, o autor constrói um livro dentro de um livro, dando ao leitor os segmentos que constituem a narração.

O segundo factor que se destaca são as personagens. O trio principal – Yankel, Eryk e a rapariga –, caracterizado tanto directa quanto indirectamente, começa por despertar a curiosidade não apenas pelas suas peculiaridades, mas pela comparação passado/presente com que ao início nos deparamos (não apenas pela sua personalidade, mas essencialmente no respeitante à relação que têm entre si). O seu crescimento é visível com o avançar narrativo, bem como a sua construção, que se revela contínua. As demais personagens, contudo, interpretei-as enquanto personagens-tipo, representantes de algo ou alguém (uma classe, uma ideologia, um comportamento, uma função, etc), não sendo a sua representação inteiramente fiável, na medida em que é deixado claro que Yankel não é imparcial no modo como as escreve.

Vale ressalvar, por fim, a temática. Sabendo do contexto histórico, imaginamos não ser bom o que espera esta cidade polaca. Mas nem esse conhecimento, nem a sinopse e a publicidade, preparam para o final com que nos deparamos: sendo pior o saber-se ser baseado em acontecimentos verídicos. Numa actualidade que já esteve mais afastada de repetir erros passados, é um relembrar assombroso das consequências a que patamar a patamar se corre o risco de ir chegando.

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