“A Pirata”, Luísa Costa Gomes

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GOMES, Luísa Costa – A Pirata, Lisboa, Dom Quixote, 2006

Sinopse: A história aventurosa de Mary Read, pirata das Caraíbas. A Pirata é uma biografia ficcionada da célebre Mary Read, uma das poucas mulheres-pirata e que há memória. Conhece-se a história de Mary Read pela breve descrição que dela faz o capitão Charles Johnson na História Geral dos Piratas. Sabe-se que nasceu em Inglaterra, que foi soldado na Flandres e que foi capturada na Jamaica com a tripulação do famoso capitão Calico Jack Rackam e a sua amante, a terrível Anne Bonny. Condenadas à morte na forca, Mary Read e Anne Bonny viram a sentença adiada por estarem grávidas. Mary Read veio a morrer na prisão, em Abril de 1721.

 

Opinião: Considerar a obra como uma biografia, ainda que ficcionada, é puxar a brasa à sardinha. Em capítulos curtíssimos, cada qual começando com uma “sinopse” indicando os acontecimentos do capítulo em questão, é adoptado um tom informal, mais próximo ao de um conto tradicionalmente oral, com intervenções directas do narrador, ainda que o dito não seja uma personagem. Há um desequilíbrio enorme entre o show e o tell, a pesar para este último, que torna a história morosa. Os eventos não são aprofundados, nem as personagens desenvolvidas, levanto a uma falta de empatia.

Em suma, um livro que ficou aquém das expectativas, desiludindo pelo modo como escolheu apresentar a proposta escolhida.

“Os Monstros Que Nos Habitam”, VVAA

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VVAA – Os Monstros Que Nos Habitam, Aveiro, Divergência, 2017

 

Sinopse: Os mortos erguem-se das campas e os espíritos rondam a calçada. O mal vive nas pedras de uma mansão. Os cientistas criam monstros inimagináveis e um homem planeia apoderar-se do mundo das sombras. Uma escritora vê os seus desejos mais sombrios tornarem-se realidade.

 

Opinião: Como é já costume, seguem as opiniões a cada conto em concreto, ao invés de uma opinião geral à antologia:

“A Maldição de Odette Laurie”, Nuno Ferreira: Seguindo o setting da aldeia isolada e quase despovoada, o conto faz uso de bruxas e zombies como elementos. O título desperta interesse, mas que a narrativa não é capaz de o manter, não apenas pelos episódios desnecessários, que não contribuem para a trama, mas essencialmente pela falta de desenvolvimento, tanto das personagens quanto do enredo.

“Vento Parado”, Ângelo Teodoro: A premissa não é algo que não se tenha já visto antes, um bom número de vezes: o escritor dilacerado (no caso pela morte da mulher), incapaz de escrever, que se enfia num local recôndito e acaba por lidar com o sobrenatural. Consegue, contudo, manter a atenção do leitor pelo bom uso que faz dos elementos que apresenta, e pelo bom pacing do enredo. São ainda de notar algumas falhas de pontuação, nomeadamente em relação a vírgulas, e à pontuação nos diálogos.

“A Essência do Mal”, Alexandra Torres: Numa narração em primeira pessoa, acompanhamos uma mulher que, ao fugir do marido abusivo, acaba por se tornar num outro tipo de prisioneira. Pareceu-me que a intenção seria que o leitor compreendesse o desenrolar do mistério sensivelmente ao mesmo tempo que a protagonista. Todavia, a descrição em mudança do antagonista evocou-me Dorian Gray o que, adaptado às informações fornecidas no conto, me levou a adivinhar o plot twist bastante antes de o dito ocorrer. Também aqui notei algumas falhas de pontuação, e o facto de as personagens poderem ter sido mais desenvolvidas – em particular a protagonista, cujo passado é dito, mas pouco desenvolvido, o que leva falha em relação à empatia.

“Génesis”, Patrícia Morais: Num mundo dominado por homens pouco inclinados em alterar o status quo, uma cientista utiliza todos os cartuxos para impedir que o pior – um pior desenvolvido com grande ajuda das suas próprias pesquisas – aconteça. Tem um bom setting e uma conjugação de temas reflectores da actualidade, onde o final em aberto se torna aqui consistente. De notar a ironia tanto do título quanto dos nomes das personagens. Também neste conto, contudo, se notaram falhas de pontuação.

“O Canto da Sereia”, Soraia Matos: Apesar de se compreender sem dificuldade o enredo, o conto dá indicação de ser um trecho de algo maior, pecando também por um final algo apressado e confuso. Mais uma vez, nota-se falhas de pontuação, em particular no respeitante às vírgulas (vírgulas utilizadas em locais desnecessários, falha de vírgulas em vocativos, vírgulas entre sujeito e predicado, etc). As personagens encontram-se bem construídos e capazes de causar empatia, e o que é demonstrando do wordbuilding (desenvolvido dentro dos parâmetros da Fantasia Urbana) não apenas é consistentes, como também interessante, despertando curiosidade para mais.

“Páginas Assassinas”, Carina Rosa: A obsessão de uma jovem escritora e uma série de assassinatos são o mote deste conto, último da antologia. O enredo é simples, e não demonstra intenções de surpreender o leitor com revelações bombásticas e mistérios intricados. Ainda assim, o final consegue surpreender por um único detalhe, relativo aos próprios conhecimentos da protagonista, que até ao momento se julgava como sendo mais “inocente”. Ademais, o conto encontra-se muito bem desenvolvido, com um pacing e uma narrativa que o destacam.

“Limões na Madrugada”, Carla M. Soares

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SOARES, Carla M. – Limões na Madrugada, Lisboa, Cultura, 2017

Sinopse: Ansiosa por regressar à Argentina, mas presa a Portugal, distante do homem que ama e da mulher com quem vive, Adriana está perante um dilema universal e intemporal: manter-se comodamente na ignorância ou desvendar o passado da família, como se de um caso policial se tratasse, enfrentando assim aquilo de que andou a fugir toda a vida, por mais doloroso que seja.

Num jogo magistralmente imaginado pela autora, entre a vida atual de Adriana e os ecos do Portugal antigo, machista e violento dos seus pais e avós, esta história, de uma família e dois continentes, é uma viagem entre o presente e o passado, uma ponte sobre o fosso cultural que separa as gerações, um tratado sobre tudo aquilo que a família pode fazer à vida de um só indivíduo.

Entre a sombra e a luz, deixando que por vezes os silêncios falem mais alto do que as palavras, Limões na Madrugada é um romance sobre o amor incomum, o poder da família e a necessidade da coragem.

Opinião: Contemporâneo, Limões na Madrugada é um romance de personagem: introspectivo, onde a descoberta da história da família acompanha a auto-compreensão e auto-descoberta da protagonista, por ela assim o associar. Narrada em primeira pessoa, a história alterna entre as reminiscências da Argentina, e o presente no Porto, cidade que, descrita sob o olhar de “turista”, emoldura o cenário. Apesar de esta alteração saltar entre tempo e espaço, não seguindo uma linha temporal contínua – em particular nos capítulos correspondentes ao tempo na Argentina –, a sua compreensão não se torna confusa, o que se deve essencialmente a dois factores: O primeiro prende-se com o facto de a Argentina corresponder a uma descoberta unicamente por parte do leitor do passado de Adriana, a protagonista, enquanto o Porto é associado a uma descoberta tanto do leitor quanto de Adriana do passado familiar. O segundo diz respeito ao núcleo de personagens que domina num e noutro espaço, não apenas bastantes demarcadas na sua construção e personalidade, mas também do papel que desempenham no enredo.

Trata-se, ainda, de um enredo simples, sem grandes percalços no seu desenvolvimento, e levado a cabo em capítulos curtíssimos, factores que facilitam ao leitor manter o fio à meada neste tipo de vai-e-vem narrativo.

De reconhecível das restantes obras da autora temos a escrita, agradável à leitura e capaz de manter interesse e atenção. Tanto o uso vocabular quanto as construções frásicas conseguem um meio-termo, em que não caem numa simplicidade excessiva, nem se deixam levar num trabalhado superficial.

Por fim, as personagens: o tipo de romance e narrativa levam a que o foco se encontre indubitavelmente na protagonista, sendo a sua percepção aquilo que chega ao leitor. Em consequência, o conhecimento do leitor no que respeita às personagens é limitado e parcial. Não deixam, contudo, de se encontrar bem construídas, não sendo o seu papel secundário razão para se apresentarem como cartão.

Não reconheci na leitura o laivo de realismo mágico que me pareceu ter-se querido atribuir à obra – os elementos que possui que a poderiam aproximar desse género são encarados pelas personagens como algo fantasioso e anormal, não com a naturalidade que marca e distingue o género. É, contudo, um bom romance, e um bom romance de personagem.