Top5 – Leituras 2017

Decidi fazer o que todos os anos já outros fazem, mas que para mim é novo: um top5 de leituras do ano (kudos para todos os que já o haviam percebido pelo título, que atentos). Trata-se de uma lista baseada única e exclusivamente em gosto pessoal, e que abarca todas as leituras feitas durante o ano, não apenas as que foram agraciadas com uma resenha no blog. Nenhum dos livros virá com crítica a acompanhar, apenas uma rápida opinião e a respectiva sinopse – tanto título quanto sinopse serão aqui colocado em conformidade com o idioma em que foram lidos, pois ou detestei de morte as traduções dadas em português, ou simplesmente não as há, e democraticamente pareceu-me a decisão mais correcta. Avancemos:

 

“Simon vs The Homo Sapiens Agenda”, Becky Albertalli

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Livros narrados na primeira pessoa não costumam cair-me no goto, mas quando há excepções, é para serem uma senhora de uma excepção. Facilmente o livro que mais gostei este ano, em torno do crescimento da personagem, receosa de mudanças, e em particular de ser perpectivada pelos outros de modo diferente.

Sinopse: “Sixteen-year-old and not-so-openly gay Simon Spier prefers to save his drama for the school musical. But when an email falls into the wrong hands, his secret is at risk of being thrust into the spotlight. Now Simon is actually being blackmailed: if he doesn’t play wingman for class clown Martin, his sexual identity will become everyone’s business. Worse, the privacy of Blue, the pen name of the boy he’s been emailing, will be compromised.

With some messy dynamics emerging in his once tight-knit group of friends, and his email correspondence with Blue growing more flirtatious every day, Simon’s junior year has suddenly gotten all kinds of complicated. Now, change-averse Simon has to find a way to step out of his comfort zone before he’s pushed out—without alienating his friends, compromising himself, or fumbling a shot at happiness with the most confusing, adorable guy he’s never met.”

 

“A Rainha Subjugada”, Philipa Gregory

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Tendo lido vários livros da autora, é realmente com os romances em torno dos Tudor que ela se destaca. Catarina Parr, a última das rainhas de Henrique VIII, é aqui a protagonista e narradora, tendo a sua personagem uma construção muito bem conseguida (baseada no pouco que nos chega), e capaz de criar empatia com o leitor. Ademais, a escrita de Gregory consegue um equilíbrio entre as descrições do espaço envolvente, e as introspecções das personagens, criando uma leitura agradável, onde mal se percebe o tempo passar.

Sinopse: “Intriga, ambição, poder, amor e história, com uma pesquisa rigorosa e contada de forma soberba sobre Catarina Parr. A última e sexta mulher sobrevivente de Henrique VIII. Uma mulher forte, intelectual, culta e de uma beleza cativadora.”

 

“O Covil Dos Lobos” (Blackthorn e Grimm #3), Juliet Marillier


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O livro que encerra uma trilogia que honestamente achei que seria uma saga. Não é o melhor de Marillier, mas tem os elementos que tornam único o seu trabalho: personagens marcantes, com relações bem construídas, um enredo cativante e engendrado, e um worldbuilding em que o real e a fantasia se entrelaçam. Ademais o “não é o melhor de” é o “melhor que” muitos outros bons autores conseguem.

Sinopse: “Blackthorn conhece bem as regras: não procurar vingança, ajudar qualquer pessoa que pedir e praticar apenas o bem. Mas depois da provação recente que ela e Grim sofreram sabe que tem de encontrar o homem que lhe arruinou a vida.”

 

“O Assassino do Bobo” (O Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

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Alienada como andei este ano, foi uma surpresa entrar na livraria e descobrir que a saga mais recente de Hobb já estava a ser trabalha em Portugal. Para quem desconhece a saga, não é um bom começo. O livro é lento, sendo praticamente uma introdução. Para quem já é fã, ler sobre as personagens que conhece – plus as novas e as suas reacções às ditas – é um regresso a casa, que não se torna moroso não apenas pela nostalgia, mas essencialmente pela capacidade narrativa de Hobb, e das pequenas tramas com que vai lidando enquanto a trama maior vai tomando o seu lugar, pouco a pouco, quase como que pelo canto do olho.

Sinopse: “Tomé Texugo tem levado uma vida pacífica há anos, retirado no campo na companhia da sua amada Moli, numa vasta propriedade que lhe foi agraciada por serviços leais à coroa. Mas por detrás da sua respeitável fachada de homem de meia-idade, esconde-se um passado turbulento e de violência. Na verdade, ele é FitzCavalaria Visionário, um bastardo real, utilizador de estranhas magias e assassino. Um homem que tudo arriscou pelo seu rei, com grandes perdas pessoais. Até que, numa noite fatídica, um mensageiro chega com uma mensagem que irá transformar o seu mundo. O passado arranja sempre forma de se intrometer no presente, e os acontecimentos prodigiosos de que foi protagonista na companhia do seu grande amigo, o Bobo, vão voltar a enredá-lo. Se conseguirem, nada na sua vida ficará igual…”

 

“How the Marquis Got his Coat Back”, Neil Gaiman


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Um curto e engraçado, spinoff de “Neverwhere”, onde se descrever como conseguiu o Marquês o seu casaco de volta (para quem ainda tinha dúvidas de ser esse o enredo). Dois pontos essenciais são aqui desenvolvidos: a personagem do Marquês; e o sistema de metro de Londres. Da Outra Londres, digo.

Sinpose: “The coat. It was elegant. It was beautiful. It was so close that he could have reached out and touched it.”

And it was unquestionably his.”

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“O Coro dos Defuntos”, António Tavares

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TAVARES, António – O Coro dos Defuntos, Alfragide, Leya, 2015

 

Sinopse: Um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974.

Vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos.

Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro.

E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça.

Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar…

 

Opinião: Em capítulos muitos curtos – de três ou quatro páginas – a narrativa vai seguindo, num linguajar excessivo pelo abuso de palavreado mais incomum e regionalismos, não tendo havido o cuidado num equilíbrio vocabular. Como indicado na sinopse, o enredo ambienta-se numa aldeia do interior português durante a ditadura, pegando num punhado de personagens-chaves que por um motivo ou por outro se destacam na povoação. Inicialmente o enredo desenrola-se sem que pareça ter fio de condutor. À medida que avançamos vamos discernindo a linha de enredo, que contudo se mantém demasiado leve.

Não foi uma leitura que me tenha agradado por aí além. A premissa seria interessante – dentro do esperado num prémio Leya – e as personagens têm potencial para se tornarem únicas. Tanto a narrativa quanto o enredo, contudo, são erráticos, e apenas ao fim de algum tempo é que se depreende uma espécie de continuidade. Esse factor, aliado ao estilo de escrita, levou a que tenha considerado a leitura abaixo das expectativas, e aquém do título, um dos melhores que já considerei.

“Uma Outra Voz”, Gabriela Ruivo Trindade

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TRINDADE, Gabriela Ruivo – Uma Outra Voz, Alfragide, Leya, 2013

 

Sinopse: Cinco vozes, uma história de família que se cruza com um século de História de Portugal.

João José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.

Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.

 

Opinião: Ao início da narrativa fica o leitor com a impressão de que irá acompanhar vários elementos, e gerações, de uma família. À medida que a leitura avança, contudo, chega a compreensão de que todas as vozes, todos os focos narrativos, ainda que dando a conhecer um pouco da sua personagem-núcleo são perspectivas que se aglutinam na caracterização (e descoberta) de uma só personagem: a última a ter a sua voz, mas que nunca deixa de se encontrar omnipresente. No final, todas os episódios e histórias acabam por ser elementos que dão a conhecer a sua.

A linha temporal não é contínua, apresentando avanços e recuos. Numa primeira fase cada “voz”, além da história mais pessoal que dá a conhecer, contém também um evento familiar marcante – um casamento ou um funeral, por exemplo – “reminiscente” e outro do seu “presente”. A “voz” seguinte pega no “presente” anterior como seu “reminiscente”, e apresenta um “presente”, gerando assim um ciclo que auxilia o leitor a situar-se no espaço temporal, até que o seu conhecimento sobre as personagens e respectivas histórias seja o bastante para não necessitar desta bengala, que prontamente desaparece.

Trata-se de uma narrativa que prende, com uma estrutura interessante, da qual apenas julguei desnecessária ao enredo a “voz” do jovem inserido na Revolução, visto parecer uma peça extra num puzzle onde não se encaixa.