“O Rastro do Jaguar”, Murilo Carvalho

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CARVALHO, Murilo – O Rastro do Jaguar, Alfragide, Leya, 2009

Sinopse: Estamos no virar do século XIX em Congonhas do Campo. Pereira, um antigo jornalista de origem portuguesa, revisita as suas memórias, que percorrem todo o conturbado período da segunda metade do século. Através do relato da sua viagem, Pereira, que deixara Paris com o seu grande amigo e companheiro Pierre, leva-nos a conhecer o Brasil em guerra com o vizinho Paraguai, no período mais decisivo da sua história. Uma guerra sangrenta que o Brasil trava ao lado da Argentina e do Uruguai e que, para Pereira e Pierre, será o momento decisivo das suas vidas. É também a guerra pelo espaço vital das populações índias que, humilhadas pela acomodação forçada às regras e vivências dos colonos, tentam recuperar a sua Terra Mítica onde o Mal não existe. É ainda a guerra travada por Pierre para se definir a si mesmo: índio, como o seu povo, ou europeu, tal como foi criado? Levado em criança por Auguste de Saint’ Hillaire do Brasil para França, descobre, já adulto, nas feições de dois índios presos, a chave para as suas raízes nunca explicadas. Raízes que vai encontrar nesse cruzamento do Rio da Prata onde brasileiros e paraguaios morrem aos milhares e os índios guarani lutam por uma terra onde possam de novo viver livres e em paz. Da França à Argentina, do Brasil ao Paraguai, do sertão nordestino aos planaltos do Sul do Brasil, Pereira relata-nos de uma forma empolgante e quase cinematográfica as grandes transformações que definiram a América do Sul. Pelo caminho, encontra o amor perfeito e Pierre a pátria a que, junto dos seus, pode chamar sua.

Baseado em factos verídicos e personagens reais, O Rastro do Jaguar é um fresco dos intensos choques culturais e sociais que marcaram o século XIX e a relação dos europeus com as suas antigas colónias agora independentes.

 

Opinião: O que temos nesta narrativa é uma construção de identidade: de um país, de um povo e de um homem. Sendo o senso de identidade algo que contém grande número de elementos, nenhum deles de percepção simples, também a moldura do romance se constrói por uma variedade de elementos e ambientes.

Através dos seus escritos, e do eventual relato epistolar, Pereira, o narrador, dirige-se ao leitor num relato em media res, intercalado com as suas filosofias, e vez ou outra recuperando a descrição do seu presente. O que começa por ser um romance de personagem, de procura interior, escala para uma esfera mais abrangente: a sobrevivência de um povo por outro subjugado; a crise política de um país descontente e em reboliço; o horror de uma guerra onde a ambiguidade se espalha. O que de melhor a narrativa faz é como concretiza esta busca, esta caminhada, que não chega a ter fim.

Também as personagens que se encontram directamente relacionadas com este busca tiveram a atenção do autor na sua construção, encontrando-se bem cimentadas e desenvolvidas. A caracterização é conseguida tanto de forma directa quanto indirecta, e as alterações pelas quais passam são fundamentadas e visíveis, fruto de uma cadeia de vivências. As que não detêm esta ligação à busca, contudo, não auferiram do mesmo cuidado: Francisca, por exemplo, o grande amor de Pereira e que tantas vezes é referida, é uma personagem plana de quem pouco se sabe, essencialmente apresentada por aquilo que representa para o narrador, e praticamente nada por ela própria.

A leitura é, contudo, maçuda. Apesar da alternância entre a descrição de episódios, do enredo, e a exposição às considerações do narrador, estas últimas dão-se com frequência, e maioritariamente em torno dos mesmos assuntos.

Julgo tratar-se de um romance que me seria mais interessante de utilizar como ponto de partida para estudo dos temas que utiliza, do que como leitura de tempo livre.

“O Meu Irmão”, Afonso Reis Cabral

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CABRAL, Afonso Reis – O Meu Irmão, Alfragide, Leya, 2014

Sinopse: Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana.

Numa casa de família, situada numa aldeia isolada no interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.

 

Opinião: Através de um narrador homodiegético e pouco confiável, o leitor é apresentado a um enredo que acompanha bastante a tendência da literatura portuguesa actual. O tempo narrativo alterna a cada capítulo entre o passado dos irmãos (desde a infância até ao evento, já em adultos, que se torna no clímax), e o presente isolado e dado à introspecção, numa aldeia despovoada no interior de Portugal. Não é uma história que se valha por reviravoltas ou acções/consequências inesperadas, sendo que até o “estranho episódio” do clímax mencionado na sinopse se torna adivinhável em determinado ponto.

O estilo narrativo parece experimental, um testar de águas. Ajudando à ideia de uma escrita interligada com a consciência do narrador, a diferente formatação leva a que determinados trechos sejam visualizados como apartes necessários, mas secundários – similares aos pensamentos paralelos que frequentemente temos. Não sendo um estilo fenomenal, parece cumprir aquilo a que se propõe, sendo no mínimo curioso.

O que de mais positivamente se destaca no romance são as personagens. A superficialidade ou complexidade com que são apresentadas ao leitor varia conforme a importância que lhes é dada pelo narrador. Assim, enquanto as irmãs têm uma presença praticamente rasa, os vizinhos na aldeia já são representados em maiores detalhes – ainda que presos às opiniões do narrador, cabendo ao leitor as deduções nas entrelinhas. Já Miguel e o narrador têm uma muito maior riqueza na respectiva caracterização, conseguida essencialmente de forma indirecta. É esta profundidade que permite a compreensão das motivações e reacções de cada um: ainda que não a sua aceitação; não me consigo impedir o pouco profissional comentário de expressar quão otário considerei o protagonista, logo nos inícios da leitura. O final veio comprovar que de facto o era, e ainda mais, mas fica no ar a indicação de que o círculo fecha e pouco se altera.