“O Ano da Dançarina”, Carla M. Soares

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SOARES, Carla M. – O Ano da Dançarina, Lisboa, Marcador, 2017

Sinopse: No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.

No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.

Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.

Opinião: Mais uma vez, Carla Soares consegue entregar um romance que entretém ao mesmo tempo que contextualiza o leitor numa época história portuguesa: no caso, o ano em que a “espanhola” visitou um país já muito afectado pela guerra e pelas quezílias políticas. Como indicado na sinopse, Nicolau é o protagonista e a personagem que maioritariamente é apresentada no fio condutor do enredo. Não deixa, contudo, de ser um romance de família, sendo as venturas e desventuras do núcleo familiar – e daqueles que lhes são próximos – também de grande peso na narrativa e seu desenvolvimento.

São várias as personagens utilizadas – todas com diferentes graus de importância e desenvolvimento –, tornando-se distintas pelos traços que as caracterizam e que desde cedo são indicados à compreensão do leitor, quer por caracterização directa quer indirecta. Considerei apenas que algumas falham em termos de “ribalta”, ou seja, não se encontram mal construídas, mas as suas aparições são parcas e usualmente centradas nas reacções que têm aos eventos protagonizados por outras personagens, o que levou à sensação de se tornarem mais um acessório às restantes personagens, que personagens per si.

Um factor que se me destacou foi a condução do enredo e o desenvolvimento temporal. Por um lado, cada ponto de viragem vem como consequência de actos e decisões anteriores, que foram crescendo para aquele momento, sedimentando-o: reviravoltas caídas do céu não têm aqui lugar. Por outro lado, temos o desenvolvimento de Nicolau, à medida que o vemos a lidar com o trauma pós-guerra, algo que foi bem além das mazelas físicas. Todos os percursos das personagens, onde sem dúvida se destaca o de Nicolau, são encaminhados sem a lentidão que os tornaria morosos ao leitor, nem a rapidez que os tornaria artificiais.

Outro ponto a destacar é o título: levou-me a pensar que seria sobre uma personagem (caracterizada por todos os clichés que associamos a “dançarina”), quando na verdade engloba muito mais e reflecte maior profundidade. Parece apenas um detalhe a acrescentar aqui, mas sem dúvida encaixa-se perfeitamente à obra.

Em geral, um romance histórico que merece destaque numa altura em que os romances históricos parecem encontrar-se em boa ventura no panorama editorial português.

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