“A Rainha Perfeitíssima”, Paula Veiga

capa

VEIGA, Paula – A Rainha Perfeitíssima, São Pedro do Estoril, Saída de Emergência, 2017

Sinopse: Em 1458 nasceu uma formosa infanta a quem chamaram Leonor. Destinada a ser rainha, a jovem cresceu e transformou-se na mais notável monarca que reinou em Portugal. Mas se a sua vida é uma inspiração, também foi um rosário de tragédias. Casou com o primo, D. João II, mas o casamento não foi feliz. O Príncipe Perfeito passou o reinado em conflito com a nobreza que o tentou assassinar. A alegria por ver o marido sobreviver foi destroçada quando o seu próprio irmão é acusado de traição e morre às mãos do rei.

Mas a maior tragédia da sua vida chega quando o filho morre de forma suspeita. Acidente ou atentado? Na terrível dor de uma mãe que perde o filho, Leonor nem teve o apoio que esperava do rei: D. João II estava mais preocupado em colocar no trono o filho bastardo que tivera com outra mulher.

Opinião: Na sua maioria apagadas na nossa História – por vários motivos –, há sempre curiosidade em ler e conhecer mais sobre as mulheres que fizeram parte do percurso de Portugal enquanto nação. Romances históricos sempre se me afiguraram como um modo de o fazer de forma aprazível e mais ou menos fidedigna. Esta obra, contudo, não se me afigura como um romance histórico. A parte “histórica” encontra-se presente, com as várias indicações referentes às personagens e eventos transmitidos ao leitor e apoiados pela bibliografia. A parte do “romance”, contudo, falha em grande escala:

Apesar de ser Leonor a figura a quem o título e sinopse dão maior relevo, durante a narrativa a personagem é passiva, pouco desenvolvida e superficial, ficando ainda ofuscada pelos monarcas (quatro) que Leonor viu reinarem durante a sua vida. Quando reage fá-lo através de diálogos artificiais – artificialidade essa que se encontra presente em praticamente todos os diálogos da obra – ou de uma narração em primeira pessoa que, assim como as partes de narrativa em terceira pessoa, se centra na infodump, provocando um desequilíbrio entre o show e o tell demasiado favorável a este último. Trata-se de uma narrativa que teria proveito de um maior desenvolvimento: permitiria um doseamento mais equilibrado da informação fornecida, ao mesmo tempo que poderia focar mais na demonstração dos sentimentos das personagens através da descrição das suas reacções, ao invés de nos dizer essa informação. Esse desenvolvimento da narrativa provavelmente acarretaria o desenvolvimento das personagens, apresentando-as com uma construção mais sólida, humana e credível.

Em relação à escrita em si apresenta algumas inconsistências, como uma personagem masculina a dizer “obrigada” em vez de “obrigado”, o “porque” interrogativo ora com a grafia “porque” ora com a “por que” (ambas aceitáveis, mas desaconselhado o seu uso alternado no mesmo texto), e em relação às vírgulas. Tratam-se, contudo, de detalhes que pertencem mais à responsabilidade da revisão.

Já a escolha da autora da época abordada é de louvar. É, de facto, um dos períodos mais interessantes da História de Portugal, e, apesar de já ter conhecimento de muitos dos eventos abordados – quer pelas já idas aulas de História, quer pelo romance D. Beatriz (inserir hiperligação), centrado na mãe de D. Leonor –, há sempre algum novo detalhe que surpreende, ou algo curioso que tinha sido esquecido.

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