“Uma Mulher Respeitável”, Célia Correia Loureiro

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LOUREIRO, Célia Correia – Uma Mulher Respeitável, Barcarena, Marcador, 2016

Sinopse: 1831 – Pouco depois de se casar, a sorte do conde de Cerveira sofre um revés. Uma série de infortúnios deixam-no à beira da ruína financeira, e não demora muito para que comece a desconfiar dos intentos da estranha de beleza intrigante que desposou. Perante a dúvida, decide enviar Leonor Sanches para um exílio temporário junto do tio, que ensina no prestigiado Trinity College, em Dublim. Conforme a epidemia de cólera vai ceifando as vidas de cristãos e anglicanos na Irlanda, também o coração de Leonor Sanches se oferece à tragédia.
1857 – Cinquenta anos depois de perder o seu bem mais precioso para as tropas de Napoleão, Mariana Turner sente que está a um passo de descobrir toda a verdade sobre os acontecimentos de Março de 1809. Novas revelações apontam para que a condessa de Cerveira, encarcerada no Porto, seja a chave para resolver o mistério. Munida de uma determinação inabalável, tudo fará para conseguir deslindar o passado de Leonor Sanches – fidalga e anjo caído.

Opinião: O romance pode ser lido e compreendido de modo independente. Julgo, contudo, que causa maior impacto a quem já leu o antecessor, A Filha do Barão, não apenas por tal fornecer um maior conhecimento sobre personagens que aqui se tornam secundárias, mas também porque a questão deixada em aberto no referido romance se torna, em Uma Mulher Respeitável, no motor de todo o enredo. Tudo gira, de facto, em torno da identidade de uma mulher, explorando as consequências e ramificações das escolhas que fez e das escolhas que outros fizeram – deixando sempre discernir as alterações e oportunidades que poderia ter tido caso alguma dessas escolhas tivesse sido outra.

Como a sinopse já deixa antever, o enredo vai-se desenrolando ao longo de vários contextos temporais. Tal é feito, contudo, não de um modo linear, mas com várias “idas e vindas”, sendo a história construída como que um puzzle, peça a peça, em capítulos curtos. Contrariamente ao que se poderia supor, não considerei tal estrutura confusa: tendo em mente a identidade de Evelyn/Maria/Leonor, e beneficiando da indicação do ano, torna-se bastante fácil ao leitor situar-se no tempo da história. Estes dois pontos são fulcrais para que haja a referida facilidade. Ainda em termos narrativos, mas em relação a uma outra faceta, é de notar a linguagem cuidada da escrita, feita a equilibrar uma aproximação à época com a compreensão dos dias de hoje.

Assim como se denotou no volume anterior, é possível compreender a pesquisa por detrás do processo de escrita. Desde a caracterização a pequenas referências, o “trabalho de campo” da autora encontra-se visível a quem souber olhar, sem no entanto se tornar maçudo.

Outro ponto que também se tem vindo a transpor de uma obra para a outra refere-se às personagens. Desde o primeiro livro da autora que a construção e caracterização das personagens se me tem destacado pela positiva: este não foi diferente. Atributos e defeitos, humores consoante o momento e estado de espírito, diferentes visões da mesma persona consoante quem olha, tudo isto está presente, humanizando o que de outro modo seria apenas um nome num papel. Personagens houve que me desiludiram pelas suas atitudes: do mesmo modo que pessoas são capazes de desiludir. Compreensível? Sim. Mas nem sempre se concorda com o que se compreende e foi isso o que aqui encontrei.

Por fim, e novamente em relação ao enredo, falta-me falar das reviravoltas. À semelhança do livro anterior, os plot twists não estão feitos para serem compreendidos apenas no preciso momento em que acontecem. Havê-los há, contudo, não deixei de notar as indicações – umas mais discretas que outras – que vão sendo dadas antes das revelações. Por outras palavras, é dada ao leitor a oportunidade de adivinhar o que irá acontecer, ainda que tais descobertas sejam feitas aos poucos, ou não houvesse a necessidade de manter o interesse na leitura.