“Proxy”, VVAA

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VVAA – Proxy, [s.l.], Divergência, 2016

Sinopse: Bem-vindo, [Utilizador/a]. Proxy é o culminar de vários anos de trabalho e de estudo em leitura psico-criativa. Seis mentes, seis futuros que nunca existiram. Seis mundos. Os pináculos de Nova Oli e as entranhas de VitaVida. Modulações eléctrico-sonoras e o dilema da artificialidade. O poder da máquina e o desmoronar de uma simples equação.

Preste atenção. Aquilo que vai ler é estritamente confidencial.

Proxy é a primeira experiência antológica de cyberpunk em Português. Seis autores acompanharam-nos nesta viagem: Vitor Frazão, Júlia Durand, Carlos Silva, Marta Santos Silva, José Pedro Castro e Mário Coelho – seis dos melhores jovens autores de Ficção Especulativa nacional.

Opinião: Como indicado na sinopse, “Proxy” trata-se de uma antologia cyberpunk constituída pelos contos de seis autores portugueses que se aventuraram pelo género: a maioria salientou, aquando o lançamento, ter sido a primeira excursão ao nicho. Talvez por isso mesmo tenham levado para as respectivas histórias elementos com que já se encontravam mais familiarizados, gerando um moldar interessante – e caracterizador – do género pela sua respectiva experiência de vida. De um modo geral, a qualidade entre os contos encontra-se equilibrada, ajudando a que a antologia seja encarada como um todo e não como uma manta de retalhos. O prefácio, de João Barreiros, segue o tom e discurso já habituais do autor, seguindo um carácter generalista que pouco dá a entender sobre o cyberpunk em específico ou os contos da antologia em que se insere.

Seguem as opiniões individuais a cada conto:

Deuses Como Nós, Vítor Frazão: Começo por salientar o que mais gostei neste conto: o conceito e o relance que tivemos do worldbuilding. O autor segue a linha da “mercenária” apanhada entre a querela de dois “grandes” e respectivas visões de certo e errado, que não sem razão é uma das trops favoritas de leitores e espectadores. Contudo despertou-me muito mais o interesse e a atenção a ideia da venda de objectos que nos são agora mundanos como antiguidades e artefactos, chegando a sua venda-e-compra a relacionar-se com o tráfico ilegal. Não poucas vezes considero os detalhes como diferenciadores de uma história – em Deuses Como Nós, foi esta visão.

Em contrabalança: A estrutura seguida encontra-se um pouco caótica, tornando o conto confuso nos seus inícios. Apenas mais adiante, quando já grande parte do enredo se desenrolou, é que o leitor se consegue situar. Outro ponto negativo a nível narrativo prende-se com a protagonista: sabendo-a mulher, não consegui deixar de ter a sensação de ser um homem o narrador. Por fim, trata-se do conto que apresenta maior quantidade de gralhas, algo facilmente “limável” com uma revisão extra.

Modulação Ascendente, Júlia Durand: Não sendo uma luta do indivíduo contra o corporativismo propriamente dita, na medida em que a protagonista está resignada ao sistema no qual se encontra, também não se pode dizer que não o é, visto que a protagonista age de forma a contornar os elementos a seu favor. Trata-se do meu conto favorito da antologia, enquanto leitora, na medida em que no futuro encontramos o presente. As questões, (in)justiças e estruturas socioculturais do agora mantêm-se numa ambientação obviamente futurista, tornando o worldbuilding (lamentavelmente) credível e de fácil empatia. O enredo centra-se quase que num detalhe deste worldbuilding: filmando o formigueiro, foca-se numa formiga em específico, dando ao leitor um episódio da sua vida que, sendo apresentado com princípio, meio e fim, é sabido ser apenas isso: um episódio de muitos na vivência da protagonista. Por fim, é de salientar a utilização feita da música. O conceito explorado na ficção deste conto ganha um particular interesse quando se adquire a percepção do quão frequentemente ele é hoje aplicado, em vários e diferentes níveis. A autora, também musicóloga, soube assim atar estas duas facetas do seu dia-a-dia, criando o elemento diferenciador de Modulação Ascendente.

Pecado da Carne, Carlos Silva: Um conto bem construído, bem narrado e com personagens carismáticas. Mais uma vez, o conceito do wordlbuilding revelou-se o que mais me interessou: países e nações dão lugar a grandes corporações de saúde, onde quem tem poderio para pagar as apólices vive numa aparente utopia, enquanto quem não tem é varrido para debaixo do tapete. Como usual nestas sociedades, quanto mais se procura ver através delas, pior é o cheiro.

y + t, Marta Silva: O núcleo do enredo prende-se com a oposição que vai crescendo entre as duas personagens, y e t, nascida do modo como encaram a realidade em que vivem. À medida que cada uma delas se vai ancorando mais naquilo em que acredita, a relação – que entendi bem mais como amorosa do que como amizade – vai-se esfriando e deteriorando, até à reunião quase irónica no final. A forma narrativa, contudo, não me agradou, não tendo encontrado razões estéticas, de percepção ou de qualquer outro âmbito que tivessem levado às escolhas narrativas da autora.

Alma Mater, José Pedro Castro: Um melting pot. Imaginemos que o autor partiu vários vasos, novos e velhos, misturou os cacos e, de seguida, pegou em alguns deles para montar o seu próprio vaso. É essa a imagem que este conto me provoca, sendo necessário salientar que, de alguma forma, funcionou. Há um grande equilíbrio entre os vários elementos narrativos, levando a que a leitura seja agradável a um espectro variado de leitores. A acção é doseada com sentimento, o humor com tristeza, e o passado com o futuro. A isto, juntam-se ainda personagens bem construídas e algo inesperadas. Fechando o ciclo: um melting pot.

Bastet, Mário Coelho: Um conto com princípio, meio e fim – conta a história a que se propõe sem deixar a sensação de “precisa de mais” ou “precisa de menos”. Após um início centrado mais na contextualização no mundo criado através do show, a narrativa avança com base na acção e no tom humorístico. O enredo assume o seu momento alto com a reviravolta do final.

“Carnívora”, Manuel Alves

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ALVES, Manuel – Carnívora, [s.l.], Smashwords, 2016

Sinopse: Andreia retoma a consciência, e a única pista acerca do seu passado é o cartão de identificação que mancha com dedadas de sangue. Até esse instante, a memória é um vazio tão estéril como o lugar em que se encontra, um laboratório imaculado. Antes de ter tempo para tentar perceber o que terá acontecido ao homem morto no chão, vozes invadem-lhe o pensamento. Vêm atrás dela.

Opinião: “Carnívora” mistura horror e ficção especulativa. Os traços dos dois géneros conseguem formar uma ideia-chave de enredo interessante, contudo, não apreciei a sua leitura. A narração cai em infodump, feito essencialmente através dos diálogos, o que, em conjunto com as repetições e uma certa “secura” da escrita, tornou-me a leitura aborrecida. Talvez as personagens pudessem ter aliviado essa sensação, contudo, apesar de se notar um esforço para serem apresentas como fortes e determinadas, considerei que a sua caracterização acabou por seguir linhas gerais já conhecidas.

Não foi um conto que detestei, mas tão pouco o apreciei.