“A Chama ao Vento”, Carla M. Soares

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SOARES, Carla M. – A Chama ao Vento, [s.l.], Coolbooks, 2014

Sinopse: Um corpo anónimo é lançado à água num misterioso voo noturno sobre o Atlântico…
Vivem-se os anos mais negros da Segunda Guerra Mundial, e a vida brilha com a força e a fragilidade de uma chama ao vento. Na Lisboa de espiões e fugitivos dos anos 40, João Lopes apresenta à sua amiga Carmo um estrangeiro mais velho, homem de segredos e intenções obscuras que depressa a seduz, atraindo os dois jovens para uma teia de mistérios e paixões de consequências imprevistas.

Anos volvidos, Francisco, jornalista, homem inquieto, pouco sabe de si próprio e menos ainda de Carmo, a avó silenciosa que o criou, chama apagada de outros tempos. É João Lopes quem promete trazer-lhe a sua história inesperada, história da família e dos passados perdidos nos tempos revoltos da Segunda Grande Guerra e da Revolução de Abril. Para João, é uma história há muito devida. Para Francisco, o derrubar dos muros que ergueu em torno da memória e da própria vida.

Um retrato íntimo de Portugal em três gerações, pela talentosa escritora de Alma Rebelde.

Opinião: A história de três gerações é interligada num todo que culmina em Francisco, o primeiro narrador que se apresenta ao leitor. Pelo foco que é dado à sua situação emocional julguei, inicialmente, tratar-se de um romance de descoberta de personagem. Não deixa de o ser: o conhecimento da história dos seus antecessores provoca profundas alterações na personalidade e modo de estar de Francisco, do mesmo modo que as consequências dessa história nos respectivos protagonistas moldaram-no durante o seu crescimento. No entanto, a trama foca muito mais o romance de juventude de Carmo, avó de Francisco, desenvolvendo-se mais as características de romance de época do enredo. O desenvolvimento desse romance é transmitido através uma narração agradável ao leitor, estimulável à leitura, como já é hábito da autora. Considerei, contudo, que teria havido um maior interesse em ver desenvolvida a parte do mistério e espionagem, a qual pareceu ficar constantemente cingida a uma ambientação mais do que a um “papel activo” no enredo.

Também a história dos pais de Francisco ficou com o seu quê incompleto que me deixou um travo semi-amargo na boca. É fornecido quanto baste para deduzir o que aconteceu, mas falham os detalhes, bem como perguntas que ficaram por responder (O que impediu a mãe de Francisco de regressar?, por exemplo). Dos motivos que magiquei, dois apresentam-se como possíveis justificações: o primeiro será, naturalmente, dar azo a uma sequela. O segundo prende-se com o formato narrativo: com excepção dos recuos à história de Carmo e das memórias súbitas que vão reaparecendo a Francisco, a narração é em primeira pessoa, pela voz de Francisco. O leitor está, por conseguinte, condicionado ao que ele sabe e àquilo que os outros lhe dão a saber. As perguntas sem resposta não tinham, à altura do término do romance, possibilidade de terem chegado ainda ao conhecimento de Francisco, e consequentemente ao do leitor.

O foco primordial é, contudo, não em Francisco mas em Carmo. O romance acaba, de facto, por a tornar na protagonista, aproximando-se Francisco de um receptor, alguém que é mudado pela história dela, e que através dela conhece também a do pai, compreendendo-se melhor, mas que pouca actividade exerce no enredo. O mesmo parece reflectir-se no título, cuja razão se torna recorrente ao longo do romance, com mais de um sentido: apesar de a “chama” poder ser aplicada a ambos, é a Carmo que ela mais fortemente se relaciona.

 

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