“A Boneca de Kokoschka”, Afonso Cruz

capa

CRUZ, Afonso – A Boneca de Kokoschka, Lisboa, Quetzal, 2010

Sinopse: O pintor Oskar Kokoschka estava tão apaixonado por Alma Mahler que, quando a relação acabou, mandou construir uma boneca, de tamanho real, com todos os pormenores da sua amada. A carta à fabricante de marionetas, que era acompanhada de vários desenhos com indicações para o seu fabrico, incluía quais as rugas da pele que ele achava imprescindíveis. Kokoschka, longe de esconder a sua paixão, passeava a boneca pela cidade e levava-a à ópera. Mas um dia, farto dela, partiu-lhe uma garrafa de vinho tinto na cabeça e a boneca foi para o lixo. Foi a partir daí que ela se tornou fundamental para o destino de várias pessoas que sobreviveram às quatro toneladas de bombas que caíram em Dresden durante a Segunda Guerra Mundial.

Opinião: A leitura desta obra foi como a construção de um puzzle, formado pelas mais diversas peças. Não apenas vai divergindo de personagens e do foco que lhes é dado, mas acima de tudo vai divergindo de perspectivas e de ambientações. A mesma história é recontada de modos diferentes, tornando-se em histórias diferentes, ou histórias dentro de histórias. A linha temporal quebra-se e reestrutura-se. O real e a ficção da narrativa misturam-se, trocando frequentemente de lugar.

A divisão tripartida e os capítulos em trechos formam uma estrutura que antes de se começar o romance leva a crer que a sua leitura pode ser rápida. O conteúdo das palavras logo desfaz o engano: há demasiado de metáfora, demasiadas histórias, demasiada reflexão para que se permita uma leitura a correr.

Por isto mesmo, a sinopse não é de todo fiel ao conteúdo do romance. Refere-se apenas a parte do que nele encontramos, a algumas das peças, em vez de à totalidade do puzzle. Ironicamente, ressalva uma parte da obra onde a saturação já se começa a fazer sentir: porque o que é demais é moléstia, as reflexões e filosofias na segunda e terceira parte do enredo já se fazem sentir como em excesso e forçadas ao leitor. Provavelmente por isso me interessei muito mais pela primeira parte, focada em Isaac Dresner e Bonifaz Vogel – personagens peculiares com uma relação cativante –, que nas restantes, mais viradas para Mathias Popa.

Uma leitura que mais do que pelo enredo e personagens, se destaca pelo formato narrativo utilizado.

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