“D. Francisca de Bragança: A Princesa Boémia”, Maria João Fialho Gouveia

capa

GOUVEIA, Maria João Fialho – D. Francisca de Bragança: A Princesa Boémia, Amadora, Topseller, 2013

Sinopse: D. Francisca de Bragança nasceu no Rio de Janeiro em 1824, filha de D. Pedro IV de Portugal e da imperatriz D. Leopoldina da Áustria. Ficou órfã de mãe aos dois anos de idade, e durante toda a vida pesou sobre os seus ombros o fantasma da morte da mãe, grávida do sétimo filho, segundo os rumores assassinada às mãos do próprio marido.

Aos treze anos, a irreverente princesa conheceu D. Francisco d’Orléans, filho do rei de França, por quem se apaixonou perdidamente. Teria de esperar seis anos pelo dia do desejado casamento, e consequente partida para Paris, onde, agora a princesa de Joinville, depressa se impôs pela sua beleza, ousadia e espontaneidade, conquistando o petit nom de Belle Françoise.

Apaixonados e comungando de um ardor pela liberdade, os príncipes de Joinville entregaram-se a uma vida de boémia, numa Paris que fervilhava de arte, cultura e conhecimento, privando com intelectuais e artistas pelos Grands Boulevards e pelas salas de espetáculos.

Apesar das intrigas cortesãs, que atribuíam amantes à princesa e romances ao seu consorte, e da queda da monarquia francesa, que obrigou os príncipes a um exílio forçado em Inglaterra, o casal de príncipes nunca se separou, e viveu um amor puro e cúmplice até ao fim dos seus dias.

Opinião: Com excepção de D. Maria II, que se tornou rainha de Portugal, não é muito o que usualmente aprendemos sobre a descendência de D. Pedro IV, apesar da sua situação, no mínimo, curiosa: tornaram-se, afinal, na primeira corte brasileira. Este romance propõe-se explorar e dar a conhecer um pouco mais um dos membros dessa descendência: D. Francisca, uma figura quase obscura no nosso conhecimento geral.

Com cada capítulo dedicando-se a um período marcante da vida da princesa, os primeiros dois alongam-se em torno do pai e da mãe, D. Pedro IV e D. Leopoldina, partindo duma pressuposta demanda levada a cabo pela própria D. Francisca, com o intento de mais descobrir sobre a relação dos pais. Apenas a partir destes dois capítulos introdutórios é que o enredo se foca de facto nos eventos em torno de D. Francisca, desde o seu casamento com o príncipe de Joinville até à sua morte, destacando-se a vida boémia que levou com o marido, os efeitos do exílio de França, a menção dos rumores de traições quer dela quer do marido – que a acreditar no romance pouca mossa fizeram –, e as relações com os diferentes membros da família, quer da parte dos Bragança, quer da parte dos Joinville.

As personagens são caracterizadas tanto directa – com afirmações de serem X ou Y –, como indirectamente, através da descrição das suas acções, diálogos, cartas, etc. Não tenho conhecimento para confirmar ou não a sua autenticidade histórica, mas enquanto personagens de um romance tiveram uma boa caracterização, conquanto falhassem um pouco no desenvolvimento temporal: não se denota grandes alterações nos seus comportamentos, modos de pensar, agir ou falar ao longo da passagem temporal que se verifica na obra.

Em relação à narrativa, julgo que poderia ter aprofundado mais os sentimentos e acções das personagens. Frequentemente houve mais um destilar de informação (tanto nas descrições quanto nos diálogos) que a narrativa de um enredo, bem como eventos que poderiam contribuir para o interesse do leitor descritos de forma superficial. Estes factores tornaram vários trechos morosos, ao mesmo tempo que davam um travo artificial aos diálogos. Tratou-se, a meu ver, do ponto mais fraco do livro.

Já o estilo de escrita propriamente dito destaca-se pelo melhor. Com excepção de algumas gralhas que escaparam à revisão, o romance apresenta uma escrita cuidada, onde se verifica o uso de vocábulos mais incomuns, mas não arcaicos ou incompreensíveis.

No geral, não considerei este livro como um dos melhores romances históricos, de autores portugueses, que temos publicados no nosso mercado, por conta do já levantado. Algo pelo qual não deixo de ter pena, tanto pelo estilo de escrita da autora, como pela própria figura de D. Francisca.

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