“Drácula, O Romance do Conde”, Cátia Courela Grenho

capa

GRENHO, Cátia Courela – Drácula, O Romance do Conde, [s.l.], Amazon, 2014

Sinopse: Drácula era monstruoso e todos o temiam. O que ele não esperava era ver a sua vida dar uma volta de 180 graus em tão curto intervalo de tempo.

Mas é isso que acontece quando existe muito mais do que o que está à vista.

Beatrice é jovem, encantadora, simpática, com uma história de família aparentemente dramática e vai entrar na mansão mais temida do mundo, virando de pernas para o ar a vida daquele que nunca julgou vir a conhecer. A mansão é enorme, tem infinitos labirintos, e esconde tantos segredos como o seu dono.

Será a lenda do mais temido e monstruoso ser da história apenas uma miragem aos olhos de terceiros? Ou a essência do monstro mantém-se independentemente do que possa acontecer?

O romance que ninguém descobriu, revela agora a história que o mundo desconhecia, numa aventura cheia de mistério, amizade e amores proibidos, que envolve desde a mais inocente jovem da Rua 13 aos criados da mansão, passando por Drácula e a família de ambos.

Opinião: Durante a leitura deste romance soube que, antes de ter sido lançado na Amazon, foi sendo publicado no Wattpad à medida que ia sendo escrito. Essa informação não me surpreendeu, tratando-se mais de uma confirmação daquilo que eu já suspeitava: é que tal encontra-se reflectido na estrutura da história.

O enredo começa com Beatrice, a protagonista, a ser levada por Drácula para a sua mansão depois de o temido vampiro ter assassinado toda a sua família. Apesar de mais no fim sabermos que não foi exactamente assim, durante grande parte do romance essa é uma informação que o leitor – e Beatrice – não detêm, o que me leva a questionar o quase descaso com que a protagonista encara a situação. Os comentários eventuais de “é um monstro”, “matou a minha família”, “os meus olhos encheram-se de água”, etc estão longe de fazer jus à dimensão psicológica que este contexto deveria acarretar, tornando-se um detalhe superficial na história. O que definitivamente domina os pensamentos da protagonista é a sua atracção por Drácula, e vice-versa. Durante a maior parte do romance, o enredo avança através do esquema “Beatrice fala com X; X arranja uma desculpa para se afastar; Y entra em cena e fala com Beatrice; Y inventa uma desculpa e desaparece; X volta a aparecer e a ter outro diálogo com Beatrice” ou da inserção de novas personagens, que não têm muito relevo para a história, por motivos que irei desenvolver adiante. Apenas nas últimas páginas é que os eventos se desenrolam, sem que tenha havido qualquer foreshadowing dos ditos, o que leva a que aconteçam em catapulta e sem muito desenvolvimento. A impressão que estes factores deixam é que o enredo foi sendo inventado conforme a autora ia escrevendo e publicando cada capítulo, sem ter havido um planeamento prévio, nem uma revisão posterior, resultando numa estrutura desequilibrada. Ou seja, acção morosa durante grande parte do romance, e apressada no seu final.

Também as personagens não se encontram bem desenvolvidas. As suas características e sentimentos são maioritariamente ditos, e raramente demonstrados. Falta-lhes complexidade e dimensão, fazendo lembrar uma folha de papel. As suas relações surgem repentinamente e sem qualquer motivo (Drácula e Beatrice apaixonam-se não se percebe bem porquê, Beatrice fica quase imediatamente amiga – e é respeitada – pelas personagens “boas” também sem ter feito nada que o justificasse, entre outros), e a própria aparição das personagens é muitas vezes mal organizada. Frequentemente quando o background dramático de uma personagem que nunca até então tinha sido mencionada se torna conhecimento do leitor (através de telling), a referida personagem entra na história, se não no fim desse capítulo, então no início do seguinte. A partir daqui, a sua representação diversifica-se: ou aparece para cumprir um único e notório papel, sendo “despachada” logo de seguida, como é o caso de FrankEinstein, ou fica a rondar na história, sem se perceber muito bem a sua utilidade, até ter finalmente uma atitude, rapidamente contrariada pelos heróis, como é o caso de Morganna.

Outra questão que se me levantou em relação às personagens foi o porquê de se usar “Drácula”. James, como se determinou ser o seu nome neste romance, nada tem em comum com o imaginário de Drácula: em nenhum momento ele ser ou não Drácula, ou ele ser ou não um vampiro, se tornou relevante para a história. Retirar esse detalhe nada alteraria. Porquê, então, inseri-lo? Ou torná-lo filho de uma bruxa chamada Morganna e de um “Doutor FrankEinstein”?

Naturalmente, sendo esta a construção das personagens que mais importância têm para a trama, aquelas que são “acessórios”, como os aldeões ou os soldados, menos trabalhados são, aproximando-se mais de ferramentas usadas para a construção de algo em torno da protagonista – esse algo variando de acordo com o que se pretende transmitir no momento.

Em relação à escrita, notei algumas trocas do género “comeste/comes-te”, bem como falhas em relação à pontuação, tanto na pontuação dos diálogos quanto na da narração, havendo a colocação de vírgulas onde estas não se justificam (nem devem ser colocadas, como entre o sujeito e o predicado). Nos capítulos finais, houve ainda um certo “abrasileirismo” (ex: “joguei-me nos braços dele”). No geral, no entanto, considerei uma escrita agradável, com boas bases, e cujas falhas são facilmente colmatadas com uma revisão.

Algo que gostaria de ter visto desenvolvido foi a ideia da mansão como um jogo. O conceito de todo o edifício ser um labirinto, com truques como o de ter o mapa desenhado no tecto, foi algo que me chamou a atenção e a curiosidade. Infelizmente acabou por ter um desenvolvimento superficial, como aconteceu com os restantes elementos da história.

Em suma, um trabalho que acabou por falhar por um tratamento superficial dos seus elementos, bem como por falta de planeamento e estruturação.

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