“O Reino das Vozes que Não se Calam”, Carolina Munhóz e Sophia Abrahão

capa

MUNHÓZ, Carolina; ABRAHÃO, Sophia – O Reino das Vozes que Não se Calam, [s.l.], Rocco, 2014

Sinopse: Se você encontrasse um lugar onde todos o aceitassem… Seria capaz de abandoná-lo? Sophie se esconde de todos e de si mesma: insegura, não consegue enxergar sua beleza e talento, e sente dificuldade em se relacionar com os outros. Seu dia a dia se perde entre os caminhos tortuosos dos que convivem com a depressão e o bullying, e a jovem aos poucos vai se fechando na escuridão de seus pensamentos. Desamparada e sem coragem de lidar com seus problemas, ela acaba descobrindo um lugar mágico: um Reino onde as vozes não se calam e as criaturas encantadas se tornam reais. Um local colorido onde ela finalmente poderá se encontrar. Dividida entre a realidade e a fantasia, Sophie contará com a ajuda preciosa de um rapaz comum e uma guardiã encantada, que lhe mostrarão os segredos da alma e a farão decidir se vale a pena enfrentar seus medos ou viver em um eterno conto de fadas.

Opinião: Passei a leitura deste livro a pensar no seu potencial. Na minha interpretação enquanto leitora, houve a intenção de abordar temas difíceis e profundos como a depressão juvenil, o bullying e a anorexia (ou a crença de), contudo, o modo como foi feito ficou aquém das expectativas, tendo sido superficial e por vezes inverosímil.

A protagonista, Sophie, é apresentada como sendo uma adolescente “diferente” e ostracizada pelos colegas – com algumas excepções – devido a essa diferença. Encontramos nela o cliché pouco real da “menina diferente vs as outras meninas”, e o típico “é considerada feia e desajustada, mas é uma ruiva de belos olhos e voz maravilhosa”. Na sua concepção, a única característica subvertida é o facto de a sua magreza biológica ser, de facto, apresentada como um problema e não como um falso problema: cai sobre ela a suspeita de anorexia. Contrariamente à crença que se popularizou, é inegável que meninas naturalmente magrinhas são também alvo de preconceito por parte da sociedade, desde as piadinhas sobre “graveto”, “pau de virar tripas”, “sai ao pai”, etc, até acusações mais graves, como a que recaiu sobre Sophie. Ver isso retratado no romance fez-me pender a seu favor, contudo, a já referida falta de desenvolvimento fez com que questionasse a razão de o fazer, se era para o retratar de forma tão superficial.

A construção de Sophie não foi, portanto, algo que considerasse bem conseguido. As razões para a apresentar como “a diferente” são as mesmas características e gostos que predominam em muitas meninas reais, demasiadas para actualmente serem ostracizadas por isso. Ademais, as acções negativas daqueles que a envolviam – presentes no livro para, de certo modo, justificar e explicar o estado de espírito e escolhas da protagonista – são exageradas ao ponto de se tornarem ilógicas e pouco naturais. Um exemplo disso é a directora da escola de Sophie que, por a ouvir a discutir, agarra-a com brutalidade pelo braço, arrastando-a pela escola até ao exterior, onde se encontra a mãe da protagonista, a quem reclamava sobre o comportamento “vergonhoso” da jovem e o “facto” de isso trazer mau nome à escola. A existência de mais episódios deste género ao longo do romance indica não ter sido esta atitude da directora um caso isolado, fruto de algum conjunto especial de factores, mas apenas algo vil e aleatório proveniente da sua personalidade. É de salientar ainda que Sophie é descrita como sendo boa aluna, aplicada nos estudos, e discreta, não tendo protagonizado nenhuma situação considerada “rebelde” e capaz de dar mau nome à sua instituição de ensino, o que apenas sublinha o carácter irreal de todo o acontecimento.

Também o wordbuilding não preencheu todo o seu potencial. Vivendo entre o mundo real e o chamado Reino, um local onde, entre outras características, os mitos são reais, Sophie passa o seu tempo no Reino em diálogos com algumas das personagens de lá. Pretendidos como esclarecedores ou capazes de levar à reflexão, acabam por se tornar vagos, e sem muito que os distinga dos outros diálogos do romance. Não se pode negar que o Reino tem alguma descrição, contudo, esta roça a superfície, e não o consegui ver como o local de sabedoria e encantamento que parece ter estado na base da sua concepção. Ademais, o papel que Sophie representa nele é desnecessário: ela é a princesa que todos esperavam, que tornaria o Reino melhor, no entanto, o Reino parecia ter funcionado perfeitamente antes do seu aparecimento, sendo que é a jornada de Sophie o que origina problemas no equilíbrio do Reino. No fim, o Reino volta ao ponto em que estava antes da sua aparição. A situação do Reino no início e no fim do romance em nada se altera.

Um outro ponto que carece de desenvolvimento é a afirmação “no Reino Sophie é amada, na Terra não”. Apesar de isto ser dito, não é demonstrado. Não há qualquer razão para Sophie o considerar, e ainda menos para o leitor o acreditar. Tal reflecte, julgo, a inconsistência do enredo. Parece-me que a ideia base para o enredo seria a de seguir a da representação do crescimento de adolescente para adulto. A maturação da personagem. Consegue fazê-lo o suficiente para se tornar identificável, mas não para que seja encarado como bem desenvolvido. Tentar resumir o enredo deste romance torna-se difícil: mais do que uma história com início, meio e fim, assemelha-se a uma sequência de vários acontecimentos que, na sua totalidade, não apresentam muita substância.

Em suma, um romance que contém ideias chamativas, temas interessantes, e um título e capa que dão vontade de o ter na prateleira, mas cujo tratamento superficial e algo despreocupado das personagens e enredo o deixou aquém do seu potencial.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s