“Sonhos Malditos”, Carina Rosa

sonhos malditos

ROSA, Carina – Sonhos Malditos, Smashwords, 2016

Sinopse: Teresa tem premonições desde criança. Depois de ter previsto as mortes de toda a sua família, incluindo a de Henrique, o seu melhor amigo de infância, Teresa refugia-se no seu dom.

Mas a maldição que a marca vai persegui-la. Num dia cinzento, em que os seus próprios livros de feitiços parecem amaldiçoá-la, Teresa é salva por um jovem aparentemente desconhecido. Mas as semelhanças entre este estranho e Henrique levam-na de volta ao passado, quando tinha ainda muito a perder.

Teresa conhece os destinos daqueles que lhe são próximos. No entanto, dá por si a apaixonar-se por este novo homem, cujo passado lhe é menos estranho do que imaginava. Na luta para alterar as malhas do destino deste jovem, que sabe ser fatal, Teresa descobre que a sua súbita aparição não foi fruto do acaso.

Opinião: Carina Rosa volta a presentear os leitores com um conto de leitura rápida e – sim, vou usar esse adjectivo – fluida. O que basicamente quer dizer que se lê muito bem e quando uma pessoa se apercebe, já chegou ao fim. Mais uma vez, temos uma narrativa dentro do género Romance – aquele onde a autora se tem destacado e que me atrevo a dizer ser o seu favorito –, mas agora com um cheirinho de Fantasia/Paranormal, e uma reviravolta no final que aponta para o Horror/Terror.

O enredo, centrado no casal, encontra-se consistente e “bem amarrado”. Gostaria de ter visto um pouco mais de desenvolvimento em relação à parte “mágica”, que apesar de ser relevante para a história – sem ela o enredo não faria sentido – assemelhou-se um pouco mais a pano de fundo. Já as personagens sobressaem pela sua caracterização, distinta e capaz de chegar ao leitor. Estranhei, no início, a rapidez com que demonstram interesse amoroso um pelo outro, mas considerei plausível dado o facto da reencarnação e da consciência existente da dita.

O já referido final foi o que considerei o ponto alto do conto. Sendo um final em aberto, toda a narrativa conflui e cresce para um término que se aproxima mais do Horror/Terror que do Romance. Trata-se de uma reviravolta inesperada, mas que pelo referido crescimento narrativo não parece surgir caída do céu, o que em muito contribuiu para o conto na sua generalidade.

O conto encontra-se disponível gratuitamente aqui.

“Prisão de Gelo”, Ana Ferreira

capa

FERREIRA, Ana – Prisão de Gelo, [s.l.], Smashwords, 2015

Sinopse: Duas mulheres encarceradas numa prisão de gelo tentam manter viva a memória de quem são e do porquê de estarem presas.

Opinião: Numa narrativa por vezes crua, machismo, homofobia e retrocesso (demonstrando a fragilidade da conquista de direitos) são abordados neste conto. Estando o leitor limitado à narrativa da personagem, há uma desorientação inicial, a qual vai ganhando significado e explicação à medida que a personagem se vai recordando de quem é e da sua história, e o leitor vai unindo os pontos.

Algo que marca muito a história é o sentimento de claustrofobia da narradora, que passa para o leitor: a narração, as descrições da prisão de gelo, o sentimento de impotência, tudo contribuiu para essa construção.

O final, que permanece em aberto, representa as duas reacções possíveis: a resignação e a resistência. Apesar de opostos, nenhuma delas é apresentada como sendo uma falha, antes como uma escolha de cada uma das personagens.

Um conto futurista sobre uma situação actual.

“Três dicas para prender o leitor já nas primeiras páginas do seu livro”, aula por André Vianco

andré

Na passada Segunda-feira, dia 15, o autor brasileiro André Vianco utilizou as graças da Internet para dar uma pequena aula em torno de três ferramentas (dicas, na verdade) úteis para conquistar e prender leitores à obra que nos interessa: a nossa. Apesar de na descrição do evento estar “para aplicar ao primeiro parágrafo”, a verdade é que todas as ferramentas que foram faladas são necessariamente construídas ao longo de toda a obra. E, para ser honesta, também me pareceram (e parecem) mais bom senso de escritor que outra coisa.

“Para quê escrever sobre isso, então?”

Por duas razões: tentar angariar views para o blog Apesar de eu ter achado que era senso comum, pude perceber pela caixa de comentários que outros não partilhavam a mesma opinião. Mas mais do que isso: porque Vianco é bom a explicar. Além de ter uma atitude descontraída que deixa os outros à vontade, Vianco consegue explicar o que deseja com clareza e de forma directa, indo ao ponto e ainda dando exemplos que ilustram bem aquilo que quer expressar.

A aula (sim, vou continuar a chamar-lhe assim) seguiu uma estrutura tripartida. Cada ferramenta teve um “bloco”, onde se incluiu a explicação da ferramenta em questão, a elucidação de perguntas colocadas pela assistência em relação ao que acabara de ser explicado, e um pequeno vídeo que ora mostrava resenhas de livros do autor, ora filmagens em eventos literários. Não faltaram promoções em torno dos livros/cursos ministrados pelo autor, mas temo que se tenham restringido àqueles que estavam a assistir no momento.

“Ok, ok, mas o que se falou, então?”

Não me irei alongar muito sobre o conteúdo. Primeiro, porque irei deixar o link da dita aula no final do texto para aqueles que se interessarem, segundo porque, nas sábias palavras de uma ex-professora minha da faculdade, “detesto apontamentos, vocês dizem-me que eu disse isto e aquilo e que está nos vossos apontamentos, quando eu não disse nada disso, e vocês só têm aí apontado aquilo que acharam que eu disse”. Ou seja, mesmo apontando tudo, há sempre a possibilidade (grande) de fazer asneira, não é?

Mas vamos lá arriscar só um bocadinho.

A primeira ferramenta falada foi a “A Promessa”. E eu imaginei logo uma história de terror envolvendo sacrifícios satânicos, mas é algo bem mais simples: ter consciência do género em que se está a escrever, e manter o clima do dito. Se o livro é terror, tem de manter o clima de terror. Lembrei-me de imediato de um livro que li há pouco mais de um ano cujo título, capa e sinopse gritavam “romance histórico”. Um livro que durante 90% da leitura foi romance histórico. E nos últimos 10% deu uma virada e subitamente eu tinha, sem aviso, ficção-científica nas mãos. Fiquei possessa. Não porque desgoste de ficção-científica per si, mas porque tinha começado aquele livro com a promessa de romance histórico, e essa promessa foi quebrada nas suas páginas finais. Se como leitora senti quão mau é quebrar a promessa, como escritora tenho de ter cuidado para não fazer o mesmo. Nas palavras de Vianco, há que “pagar o género”: fornecer ao leitor aquilo que ele espera ao pegar num livro de determinado género.

A segunda ferramenta foi chamada de “Grau de Aproximação”. Depreendi que seria, em suma, a rede de personagens, com os diferentes graus de relações, os diferentes objectivos que tanto podem torná-las aliadas como antagonistas, os diferentes pontos de vista. Não é algo que se deixa no cantinho, no background: a história pode ser construída usando e abusando desta rede, seja para plot twists, resoluções, conexão entre personagens, determinar as acções das personagens, etc, etc.

A terceira ferramenta, o “Ticking Clock”, é aquela de que menos falarei: por motivos de saúde, não pude prestar muita atenção. Depreendi, no entanto, do que fui ouvindo que é semelhante a uma consciencialização de que existe um limite de tempo para o protagonista ou para a história. Há um final countdown que pode muito bem ser figurativo (e muitas vezes é), em cujo final o protagonista ora será massacrado ora será coroado pelas consequências dos eventos. Seguindo esta lógica, julgo que se poderá dar como exemplo deste ticking clock a procura e destruição dos horcruxes na saga “Harry Potter”.

Como já disse acima, considerei as três ferramentas bastante ligadas ao bom senso. Apesar de não as nomear, já tinha retirado boa parte do que foi explicado da minha experiência enquanto leitora. Não deixo, contudo, de considerar a aula útil. Não apenas para consolidação de conhecimentos, e pelo facto de agora ter nomes a dar “aos bois”, como por ter, realmente, apreciado a forma como André Vianco conduziu as explicações.

Deixo, então, o link da aula aos interessados:

“Drácula, O Romance do Conde”, Cátia Courela Grenho

capa

GRENHO, Cátia Courela – Drácula, O Romance do Conde, [s.l.], Amazon, 2014

Sinopse: Drácula era monstruoso e todos o temiam. O que ele não esperava era ver a sua vida dar uma volta de 180 graus em tão curto intervalo de tempo.

Mas é isso que acontece quando existe muito mais do que o que está à vista.

Beatrice é jovem, encantadora, simpática, com uma história de família aparentemente dramática e vai entrar na mansão mais temida do mundo, virando de pernas para o ar a vida daquele que nunca julgou vir a conhecer. A mansão é enorme, tem infinitos labirintos, e esconde tantos segredos como o seu dono.

Será a lenda do mais temido e monstruoso ser da história apenas uma miragem aos olhos de terceiros? Ou a essência do monstro mantém-se independentemente do que possa acontecer?

O romance que ninguém descobriu, revela agora a história que o mundo desconhecia, numa aventura cheia de mistério, amizade e amores proibidos, que envolve desde a mais inocente jovem da Rua 13 aos criados da mansão, passando por Drácula e a família de ambos.

Opinião: Durante a leitura deste romance soube que, antes de ter sido lançado na Amazon, foi sendo publicado no Wattpad à medida que ia sendo escrito. Essa informação não me surpreendeu, tratando-se mais de uma confirmação daquilo que eu já suspeitava: é que tal encontra-se reflectido na estrutura da história.

O enredo começa com Beatrice, a protagonista, a ser levada por Drácula para a sua mansão depois de o temido vampiro ter assassinado toda a sua família. Apesar de mais no fim sabermos que não foi exactamente assim, durante grande parte do romance essa é uma informação que o leitor – e Beatrice – não detêm, o que me leva a questionar o quase descaso com que a protagonista encara a situação. Os comentários eventuais de “é um monstro”, “matou a minha família”, “os meus olhos encheram-se de água”, etc estão longe de fazer jus à dimensão psicológica que este contexto deveria acarretar, tornando-se um detalhe superficial na história. O que definitivamente domina os pensamentos da protagonista é a sua atracção por Drácula, e vice-versa. Durante a maior parte do romance, o enredo avança através do esquema “Beatrice fala com X; X arranja uma desculpa para se afastar; Y entra em cena e fala com Beatrice; Y inventa uma desculpa e desaparece; X volta a aparecer e a ter outro diálogo com Beatrice” ou da inserção de novas personagens, que não têm muito relevo para a história, por motivos que irei desenvolver adiante. Apenas nas últimas páginas é que os eventos se desenrolam, sem que tenha havido qualquer foreshadowing dos ditos, o que leva a que aconteçam em catapulta e sem muito desenvolvimento. A impressão que estes factores deixam é que o enredo foi sendo inventado conforme a autora ia escrevendo e publicando cada capítulo, sem ter havido um planeamento prévio, nem uma revisão posterior, resultando numa estrutura desequilibrada. Ou seja, acção morosa durante grande parte do romance, e apressada no seu final.

Também as personagens não se encontram bem desenvolvidas. As suas características e sentimentos são maioritariamente ditos, e raramente demonstrados. Falta-lhes complexidade e dimensão, fazendo lembrar uma folha de papel. As suas relações surgem repentinamente e sem qualquer motivo (Drácula e Beatrice apaixonam-se não se percebe bem porquê, Beatrice fica quase imediatamente amiga – e é respeitada – pelas personagens “boas” também sem ter feito nada que o justificasse, entre outros), e a própria aparição das personagens é muitas vezes mal organizada. Frequentemente quando o background dramático de uma personagem que nunca até então tinha sido mencionada se torna conhecimento do leitor (através de telling), a referida personagem entra na história, se não no fim desse capítulo, então no início do seguinte. A partir daqui, a sua representação diversifica-se: ou aparece para cumprir um único e notório papel, sendo “despachada” logo de seguida, como é o caso de FrankEinstein, ou fica a rondar na história, sem se perceber muito bem a sua utilidade, até ter finalmente uma atitude, rapidamente contrariada pelos heróis, como é o caso de Morganna.

Outra questão que se me levantou em relação às personagens foi o porquê de se usar “Drácula”. James, como se determinou ser o seu nome neste romance, nada tem em comum com o imaginário de Drácula: em nenhum momento ele ser ou não Drácula, ou ele ser ou não um vampiro, se tornou relevante para a história. Retirar esse detalhe nada alteraria. Porquê, então, inseri-lo? Ou torná-lo filho de uma bruxa chamada Morganna e de um “Doutor FrankEinstein”?

Naturalmente, sendo esta a construção das personagens que mais importância têm para a trama, aquelas que são “acessórios”, como os aldeões ou os soldados, menos trabalhados são, aproximando-se mais de ferramentas usadas para a construção de algo em torno da protagonista – esse algo variando de acordo com o que se pretende transmitir no momento.

Em relação à escrita, notei algumas trocas do género “comeste/comes-te”, bem como falhas em relação à pontuação, tanto na pontuação dos diálogos quanto na da narração, havendo a colocação de vírgulas onde estas não se justificam (nem devem ser colocadas, como entre o sujeito e o predicado). Nos capítulos finais, houve ainda um certo “abrasileirismo” (ex: “joguei-me nos braços dele”). No geral, no entanto, considerei uma escrita agradável, com boas bases, e cujas falhas são facilmente colmatadas com uma revisão.

Algo que gostaria de ter visto desenvolvido foi a ideia da mansão como um jogo. O conceito de todo o edifício ser um labirinto, com truques como o de ter o mapa desenhado no tecto, foi algo que me chamou a atenção e a curiosidade. Infelizmente acabou por ter um desenvolvimento superficial, como aconteceu com os restantes elementos da história.

Em suma, um trabalho que acabou por falhar por um tratamento superficial dos seus elementos, bem como por falta de planeamento e estruturação.

“O Reino das Vozes que Não se Calam”, Carolina Munhóz e Sophia Abrahão

capa

MUNHÓZ, Carolina; ABRAHÃO, Sophia – O Reino das Vozes que Não se Calam, [s.l.], Rocco, 2014

Sinopse: Se você encontrasse um lugar onde todos o aceitassem… Seria capaz de abandoná-lo? Sophie se esconde de todos e de si mesma: insegura, não consegue enxergar sua beleza e talento, e sente dificuldade em se relacionar com os outros. Seu dia a dia se perde entre os caminhos tortuosos dos que convivem com a depressão e o bullying, e a jovem aos poucos vai se fechando na escuridão de seus pensamentos. Desamparada e sem coragem de lidar com seus problemas, ela acaba descobrindo um lugar mágico: um Reino onde as vozes não se calam e as criaturas encantadas se tornam reais. Um local colorido onde ela finalmente poderá se encontrar. Dividida entre a realidade e a fantasia, Sophie contará com a ajuda preciosa de um rapaz comum e uma guardiã encantada, que lhe mostrarão os segredos da alma e a farão decidir se vale a pena enfrentar seus medos ou viver em um eterno conto de fadas.

Opinião: Passei a leitura deste livro a pensar no seu potencial. Na minha interpretação enquanto leitora, houve a intenção de abordar temas difíceis e profundos como a depressão juvenil, o bullying e a anorexia (ou a crença de), contudo, o modo como foi feito ficou aquém das expectativas, tendo sido superficial e por vezes inverosímil.

A protagonista, Sophie, é apresentada como sendo uma adolescente “diferente” e ostracizada pelos colegas – com algumas excepções – devido a essa diferença. Encontramos nela o cliché pouco real da “menina diferente vs as outras meninas”, e o típico “é considerada feia e desajustada, mas é uma ruiva de belos olhos e voz maravilhosa”. Na sua concepção, a única característica subvertida é o facto de a sua magreza biológica ser, de facto, apresentada como um problema e não como um falso problema: cai sobre ela a suspeita de anorexia. Contrariamente à crença que se popularizou, é inegável que meninas naturalmente magrinhas são também alvo de preconceito por parte da sociedade, desde as piadinhas sobre “graveto”, “pau de virar tripas”, “sai ao pai”, etc, até acusações mais graves, como a que recaiu sobre Sophie. Ver isso retratado no romance fez-me pender a seu favor, contudo, a já referida falta de desenvolvimento fez com que questionasse a razão de o fazer, se era para o retratar de forma tão superficial.

A construção de Sophie não foi, portanto, algo que considerasse bem conseguido. As razões para a apresentar como “a diferente” são as mesmas características e gostos que predominam em muitas meninas reais, demasiadas para actualmente serem ostracizadas por isso. Ademais, as acções negativas daqueles que a envolviam – presentes no livro para, de certo modo, justificar e explicar o estado de espírito e escolhas da protagonista – são exageradas ao ponto de se tornarem ilógicas e pouco naturais. Um exemplo disso é a directora da escola de Sophie que, por a ouvir a discutir, agarra-a com brutalidade pelo braço, arrastando-a pela escola até ao exterior, onde se encontra a mãe da protagonista, a quem reclamava sobre o comportamento “vergonhoso” da jovem e o “facto” de isso trazer mau nome à escola. A existência de mais episódios deste género ao longo do romance indica não ter sido esta atitude da directora um caso isolado, fruto de algum conjunto especial de factores, mas apenas algo vil e aleatório proveniente da sua personalidade. É de salientar ainda que Sophie é descrita como sendo boa aluna, aplicada nos estudos, e discreta, não tendo protagonizado nenhuma situação considerada “rebelde” e capaz de dar mau nome à sua instituição de ensino, o que apenas sublinha o carácter irreal de todo o acontecimento.

Também o wordbuilding não preencheu todo o seu potencial. Vivendo entre o mundo real e o chamado Reino, um local onde, entre outras características, os mitos são reais, Sophie passa o seu tempo no Reino em diálogos com algumas das personagens de lá. Pretendidos como esclarecedores ou capazes de levar à reflexão, acabam por se tornar vagos, e sem muito que os distinga dos outros diálogos do romance. Não se pode negar que o Reino tem alguma descrição, contudo, esta roça a superfície, e não o consegui ver como o local de sabedoria e encantamento que parece ter estado na base da sua concepção. Ademais, o papel que Sophie representa nele é desnecessário: ela é a princesa que todos esperavam, que tornaria o Reino melhor, no entanto, o Reino parecia ter funcionado perfeitamente antes do seu aparecimento, sendo que é a jornada de Sophie o que origina problemas no equilíbrio do Reino. No fim, o Reino volta ao ponto em que estava antes da sua aparição. A situação do Reino no início e no fim do romance em nada se altera.

Um outro ponto que carece de desenvolvimento é a afirmação “no Reino Sophie é amada, na Terra não”. Apesar de isto ser dito, não é demonstrado. Não há qualquer razão para Sophie o considerar, e ainda menos para o leitor o acreditar. Tal reflecte, julgo, a inconsistência do enredo. Parece-me que a ideia base para o enredo seria a de seguir a da representação do crescimento de adolescente para adulto. A maturação da personagem. Consegue fazê-lo o suficiente para se tornar identificável, mas não para que seja encarado como bem desenvolvido. Tentar resumir o enredo deste romance torna-se difícil: mais do que uma história com início, meio e fim, assemelha-se a uma sequência de vários acontecimentos que, na sua totalidade, não apresentam muita substância.

Em suma, um romance que contém ideias chamativas, temas interessantes, e um título e capa que dão vontade de o ter na prateleira, mas cujo tratamento superficial e algo despreocupado das personagens e enredo o deixou aquém do seu potencial.

Fornada de Contos VIII [Fantasy&Co]

“O Vizinho do 4-B”, Ricardo Dias: Não propriamente um conto, mas uma peça de teatro, de fantasia cómica, centrada no diálogo entre duas coscuvilheiras. São figuras bem nossas conhecidas, acredito, e ver reproduzido o seu comportamento e comentários típicos num contexto mais sobrenatural – sem que elas próprias o saibam – tornou a peça numa bem sucedida comédia. Quanto ao “mistério” da identidade do vizinho contemplado, inicialmente deixou-me em dúvida, tendo chegado a colocar a hipótese de outras criaturas. O avançar do diálogo, no entanto, vai conferindo as pistas que o leitor necessita para tirar a conclusão acertada, a qual é confirmada no último acto.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/543491

“O Fugitivo,”, Pedro Pereira: Narrado na primeira pessoa, oferece uma perspectiva de ficção-científica à destruição de Sodoma. Os elementos bíblicos mais conhecidos encontram-se bem encaixados, e o enredo segue uma linha simples: um fugitivo a procurar escapar aos seus perseguidores. Não tem, no entanto, nenhum momento em que surpreenda, sendo também a forma narrativa algo desprovida de sentimentos.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/543490

“Génesis”, Pedro Pereira: Um conto de ficção-científica que é um detalhe de uma história maior. A narração é directa e concisa, apresentando algumas gralhas. Julguei Jado, o protagonista, invulgarmente inocente para uma pessoa com as vivências que ele tem, contudo, isso parece ter-se “resolvido” no final.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/550553

“O Lago”, Pedro Cipriano: Com a acção a arrastar-se no início e a apressar-se no final, a leitura tornou-se morosa. Nota-se o que o autor procurar abordar e explorar, no entanto, o desequilíbrio do pacing da acção, junto com a falta de empatia entre o leitor e a personagem, pouco fizeram para que apreciasse a leitura.

Escaparam, ainda, algumas gralhas.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/567733

“O Artefacto”, Pedro Pereira: Como já se tem tornado habitual ao autor, o enredo do conto é um detalhe numa história maior, facilmente notável não apenas pelos elementos em comum com contos anteriores, como também pelo final em aberto. Apesar de ser uma leitura rápida e chamativa para determinado público-alvo, julgo que falhou um pouco no desenvolvimento das personagens, as quais se aproximam do unidimensional. As reviravoltas do enredo são, na sua maioria, também deduzíveis, em particular por quem já tem uma boa bagagem dentro deste tipo de leituras.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/567731

“Na Noite em que o Inferno Subiu à Terra”, Ricardo Dias: No que se pressupõe ser um grupo de sobreviventes reunidos, o narrador conta aos ouvintes como foi a sua experiência quando pela primeira vez os demónios surgiram na Terra. Apesar de não haver quaisquer interrupções no texto, os comentários do narrador são eficientes a transmitir uma ideia de diálogo, o que leva a que não haja a sensação de monólogo.

Uma leitura interessante, com um formato informal e conteúdo pesado, cujo plot twist final é adivinhável pelo leitor antes de ser descoberto, mas não demasiado cedo.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/567729

“O Jardim do Éden”, Pedro Cipriano: Pode-se considerar este conto como uma recontagem, ou pelo menos um paralelismo, de Adão e Eva sob uma perspectiva da Ficção Científica. Levanta algumas questões, na medida em que aborda o receio do pecado, mas também a inocência de não saber o porquê de ser errado.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/587902

“O Muro”, Pedro Pereira: Um conto de Fantasia apocalíptica que realça as consequências que advêm de todas as escolhas. A opção de focar a narração num detalhe e numa personagem permitiu que os sentimentos da dita personagem fossem melhor desenvolvidos, aumentando, por consequência, a empatia entre protagonista e leitor. Em relação ao worldbuilding, é dado o suficiente para que seja compreendido.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/587908

“O Guia”, Pedro Cipriano: Desta leva foi a leitura que menos gostei. A narrativa arrasta-se e o enredo encontra-se mal desenvolvido. Apesar de o protagonista ter como função convencer os outros a segui-lo, e de haver indicações que o faz com frequência, a única coisa que o vemos a fazer são discursos, os quais não são eloquentes, esclarecedores, nem particularmente argumentativos.

Disponível em: https://www.smashwords.com/books/view/587862

“Livre”, Pedro Pereira: Mais um conto que faz ligação com o enredo e worldbuilding de contos anteriores. Desta vez, o foco é no rasto de destruição e no seu causador. Senti falta de um maior desenvolvimento das descrições, que se tornam o factor central neste tipo de narrativa.

Disponível em: https://fantasyandco.wordpress.com//?s=livre&search=Ir