“A Ruiva”, Fialho de Almeida

capa

ALMEIDA, Fialho de – A Ruiva, [s.l.], Projecto Adamastor, 2014

Sinopse: «Não tinha a menor ideia do que fosse ter mãe ou ter amigas. No seu contacto com a gente, entrevira apenas o tenebroso fundo de bestialidade que referve em cada homem, com um fragor de luxúria cruel. Vivera sempre em si própria, sem a reminiscência dum carinho que alma piedosa lhe houvesse prodigalizado. Quantos beijos deixara roubar aos moços do cemitério e quantas palavras tinha merecido aos gatos-pingados, todas vinham ervadas da mesma ideia e do mesmo intento. E assim crescera naquela incultura de espírito sem guia, sentindo dentro avigorar-se-lhe apenas uma tendência — a da cadela fértil, que vai entregar-se. Através da sensação rudemente nascida olhara o mundo, esfaimada e torpe como se fora um verme descomunal das sepulturas, incapaz, pelos desolados cenários que tinha contemplado nos seus dias de criança, de dar acesso na sua alma às multíplices emoções e susceptibilidades histéricas que fazem da mulher o precioso receptor das coisas mais subtis que a língua não exprime e os olhos mal sabem formular. (…) Foi o tio Farrusco quem cobriu de terra, sem comoção nem saudade, o corpo, espedaçado pelo seu escalpelo, da rapariga corroída de podridões sinistras, abandonada do berço ao túmulo, e pasto unicamente de desejos infames e de desvairamentos vis.»

Opinião: Um conto onde as vivências de João e Carolina ganham destaque: e, através deles, a miséria, a decadência, o fascínio da morbidez, a preguiça e a pobreza social. Os momentos de bem-estar são fugazes e precários. De certo modo, encontra-se um travo de horror ao encontrar um modo de viver tão baixo e infeliz parágrafo após parágrafo.

Ambos os protagonistas são complexos, sendo a partilha da sua infância essencial para a sua caracterização e compreensão. A de Carolina, a Ruiva, em particular, pelo inusitado da sua educação – ou antes, pelo modo como cresceu na falta de uma educação. Inversamente, as demais personagens esbatem-se, notando-se não serem mais que ferramentas narrativas.

A narração segue uma linguagem erudita, de frases longas e poucos diálogos, por vezes bela nas suas descrições sensoriais, por vezes cansativa.

Disponível gratuitamente em: http://projectoadamastor.org/a-ruiva-fialho-de-almeida/

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