“A Sacerdotisa dos Penhascos”, Sandra Carvalho

capa

CARVALHO, Sandra – A Sacerdotisa dos Penhascos, Barcarena, Presença, 2009

Sinopse: Os Guardiães das Lágrimas do Sol e da Lua vivem finalmente em plena união. Dos seus amores nasceram Halvard e Kelda, os gémeos sobre quem pairam profecias grandiosas e temíveis. Halvard está nas mãos de Sigarr, o Mestre da Arte Obscura, que espera treiná-lo para ser o Guardião do Conhecimento Absoluto, e usar o imenso poder deste em seu proveito.

Kelda, no topo da mais alta fraga da Ilha dos Penhascos, entrega o seu corpo dorido e espírito destroçado à violência da tempestade, enquanto as palavras da sua melhor amiga Oriana qual maldição : «Hás-de acabar sozinha e devorada pelo mal como o teu irmão!»
Como poderá lutar contra as forças negras do destino, se todos aqueles que ama lhe viram as costas? Será capaz de provar que os pais estavam enganados acerca da sua índole perversa? E resgatar Halvard do jugo dos Feiticeiros, cumprir os desígnios da Pedra do Tempo e salvar a sua própria alma? Ou está condenada a ceder ao apelo da Arte Obscura que pulsa no seu sangue e tomba ao abismo?

Opinião: A minha (lenta) jornada pela “Saga das Pedras Mágicas” continua com A Sacerdotisa dos Penhascos, o sexto livro que a compõe. Quem leu as opiniões aos livros anteriores sabe que não coloquei filtro nas reclamações. Este, conquanto ainda tenha bastante que se lhe aponte, representa, de certo modo, um corte com os seus antecessores, o que em grande medida se deve à mudança da protagonista e narradora.

Kelda e eu não começamos com o pé direito. Durante as primeiras cinquenta páginas a jovem conseguiu desmaiar três vezes, sem qualquer outro propósito que não o de facilitar a passagem de uma cena para outra. Tal início para a personagem fez-me torcer o nariz, mas felizmente esta foi uma tendência que se perdeu, pelo que ajeitamos o nosso andar. O que, contudo, levou a que Kelda se destacasse positivamente enquanto heroína foi o facto de ela reconhecer os erros, aprendendo e evoluindo com eles. Não é um processo fácil, e não foram raras as vezes em que parecia que a maturação estava próxima, apenas para a jovem se deixar levar novamente pelas suas falhas. No entanto, aos altos e baixos, esta aprendizagem da personagem foi-se dando e, com isso, a sua evolução.

Como já se torna comum nas obras da autora, a um prólogo na terceira pessoa segue-se uma narrativa em primeira pessoa. Se por um lado se notou diferenças entre a narração da Edwina e da Kelda (a palavra “aleivosa” apareceu muito menos vezes, por exemplo), por outro a diferença estrutural e vocabular entre a narração e as falas de todas as outras personagens não foi tão evidente. Este seria um ponto a ter em atenção, na medida em que também a fala e forma de expressão serve como caracterizador de uma personagem.

Mas não será o único. Outro grande factor que ganha importância com narrativas na primeira pessoa prende-se com o limite de conhecimentos do narrador. Naquilo que diz ao leitor, vez ou outra Kelda “deixa escapar” uma informação que não poderia, ainda, ter consigo: na página 41, por exemplo, sabe o nome/alcunha de Pequena sem que tal lhe tivesse sido ainda enunciado.

Falando na Pequena, talvez seja pela idade com que li os livros “dela”, talvez seja porque realmente são os melhores da saga até ao momento (teria de os reler para o confirmar), a sua aparição e do Lobo foi dos acontecimentos que mais gostei no livro. O facto de as identidades se manterem secretas para Kelda mas óbvias para os leitores tornou-se algo engraço, quase carinhoso. Da forma que o enredo nos foi apresentado foram, de facto, os melhores mestres para os primeiros passos de Kelda.

Infelizmente as relações entre as demais personagens não correram tão bem. A agressividade era rapidamente demonstrada, cada personagem esperando o pior da outra sem razão aparente que não a de se tornar conveniente para o enredo a existência de uma zanga naquele momento. A excessividade das suas reacções e assumpções levou a que as ditas parecessem forçadas e pouco naturais.

A narração já foi referida por alto quando escrevi acerca do point of view de Kelda. Ficou-me, no entanto, por salientar que, mais uma vez, a autora exagera no uso das reticências e dos pontos de exclamação. Não são tão predominantes quanto no volume anterior, o que já demonstra uma melhoria, mas ainda se apresentam num número superior ao necessário.

Por fim, o livro parece apresentar-se como o fim de uma etapa e começo de outra. O seu objectivo principal pode ser entendido como a formação e preparação de Kelda. E, no seu fim, é isso que a protagonista está: preparada. De certo modo, é o fechar de um círculo com o conhecimento de que outro, o derradeiro, se seguirá.

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