“As Máscaras da Paixão”, Maria Lucília F. Meleiro

capa

MELEIRO, Maria Lucília F. – As Máscaras da Paixão, Lisboa, Ésquilo, 2013

Sinopse: Dois casamentos, três funerais, dois reis. No rescaldo das profundas convulsões que abalaram o século XIX português, dois reinados de charneira e síntese se destacam. À sombra da Constituição, a Monarquia vai sobrevivendo. O rei é a entidade suprapartidária que mantém a coesão e o consenso entre as várias forças que se agitam no xadrez político. D. Pedro V e D. Luís I encarnam duas formas distintas de exercer esse poder moderador, a que não é estranha a personalidade do próprio rei. À volta destes soberanos geraram-se vários mitos que persistiram até hoje. Uma investigação realizada a partir de centenas de cartas, diários, anotações e reflexões, legadas à posteridade por estes monarcas, permitem à autora reescrever a história, arrancando as máscaras sob as quais fervilham tumultos inconfessáveis e as mais secretas paixões.

Opinião: Após a morte prematura de D. Pedro e de sua esposa, D. Estefânia, sem filhos que se seguissem, é D. Luís, o pouco preparado irmão de D. Pedro, quem sucede ao trono. O livro ambienta-se nos reinados destes dois irmãos, filhos de D. Maria II, organizando-se em três partes. Em nenhuma delas a autora entra em pormenores, parecendo apenas roçar a superfície. Fornece, no entanto, o que baste para se compreender as situações e os acontecimentos que são narrados.

A primeira parte tem como narradores ora D. Pedro ora D. Estefânia, focando-se no desejo de ambos de modernizar Portugal e melhorar as condições de vida da sua população, nas agruras – principalmente políticas – que se lhes colocam no caminho, e no desagrado de D. Pedro pela conduta do pai, D. Fernando, e do irmão, D. Luís. Termina com a morte de D. Pedro, dando lugar à segunda parte, um relato mais ficcional, em terceira pessoa, das desventuras de dois ingleses, um irmão e uma irmã, em Portugal, na sua busca pelas jóias perdidas de D. Carlota Joaquina. As relações da inglesa, conhecida como Pretty, com D. Luís servem de fio de ligação entre as narrativas. Já a terceira parte faz um paralelo com a primeira. D. Luís e D. Maria Pia, sua esposa, alternam a narração, focando mais nas suas relações privadas, nos seus desejos e nos seus desagrados. O tom é indubitavelmente mais negativista que o da primeira parte, apesar de os narradores da terceira serem mais dados a festividades e excessos.

Apesar das suas diferenças – de narrador e de enredo – as três partes pecam essencialmente pelas mesmas coisas. Apesar de a nível ortográfico e vocabular a narrativa se encontrar bem conseguida, apresenta algumas gralhas que passaram despercebidas na revisão, bem como falhas a nível da pontuação, em particular nos diálogos. O mais desagradável à leitura é, contudo, o facto de os acontecimentos serem “informados” ao leitor: não há qualquer tipo de show, apenas tell, fazendo um atirar constante de informação que não apenas dá ideia de não haver peripécias – ideia essa fomentada pela falta de desenvolvimento dos acontecimentos da trama –, como torna a leitura aborrecida, acrescentando ainda, aos diálogos, que também não são imunes a este infodump, a sensação de artificialidade.

Retrocedendo à narração, é ainda de apontar alguma inconstância na primeira e terceira parte do romance. Apesar de na sua maioria seguirem a narração em primeira pessoa, vezes há em que passa para a terceira, sem qualquer razão ou separação, regressando logo depois à primeira: mais uma vez, sem qualquer razão ou separação.

Em suma, uma leitura que considerei aborrecida, pouco desenvolvida e em necessidade de uma melhor revisão.

Advertisements

“A Ruiva”, Fialho de Almeida

capa

ALMEIDA, Fialho de – A Ruiva, [s.l.], Projecto Adamastor, 2014

Sinopse: «Não tinha a menor ideia do que fosse ter mãe ou ter amigas. No seu contacto com a gente, entrevira apenas o tenebroso fundo de bestialidade que referve em cada homem, com um fragor de luxúria cruel. Vivera sempre em si própria, sem a reminiscência dum carinho que alma piedosa lhe houvesse prodigalizado. Quantos beijos deixara roubar aos moços do cemitério e quantas palavras tinha merecido aos gatos-pingados, todas vinham ervadas da mesma ideia e do mesmo intento. E assim crescera naquela incultura de espírito sem guia, sentindo dentro avigorar-se-lhe apenas uma tendência — a da cadela fértil, que vai entregar-se. Através da sensação rudemente nascida olhara o mundo, esfaimada e torpe como se fora um verme descomunal das sepulturas, incapaz, pelos desolados cenários que tinha contemplado nos seus dias de criança, de dar acesso na sua alma às multíplices emoções e susceptibilidades histéricas que fazem da mulher o precioso receptor das coisas mais subtis que a língua não exprime e os olhos mal sabem formular. (…) Foi o tio Farrusco quem cobriu de terra, sem comoção nem saudade, o corpo, espedaçado pelo seu escalpelo, da rapariga corroída de podridões sinistras, abandonada do berço ao túmulo, e pasto unicamente de desejos infames e de desvairamentos vis.»

Opinião: Um conto onde as vivências de João e Carolina ganham destaque: e, através deles, a miséria, a decadência, o fascínio da morbidez, a preguiça e a pobreza social. Os momentos de bem-estar são fugazes e precários. De certo modo, encontra-se um travo de horror ao encontrar um modo de viver tão baixo e infeliz parágrafo após parágrafo.

Ambos os protagonistas são complexos, sendo a partilha da sua infância essencial para a sua caracterização e compreensão. A de Carolina, a Ruiva, em particular, pelo inusitado da sua educação – ou antes, pelo modo como cresceu na falta de uma educação. Inversamente, as demais personagens esbatem-se, notando-se não serem mais que ferramentas narrativas.

A narração segue uma linguagem erudita, de frases longas e poucos diálogos, por vezes bela nas suas descrições sensoriais, por vezes cansativa.

Disponível gratuitamente em: http://projectoadamastor.org/a-ruiva-fialho-de-almeida/

“A Sacerdotisa dos Penhascos”, Sandra Carvalho

capa

CARVALHO, Sandra – A Sacerdotisa dos Penhascos, Barcarena, Presença, 2009

Sinopse: Os Guardiães das Lágrimas do Sol e da Lua vivem finalmente em plena união. Dos seus amores nasceram Halvard e Kelda, os gémeos sobre quem pairam profecias grandiosas e temíveis. Halvard está nas mãos de Sigarr, o Mestre da Arte Obscura, que espera treiná-lo para ser o Guardião do Conhecimento Absoluto, e usar o imenso poder deste em seu proveito.

Kelda, no topo da mais alta fraga da Ilha dos Penhascos, entrega o seu corpo dorido e espírito destroçado à violência da tempestade, enquanto as palavras da sua melhor amiga Oriana qual maldição : «Hás-de acabar sozinha e devorada pelo mal como o teu irmão!»
Como poderá lutar contra as forças negras do destino, se todos aqueles que ama lhe viram as costas? Será capaz de provar que os pais estavam enganados acerca da sua índole perversa? E resgatar Halvard do jugo dos Feiticeiros, cumprir os desígnios da Pedra do Tempo e salvar a sua própria alma? Ou está condenada a ceder ao apelo da Arte Obscura que pulsa no seu sangue e tomba ao abismo?

Opinião: A minha (lenta) jornada pela “Saga das Pedras Mágicas” continua com A Sacerdotisa dos Penhascos, o sexto livro que a compõe. Quem leu as opiniões aos livros anteriores sabe que não coloquei filtro nas reclamações. Este, conquanto ainda tenha bastante que se lhe aponte, representa, de certo modo, um corte com os seus antecessores, o que em grande medida se deve à mudança da protagonista e narradora.

Kelda e eu não começamos com o pé direito. Durante as primeiras cinquenta páginas a jovem conseguiu desmaiar três vezes, sem qualquer outro propósito que não o de facilitar a passagem de uma cena para outra. Tal início para a personagem fez-me torcer o nariz, mas felizmente esta foi uma tendência que se perdeu, pelo que ajeitamos o nosso andar. O que, contudo, levou a que Kelda se destacasse positivamente enquanto heroína foi o facto de ela reconhecer os erros, aprendendo e evoluindo com eles. Não é um processo fácil, e não foram raras as vezes em que parecia que a maturação estava próxima, apenas para a jovem se deixar levar novamente pelas suas falhas. No entanto, aos altos e baixos, esta aprendizagem da personagem foi-se dando e, com isso, a sua evolução.

Como já se torna comum nas obras da autora, a um prólogo na terceira pessoa segue-se uma narrativa em primeira pessoa. Se por um lado se notou diferenças entre a narração da Edwina e da Kelda (a palavra “aleivosa” apareceu muito menos vezes, por exemplo), por outro a diferença estrutural e vocabular entre a narração e as falas de todas as outras personagens não foi tão evidente. Este seria um ponto a ter em atenção, na medida em que também a fala e forma de expressão serve como caracterizador de uma personagem.

Mas não será o único. Outro grande factor que ganha importância com narrativas na primeira pessoa prende-se com o limite de conhecimentos do narrador. Naquilo que diz ao leitor, vez ou outra Kelda “deixa escapar” uma informação que não poderia, ainda, ter consigo: na página 41, por exemplo, sabe o nome/alcunha de Pequena sem que tal lhe tivesse sido ainda enunciado.

Falando na Pequena, talvez seja pela idade com que li os livros “dela”, talvez seja porque realmente são os melhores da saga até ao momento (teria de os reler para o confirmar), a sua aparição e do Lobo foi dos acontecimentos que mais gostei no livro. O facto de as identidades se manterem secretas para Kelda mas óbvias para os leitores tornou-se algo engraço, quase carinhoso. Da forma que o enredo nos foi apresentado foram, de facto, os melhores mestres para os primeiros passos de Kelda.

Infelizmente as relações entre as demais personagens não correram tão bem. A agressividade era rapidamente demonstrada, cada personagem esperando o pior da outra sem razão aparente que não a de se tornar conveniente para o enredo a existência de uma zanga naquele momento. A excessividade das suas reacções e assumpções levou a que as ditas parecessem forçadas e pouco naturais.

A narração já foi referida por alto quando escrevi acerca do point of view de Kelda. Ficou-me, no entanto, por salientar que, mais uma vez, a autora exagera no uso das reticências e dos pontos de exclamação. Não são tão predominantes quanto no volume anterior, o que já demonstra uma melhoria, mas ainda se apresentam num número superior ao necessário.

Por fim, o livro parece apresentar-se como o fim de uma etapa e começo de outra. O seu objectivo principal pode ser entendido como a formação e preparação de Kelda. E, no seu fim, é isso que a protagonista está: preparada. De certo modo, é o fechar de um círculo com o conhecimento de que outro, o derradeiro, se seguirá.

Contos de Carina Rosa

um presente inesperado.jpg

Um Presente Inesperado: Dos contos da Carina que já li, foi o que menos gostei. Trata-se de uma história curta, narrada em primeira pessoa, e centrando-se no Natal de um canídeo (um Yorkshire, arrisco?). Não tendo outras personagens que ganhem particular destaque, nem um enredo que seja independente das emoções do narrador, o facto de o leitor gostar ou não da narração tem grande influência em se gostar ou não do conto. Por aqui, suponho que já dará para compreender que não gostei da narração: considerei a personagem do cão mal construída. O seu pessimismo, a convicção de que seria abandonado pelos donos e o ódio que afirma ter pelo Natal parecem surgiu ali sem qualquer contexto ou razão, apresentando-se no animal como sendo aleatórios, algo que não apreciei. Talvez se tivessem havido alguns indícios mal interpretados pelo cão – e através dele pelo leitor – as suas reacções e suposições não me tivessem parecido tão descabidas. Por outro lado, a forma narrativa apresentou algumas dificuldades em caracterizar o cão como sendo um cão. Apesar de se referir a um rabinho que abana e às patas, no seu geral a forma de se exprimir apresente características que associamos muito mais depressa a um ser humano. Ou seja, não tive a impressão de ser um cão o narrador, apesar de ser essa a proposta.

Disponível gratuitamente em:

https://www.smashwords.com/books/view/597089

a rapariga do lago.jpg

A Rapariga do Lago: O mais longo, até ao momento, dos contos disponibilizados gratuitamente pela autora centra-se no despoletar do romance entre um músico cego e uma jovem pressionada a ter de escolher entre seguir uma carreira que lhe trará garantia financeira e aquela que é a sua vocação. Apesar de ser um dilema que conheço bem, não houve grande identificação, provavelmente devido ao modo como a carreira de Medicina foi tratada: reflectindo a ideia ainda muito vincada de que é uma garantia de riqueza, algo que já não coaduna com a realidade. Trata-se de um ponto onde o conto apresenta bastantes ideias pré concebidas que não correspondem à realidade, destacando-se, por exemplo, a afirmação da mãe da protagonista de que o pai lhe conseguiria arranjar um emprego no hospital onde trabalha: nada mais longe da verdade, em particular caso se trate de um hospital público, detalhe que não fica explícito na narrativa.

A relação entre Luísa e Luís tem um desenvolvimento crescente, não havendo etapas demasiado apressadas, nem momentos demasiado longos. Julgo já o ter dito em privado, mas convém também dizê-lo em público: considero os diálogos como sendo o ponto forte desta autora. A Carina consegue que as trocas de palavras entre as suas personagens fiquem naturais, agradáveis de ler, e esclarecedoras sobre as emoções e situações vivenciadas pelos seus protagonistas.

Também o final saliento como sendo algo positivo, não tanto pela escolha que Luísa fez (apesar de, pessoalmente, ter achado ser a correcta e aquela que esperava que ela tomasse), mas principalmente por a ter feito mais por ela própria, por aquilo que deseja e pelo seu talento, e não tanto pelo rapaz por quem se apaixonou.

Disponível gratuitamente em:

https://www.smashwords.com/books/view/576633

olhos de vidro.jpg

Olhos de Vidro: Ambientado no mundo do espectáculo, o conto centra-se na situação psicológica da sua protagonista que, embora nunca tal seja dito especificamente, julgo que poderemos concluir encontrar-se relacionado com um distúrbio de personalidade. A protagonista é demonstrada como uma personagem complexa, cuja situação e escolhas a levam a um final trágico, mas lógico. Através das descrições e diálogos, a narrativa cria imagens bonitas e teatralizadas, em consonância com o ambiente. Destes três contos disponíveis julgo ser este o melhor conseguido.

Disponível gratuitamente em:

https://www.smashwords.com/books/view/503449