“Os Dias de Saturno”, Paulo Moreiras

capa

MOREIRAS, Paulo – Os Dias de Saturno, Porto, QuidNovi, 2009

Sinopse: “No dia 7 de Novembro de 1699, reúnem-se no Convento de Cristo dois grandes amigos alquimistas: Domingos Rodrigues, cozinheiro do rei D. Pedro II e autor do primeiro livro de cozinha publicado em Portugal; e o médico da Casa Real João Curvo Semedo, um dos mais conceituados do seu tempo. Ambos vêm para assistir do terraço do convento a um eclipse do Sol — fenómeno misterioso que dificilmente voltarão a presenciar durante as suas vidas.

Na tarde desse mesmo dia, nas cercanias da vila de Tomar, a escuridão que se abate de repente sobre o mundo precipitará o parto de uma jovem a caminho de casa, cujo filho nasce com uma estranha marca no peito, vista imediatamente como castigo divino e maldição eterna. Mas será, curiosamente, esse sinal raro que aproximará a vida do recém-nascido da dos dois alquimistas e coserá para sempre os seus destinos. Mesmo que o rapaz só o venha a saber muitos anos depois. Quiçá tarde de mais.
Passado numa época de grandes transformações sociais, fausto, riqueza e avanço científico e intelectual, Os Dias de Saturno — do autor do aplaudido A Demanda de D. Fuas Bragatela — é um romance fascinante sobre o amor e a sua impossibilidade, com doses iguais de humor e dramatismo, escrito numa linguagem que torna a sua leitura irresistível. A não perder.”

Opinião: Uma capa bonita, um preço convidativo e uma sinopse que me interessou levaram-me a adquirir este livro. De todos estes factores, só culpo a sinopse pela decepção. Desde a escrita ao enredo, não houve muito que me tivesse agradado. Mas iremos por partes.

Começando pela escrita, o que nela sobressai é o uso do vocabulário. Nota-se a preferência do autor por utilizar palavras pouco comuns, até mesmo já em desuso e em processo de desaparecimento, com a intenção, talvez, de tornar a narrativa erudita. O seu uso excessivo, no entanto, ainda que o leitor saiba o seu significado, tornou esta intenção quase que uma paródia. Ademais, uma narrativa que use vocábulos como “donaire” e dois parágrafos a seguir opte por “puta” e “putaria” só porque sim (tivesse sido para expressar a forma de falar duma determinada personagem, por exemplo, já seria mais compreensível) demonstra um desequilíbrio e falta de consistência que não passam despercebidas ao leitor.

Mas se não gostei da narrativa, também não posso dizer que tenha gostado da história que foi narrada. É difícil apontar um enredo. Durante a maior parte da leitura estive com a sensação de que me encontrava ainda na introdução, até que os acontecimentos finais se precipitaram e me apercebi que a totalidade do enredo pretendido era mesmo tudo aquilo que tinha acabado de ler. Procurarei resumir as impressões que me deixou: se umas vezes se alongava em demasia (e em tell) sobre personagens que nem chegavam a aparecer, nem influenciavam enredo ou personagens que efectivamente apareceriam (como, por exemplo, o que foi quase uma nota-de-rodapé de várias páginas sobre a avó de Saturnino, o protagonista, inserida a meio da descrição do nascimento do dito), outras, como os acontecimentos finais, ocorreram de tal maneira catapultados que levou a que em vez da assombração, digamos assim, que a revelação faria, levou ao erguer de sobrancelha céptico, acompanhado do pensamento “O Eça fez melhor.”

Por fim, as personagens: talvez pela junção dos factores já abordados, pareceram-me unidimensionais e pouco desenvolvidas. No caso de Saturnino a sua construção chega a ser irrealista: o protagonista é mudo, um detalhe que cheguei a considerar interessante e uma mais-valia. Perto do fim do romance, no entanto, começa a falar normalmente devido a um “choque” e a mudez de toda a sua vida é explicada como tendo sido o resultado de um trauma de infância: a tentativa de afogamento por parte da sua mãe, quando Saturnino era ainda um recém-nascido. O meu sentido de noção desconfiou de imediato sobre a verosimilhança de um bebé com um dia de idade adquirir um trauma como o descrito, e, de facto, procurei uma opinião médica que mo confirmou.

No geral, não posso dizer que tenha sido uma leitura que me agradou ou que recomende.

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