“Viagem à Índia”, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

capa

MAGALHÃES, Ana Maria, ALÇADA, Isabel – Viagem à Índia, Alfragide, Caminho, 2003

Sinopse: Nesta viagem à Índia, Orlando e os seus amigos Ana e João enfrentaram tempestades, incêndios, conflitos, traições, perigos de toda a ordem ao lado dos marinheiros ousados que acompanharam Vasco da Gama. E com eles saborearam também o prazer das grandes descobertas.

Opinião: Antes de Harry Potter chegar e destronar tudo e todos, a colecção Viagens no Tempo tinha estatuto entre os meus livros favoritos, sendo uma das principais responsáveis pelo meu gosto de História. Chegava a não compreender como é que Uma Aventura era tão conhecida, enquanto esta colecção se mantinha mais nas sombras. Foi principalmente por isso – pelo desejo de terminar uma colecção que me foi e é tão querida, assim como pela curiosidade de ver como os encararia agora – que peguei no Viagem à Índia, um livro pelo qual esperei durante a minha infância, e que quando foi finalmente publicado já eu tinha saído dela.

Não foram poucos os pontos que se destacaram que não eram exactamente como me recordava. Já não saberei dizer se tal se deve a eu ter uma diferente percepção, ou se é algo que aconteceu mais com este livro e não tanto com os anteriores. Desconfio de uma mistura. Por exemplo, parece-me que o desenvolvimento das personagens e sua participação no enredo ficou aqui aquém daquele que temos em livros anteriores. O Orlando, que eu recordo como uma figura entre um avô e um professor, encontra-se extremamente apagado. A Ana parece reduzida a um estereótipo feminino, cujo único papel no enredo é namorar dois moços em simultâneo e desculpar-se com “não sei qual deles escolher, amo-os aos dois” – ficando por explorar o que seria o seu maior desafio, não ter o seu género descoberto, estando presa num navio com vários homens durante tempos a fio. Nem ficamos a saber que nome masculino adoptou, ou se chegou a adoptar algum! Já o João apresenta-se de acordo com a minha lembrança: um brincalhão afoito, de mente e língua rápidas. As minhas únicas ressalvas prendem-se com o facto de as suas peripécias serem episódios isolados – algo que julgo dever-se à visão de adulto, e que para o público-alvo não é problemático – e o esquecimento sobre os objectivos do rapaz que aconteceu aqui e ali (por exemplo, a sua declaração de vingança ao ser vítima de Álvaro Novo, que apesar de todo o seu ênfase, é esquecida e nunca mais mencionada, nem com a intenção de afirmar que dela desistiu).

Outro ponto de divergência entre a leitura actual e as minhas lembranças prende-se com a rapidez da acção. Tudo acontece muito rapidamente: as personagens entram quase imediatamente na máquina do tempo, sem grandes delongas ou introduções, a viagem decorre com os factores históricos como pano de fundo, permitindo algumas aventuras, e o final dá-se ainda o trio protagonista não regressou ao seu tempo actual, optando por deixar no ar as intenções de resolver as questões que ficaram em aberto desta ou daquela maneira, em vez de demonstrar a sua resolução efectiva. Atendendo ao público-alvo, não considerei esta apresentação rápida de aventuras e rapidez no desenvolvimento do enredo como algo negativo: adequa-se ao leitor em vista. Senti, contudo, uma certa falta de desenvolvimento, que acredito ser mais deste livro em específico, que doutras da colecção. Apesar dos anos, tenho em memórias passagens e eventos que reflectem um maior desenvolvimento, quer do contexto histórico, quer das personagens – tanto protagonistas como secundárias – que aqui não se deu, talvez por um desejo de o acabar o mais depressa possível.

No geral, considerei Viagem à Índia como adequado ao público a que se destina. Gostei de o ler, gostei de recordar, e gostei de comparar. As ilustrações mantêm-se como uma mais-valia que muito animam. Não me parece, contudo, que se encontre entre os melhores da colecção, havendo outros que lhe são consideravelmente superiores em matéria de desenvolvimento histórico e das personagens.

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