“Fim d’Época”, Lourenço Pereira Coutinho

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COUTINHO, Lourenço Pereira – Fim d’Época, Estoril, Prime Books, 2007

Sinopse: O romance histórico Fim d’Época marca o regresso do autor a uma das épocas que mais tem investigado e aprofundado. O Portugal do início do século XX, os agitados últimos anos da Monarquia, culminando no assassinato do rei D. Carlos. É neste tumultuoso contexto histórico, num Portugal dominado pelo caciquismo, que vamos encontrar os dois protagonistas, Miguel Telles de Almeida e José, cada um lutando no lado oposto da barricada, mas unidos por um destino trágico e cruel.

Fiel à sua interpretação dos factos políticos e sociais da época, Lourenço Pereira Coutinho soube enredar com mestria a aventura das personagens ficcionadas com outras, emprestadas da realidade, como o incontornável rei D. Carlos e o seu ministro João Franco, José Luciano de Castro, José Maria de Alpoim, Hintze Ribeiro, Luz de Almeida, França Borges e tantos outros.

Opinião: Contextualizado nos últimos tempos da Monarquia – e culminando no Regicídio –, o romance procura dar várias visões dentro dos diferentes “lados”. Tratou-se de um esforço que permitiu a variedade de opiniões e vivências, reflectindo o facto de que raramente temos um lado negro e um lado branco, por assim dizer.

Esta variedade é um dos factores que contribuiu também para o potencial das personagens: outros prendem-se com a sua individualidade e as relações que entre elas se estabelecem e se metamorfoseiam ao longo da leitura. No entanto, apesar de ser possível vislumbrá-las como construções interessantes, denota-se uma falha em relação à empatia entre personagens e leitor. O desequilíbrio entre tell e show, com um uso excessivo do primeiro, leva a que, ainda que o leitor saiba a história e sentimentos das personagens, não o sinta propriamente, chegando, em alguns momentos, a tornar-se aborrecido.

Sabendo o leitor um mínimo de História de Portugal, não é difícil adivinhar o final geral do livro. Também as reviravoltas em relação às personagens originais são facilmente adivinháveis por aquilo que nos é dado a ler. O gosto que do enredo se poderá retirar prende-se mais com os conhecimentos históricos do autor, os quais são aqui utilizados tanto na ambientação quanto nos diálogos.

Por fim, a narração. As falhas de pontuação e de uma revisão em geral são visíveis, faltando ao livro um maior polimento por parte do serviço de revisão. A forma de escrita do autor, por sua vez, é acessível ao público em geral, não sendo demasiado simplista, nem demasiado rebuscada.

No geral, considerei tratar-se de um romance que ficou aquém do seu potencial.

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“A Boneca Preta e Outras Fantasias”, Cristiano Albuquerque

ALBUQUERQUE, Cristiano – A Boneca Preta e Outras Fantasias, [Braga], Edições APPACDM Distrital de Braga, 1994

 Sinopse: Sem sinopse disponível.

Opinião: Na sua colectânea Cristiano Albuquerque escreve sete contos simples do género fantástico, próximos às fábulas e histórias tipicamente orais. Apesar dos enredos e personagens distintos, todos os contos pareceram-me encontrar-se sensivelmente nos mesmos termos, daí apenas ter ficado com uma opinião geral: numa escrita agradável, mas que não se destaca quer pela positiva, quer pela negativa, o autor desenvolve contos cuja principal mais-valia são as premissas. Estas ora pegam em crenças de infâncias, levando-as a roçar o realismo mágico, ora partem das injustiças feitas à boneca preta que intitula o livro.

O maior problema que considerei existir prende-se com a interpretação que se pode facilmente tirar como “ensinamento” de alguns dos contos, os quais são francamente ultrapassados e de mau gosto. Para especificar o que procuro dizer, pegarei no final de “A Boneca Preta” como exemplo: atormentada pelas outras bonecas, e ignorada pela menina, a boneca preta apenas consegue um pouco de felicidade quando perde a cor. Talvez não tenha havido intenção do autor em transmitir a mensagem que me chegou, no entanto, é inegável a facilidade em interpretar um cariz racista em tal final, e, julgo eu, fazê-lo com bases no que se encontra no texto.

“Estou Nua, e Agora?”, Francisco Salgueiro

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SALGUEIRO, Francisco – Estou Nua, e Agora?, Alfragide, Oficina do Livro, 2014

Sinopse: Alex, uma nova-iorquina, vive uma vida perfeita: acabou o curso e tem um emprego garantido. Está prestes a cumprir os sonhos que desenharam para ela. Mas um desgosto de amor leva-a a viajar pelo mundo. Precisa de se conhecer melhor e ultrapassar os seus medos. Da Tailândia ao Brasil, da Austrália a Marrocos, faz Couchsurfing dormindo em colchões, beliches, camas limpas, camas sujas, parques públicos – até em minha casa, em Lisboa. Nudismo, algum sexo, ilhas paradisíacas, jantares românticos, protestos de rua, festivais no deserto, um encontro com Nelson Mandela, mulheres que disparam bolas de ping pong das suas zonas íntimas – tudo isto faz parte desta história real passada nos sete continentes, ao longo de um ano, que representa tudo aquilo que gostaríamos de fazer.

Há pessoas que cometem erros por se acomodarem e outras que cometem erros por tentarem. A Alex preferiu errar tentando. E vocês?

Opinião: Este livro cai na categoria daquelas histórias que se pretendem, directa ou indirectamente, como um “acordar” do leitor, colocando-o em contacto com a experiência de alguém que, tendo a vida planeada, a deixa para sair à aventura. Através das viagens sem grandes planeamentos, Alex vive um período de crescimento pessoal crucial e, através dos seus relatos, o leitor passa também a conhecer parte das suas experiências. Conhecer, no entanto, não o mesmo que as sentir, razão pela qual é provável que, finda a leitura, haja uma vontade de sair a fazer as próprias viagens.

A premissa do livro não é uma que me desagrade, e as experiências narradas não são aborrecidas. No entanto, não gostei da leitura. O estilo narrativo, algo cinzento, não contribuiu para a transmissão de emoções de que este tipo de história é tão dependente. O formato escolhido deixou também a desejar, destacando-se, pela negativa, o trecho em que se optou por fazer copypast de reviews na internet de livros anteriores de Alex, em vez de se prosseguir com a narrativa. Pouco ou nada ficamos a saber sobre essa parte das suas viagens, apenas que alguns dos que leram sobre elas gostaram muito (publicidade?).

O que mais contribuiu para tornar a leitura desagradável, no entanto, prendeu-se com a atitude de Alex. Não há muita novidade em histórias de pessoas que largaram tudo para “se encontrarem” em viagens pelo mundo. A narração de Alex não só nada tem que a faça diferenciar-se destas outras histórias, como ainda transmite uma arrogância e um sentimento de superioridade que levam a questionar se realmente aprendeu o que alega ter aprendido. Onde está a mente aberta? Onde está o respeito pelas outras pessoas, culturas, modos de encarar o mundo? Para quem alega ter aberto os horizontes para tudo isto, Alex demonstra um desprezo por quem opta por outras formas de viajar e viver que não se parece coadunar com tais ensinamentos. O couchsurfing é, sem dúvida, uma experiência única de viajar e conhecer o mundo (pessoas incluídas). Disso não ficaram dúvidas, e para quem quiser saber um pouco mais sobre este meio, o livro é útil. Não é, no entanto, “o” meio, na medida em que pessoas diferentes requerem meios diferentes, e momentos da vida diferentes requerem medidas diferentes. Que num ano de crescimento Alex não tenha aprendido a valorizar um desses meios sem a necessidade de desvalorizar os restantes leva, de facto, a questionar todas as suas experiências.

“O Cavalheiro Inglês”, Carla M. Soares

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SOARES, Carla M. – O Cavalheiro Inglês, Lisboa, Marcador, 2014

Sinopse: PORTUGAL. 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia.

Os ingleses que permanecem em Portugal não são amados.

O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica.

Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa descrição recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família orgulhosamente portuguesa

Opinião: Desde que tive a oportunidade de ler esta história enquanto beta-reader, que tenho estado à espera para comprar o livro. (Não tomem a demora no blog como demora na leitura.) Se já na primeira vez gostei, a segunda pareceu ser ainda melhor, com as arestas mais limadas pelas revisões que entretanto se deram – ainda que estas se tenham verificado mais em detalhes, e não na generalidade.

Como a sinopse deixa já claro, O Cavalheiro Inglês ambienta-se numa época de transição em Portugal, onde ideais e descontentamentos estão à flor da pele e o paradigma sociocultural conhecido se encontra à beira da ruptura. E o leitor sente-se, de facto, emerso neste período da nossa História: uma sensação que se deve não apenas às descrições – ricas em detalhes caracterizadores –, mas também à escolha da autora em demonstrar as várias facetas da sociedade da altura. Desde o inglês que comercializa em Portugal à velha nobreza falida, passando pelos revolucionários, de alta e baixa condição. A todos é dada voz, perspectiva e dimensão, enriquecendo o enredo e tornando a história e suas personagens mais empáticas para o leitor.

Mas se a ambientação histórica se encontra bem conseguida, o enredo não fica atrás. Algo que desgosto em romances é quando a relação amorosa entre as personagens se desenvolve demasiado depressa, e demasiado “virada” para os próprios amantes, como se o resto do mundo não existisse. Aqui não encontramos nem uma coisa nem outra. Apesar de Robert sentir uma atracção imediata por Sofia, a relação entre os dois leva o seu tempo a desenvolver-se e a ser cimentada – em particular pelo lado de Sofia –, tornando-a verosímil e, francamente, muito mais interessante de se acompanhar. Ao mesmo tempo, a narrativa não se deixa absorver pela linha do romance, abordando também outras questões que, adequadas à época, são, infelizmente actuais, desde a bulimia, ao abuso psicológico por parte dum parceiro, ou mesmo os sacrifícios que se está disposto a fazer por nada mais que orgulho e preconceito.

Os pequenos dilemas e os problemas levantados acabam por se unir para formar uma só narrativa, multifacetada e consistente, onde o pano de fundo nunca deixa de ser o confronto entre a rigidez dos modos antigos e as ânsias dos modos novos.