“Insonho: Durma Bem”, VVAA

capa

VVAA – Insonho: Durma Bem, Paraná, Estronho, 2015

Sinopse: O folclore português é nostálgico. É fado e saudade. Saudade das tardes sentados, no chão da sala, a ouvir o avô contar sobre o lobisomem. É medo e respeito. Como naquelas noites em que nos deitávamos e pensávamos no Insonho ou na Mula sem Cabeça. Falar sobre o folclore português é viajar pelo interior de Portugal e encontrar as lendas que cheiram a infância e se perderam na pressa de crescer.
A antologia “Insonho – Durma bem!” pretende resgatar essas memórias; trazer ao leitor a inquietude de ser criança, outra vez, e temer as histórias destes seres tristes ou maléficos. Aqui reúnem-se as Mouras Encantadas, o Saca-Unhas, o Adamastor, o Carago, o Bicho Papão e outros numa coletânea que promete embalá-lo num sonho fantástico e cheio de magia. Mas cuidado. Eles podem aparecer… Durma bem!

Opinião: Quando a Estronho e a Valentina Silva Ferreira anunciaram a antologia, abrindo o call to arms, a temática chamou-me de imediato a atenção. Portugal tem um folclore riquíssimo em lendas e mitos, não só muitos como também variados, e apesar de me parecer que este livro apresenta uma boa mão-cheia do aproveitamento das ditas, também muito ficou ainda por explorar. Espero, portanto, ver outros trabalhos que o façam.

Reflectindo o seu ponto de partida, a antologia mostra nove contos muito diversos entre si, tanto nas lendas abordadas, como nos estilos narrativos. Têm em comum apenas o folclore português, e embora a grande maioria seja ambientada no rural, também aí encontramos excepções. Mas melhor será a opinião individual a cada conto:

“Ao Meio-dia”, Carlos Silva: O conto de abertura recupera um leque de lendas antigas, como o carago, o homem das sete dentaduras e bruxarias de aldeias (talvez aquilo que o leitor mais depressa reconhece), interligando-as numa história consistente e bem ambientada, de amor, invejas e tragédia. Julgo que poderia ter desenvolvido mais as informações em relação ao homem das sete dentaduras, que não ficou explícito para quem não o conhece, mas nada mais tenho a apontar, excepto, e por um bom motivo, as citações do início, que se destacaram – não é todos os dias que vemos éditos reais e verídicos em relação a sereias.

“Duelo de Lendas”, Valentina Silva Ferreira: Temos aqui a interligação de várias criaturas místicas, em particular as relacionadas ao sono, que efectivamente duelam entre si, fazendo da protagonista humana e doente campo de batalha (pobre moça). Num twist final o vencedor é outro, que não duelando açambarcou os lucros. Tanto a descrição do ambiente em redor da personagem quanto das suas acções físicas encontra-se muito boa; no entanto, senti falta de um maior desenvolvimento no terror sentido pela personagem no pesadelo, a nível psicológico. Em termos de escrita, aponto apenas a pontuação nos diálogos, que vez ou outra falhou.

“Na Escuridão” Vitor Frazão: À primeira vista a premissa parece “adolescentes fazem o que não deviam e dá asneira”, sempre um favorito. Toda a ambientação – e interacção entre as personagens – dá a entender um filme de terror série B, com uma Moira Encantada. Otwist final, no entanto, confere mais substância às personagens e desvenda os motivos ocultos. Mais uma vez notei uma falha na pontuação dos diálogos, mas num ponto bem mais positivo temos uma boa escrita coloquial, já característica do autor.

“A Voz de Lisboa”, André Pereira: O que inicialmente parece “apenas” um acidente no metro de Lisboa, logo apresenta um cariz sobrenatural. Visto que é narrado em primeira pessoa, o leitor acompanha a (in)compreensão do protagonista, o que salienta o terror psicológico. Considerei um excelente crescimento do texto, tanto da parte do caminho da individualidade para a legião, como da lenta resposta que se foi formando ao chamamento e, em consequência, da compreensão dos acontecimentos.

“A Noite em que o Bicho-Papão Encontrou Kafka no Cimo de um Telhado”, Francisco J. V. Fernandes: Um conto de narrativa calma que alterna entre a infância marcada pelo receio do Bicho-Papão e a velhice, nos últimos momentos de vida. Efectua uma junção muito bem conseguida entre a lenda portuguesa – delimitada por características portuguesas, como a cantilena da avó para afugentar a criatura – e A Metamorfose, de Kafka.

“Sant’Iroto”, Ana Luiz: O início fez-me lembrar a minha infância, visto que cresci numa quinta, e reconheci as actividades da catraia. Toda a ambientação me pareceu natural, a evocar o verídico tanto da dita quinta, quanto da aldeia dos meus bisavós, bem mais para o interior. Trata-se do conto que mais adoptou o tom que utilizamos para falar entre nós das “experiências” sobrenaturais. Tem, no entanto, algumas gralhas.

“Por Sete Encruzilhadas, por Sete Vilas Acasteladas”, Miguel Raimundo: Um conto lupino, que recupera a ideia mais nacional de lobisomen e segue uma narrativa que associamos mais ao tradicional. Um detalhe curioso é a narradora ser uma bruxa de um século anterior ao nosso, a contar uma história ainda mais anterior que o seu próprio tempo.

“Ao Sexto Dia”, Inês Montenegro: Porque ninguém comenta os seus próprios contos em blogs literários, não é?

“Sangue, Suor e… Unhas”, João Rogaciano: O último conto apresenta uma estrutura policial, sendo um encontro entre este género e o sobrenatural. Julgo que poderia ganhar com um maior desenvolvimento do sentimento das vítimas quando são atacadas, e alguns dos diálogos são demasiado expositivos, tornando-se pouco naturais. Também as vírgulas falharam por algumas vezes. É de salientar, a nível positivo, o encadeamento dos acontecimentos e sua condução, bem como o twist final acerca do assassino.

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