Fornada de Contos VI [Fantasy&Co]

Foi com surpresa que me apercebi fazer cerca de um ano desde que abri a página do Fantasy&Co para ler os contos e escrever umas linhas de opinião sobre os mesmos para o blog: efeitos secundários de já ler bastantes deles antes da sua publicação. A publicação, no entanto, é o que traz o “produto final”, e, em consequência, eis uma fornada de doze contos de Ricardo Dias, Pedro Pereira, Sara Farinha, Carina Portugal e Hugo Cântara, a ser complementada mais tarde com os que ficaram por opinar.

“O Visitante e o Forasteiro”, Ricardo Dias: O conto pega na criatura mítica do Djinn, começando com um tom pesado, quase lúgubre, que se vai aligeirando até ao fim, altura em que transmite a sensação inversa. Conto simples de leitura rápida onde a simplicidade do twist – as verdadeiras intenções das duas criaturas – lhe dá a sua graça.

“A Emboscada”, Pedro Pereira: Gira em torno de um ataque e de uma batalha, onde três facções desejam um só objecto. Complementa um conto anterior do autor, cada um expondo o ponto de vista de diferentes facções, ainda que ambas humanas. Tal como esse conto precedente, assemelha-se mais a um fragmento de algo maior do que a um conto independente. Algumas das frases parecem apresentar gralhas, no entanto, outras destacam-se positivamente pelas escolhas vocabulares, em particular a nível descritivo.

“A Flecha Perdida”, Pedro Pereira: Também este um conto de batalha, começa calmo, com uma cena de caça que apresenta as personagens principais, duas irmãs, e contextualiza o leitor dentro do enredo. Apresenta elementos que o ligam ao conto anterior, “A Emboscada”, e serve bem o seu propósito de prelúdio: não apenas aos contos já referidos, como a um romance maior, que após a leitura deste punhado de contos suspeito que o autor anda a desenvolver (não passa, no entanto, de conjectura minha). A nível narrativo apresenta algumas inconsistências verbais.

“Migalhas de Ontem”, Sara Farinha: O conto parte da trope de viagem no tempo, não só à Batalha de Aljubarrota, mas em particular à célebre e mítica padeira. O mistério em torno do que é esperado que a protagonista faça – e o porquê de ela se ver naquela situação – é revelado aos poucos, em “migalhas”, sendo as descobertas do leitor em consonância com as da protagonista. Contém falhas na pontuação dos diálogos, algumas vírgulas mal colocadas e a nível descritivo julgo que poderia ter desenvolvido mais o episódio dos sete espanhóis. Nota-se a importância dada ao ofício para a caracterização do espaço, o que levou a uma ambientação bem conseguida.

“Diferente”, Ricardo Dias: Apesar de ser um futuro distópico controlado pelas Clérigos, notam-se reacções que estão bem patentes no presente, sendo tão erradas e desagradáveis quanto uma distopia. Gostei em particular da relação entre Samuel e Eliza e de ver a representação dos erros que se cometem hoje em dia, não apenas em relação aos assexuais, mas a todos os que não são heterossexuais. Ressalvo, no entanto, que um assexual é uma pessoa que não sente atracção sexual, podendo ter outras (romântica, estética…) ou gostar do acto sexual em si.

“A Tempestade”, Pedro Pereira: O que não seria mais do que uma paragem numa igreja para abrigo duma tempestade torna-se em algo mais perigoso quando uma besta ataca a congregação. Não me pareceu um dos melhores contos do autor, tendo-o considerado confuso: a besta carece de maior desenvolvimento, não se compreende qual a direcção do enredo e as personagens são unidimensionais.

“Actos de Dor”, Sara Farinha: Compreende-se muito cedo que Nico está morto, ficando a dúvida se faz o que faz por vingança, por não querer ficar sozinho, ou por ambos. De igual forma, também desde cedo se desconfia – com bastante certeza – o que terá acontecido entre ele e a irmã, relação que despoletou tudo. Apesar disto, a prossecução e condução do conto ficaram confusas. No final compreende-se mais ou menos todo o enredo, mas antes disso há uma incompreensão não pelo mistério, como seria de esperar, mas pela confusão na narração.

“Herança do Escritor”, Hugo Cântara: Segue uma linha de enredo simples em torno de um segredo de família, de escritor. Ou melhor, da passagem desse segredo de uma geração para outra. As personagens também se caracterizam pela sua simplicidade e generalidade, julgo que propositadamente, visto que a nenhuma delas é atribuído nome. Apresenta falhas nas vírgulas nos vocativos, na pontuação dos diálogos e na regra por porquês.

“Nó Górdio”, Ricardo Dias: Pega na trope de viagens do tempo e anomalias temporais. Começa por mostrar o “exterior” – um homem que por acaso encontra e usa um dispositivo de viagem no tempo e é interceptado pelo protagonista –, para irmos indo pela Agência onde o dito protagonista tem papel de relevo, e acabarmos na personagem principal e seu conflito interno e pessoal: um “feitiço vira-se contra o feiticeiro” e uma decisão difícil. A narração encontra-se pejada de referências culturais, fazendo ligações entre a Agência deste conto com elementos de outros wordbuildings – uma em particular que me fez ficar contra a Agência, não se trata assim o Doctor! –, os quais não são enunciados, mas apresentam informações que bastem para serem identificados. Apresenta falhas na pontuação dos diálogos.

“Reviewer”, Ricardo Dias: Numa mistura entre tecnologia e lenda urbana, o excesso do vício é aqui tornado em conto. Trata-se de uma leitura rápida e curta, numa narração bem desenvolvida.

“Lâmina de Cristal”, Pedro Pereira: Essencialmente descritivo, centra-se no caminho e desafios do protagonista enquanto este procura cumprir a tarefa que tem em mãos. A primeira parte alterna com flashbacks da sua infância, o que lhe atribuiu um pouco mais de identidade. Notei uma repetição de palavras, que deu a ideia de eco no texto, e a grande maioria dos desafios são resolvidos por “energia”, algo próximo à ideia de magia.

“Doze Doses de Ilusão”, Carina Portugal: Joga com a fronteira entre a ilusão e a realidade, trocando as voltas do leitor até ao fim. Inicialmente fez-me lembrar “A Menina dos Fósforos”, numa adaptação a um outro género, contudo, apesar de ainda ver uma influência do ambiente, nada mais têm a ver um com o outro.

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