“Dom Casmurro”, Machado de Assis

capa

MACHADO DE ASSIS – Dom Casmurro, [s.l.], Adamastor, 2013

Sinopse: Tudo o que contei no fim do outro capítulo foi obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido. Dei um pulo, e antes que ela raspasse o muro, li estes dois nomes, abertos ao prego, e assim dispostos:

BENTO
CAPITOLINA

Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficámos a olhar um para o outro… Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falámos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exacta daquele gesto. Devia tê-la marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.

Não soltámos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros… Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o cálice, os lábios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende, e é a língua católica dos homens. Não me tenhas por sacrílego, leitora minha devota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. Estávamos ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham…

Opinião: Já vinha em “anos” a intenção de ler Machado de Assis. Não apenas por ser considerado um dos maiores escritores brasileiros, mas também pelo número de pessoas, em diferentes alturas, e em cujos gostos confio, que mo têm aconselhado. Por nenhuma razão em particular, tenho estado constantemente a adiar, até à semana passada, em que peguei na versão ebook disponibilizada pelo Adamastor e lá fui leitura adentro. Veredicto final: gostei.

A história é extremamente simples, sendo a narração autodiegética e em capítulos curtos (curtíssimos!) da adolescência de Bentinho Santiago – a sua família, os seus conhecidos, o seu amor por Capitu, o grande amigo Escobar, o seminário – o que toma a maior parte do romance. Menos palavras e capítulos são dedicados às fases da vida que se seguiram, o que de si já expõe a importância que Santiago, alcunhado Dom Casmurro, dá a uns momentos e a outros, ou, pelo menos, quais os que desejará recordar mais e em maior detalhe. Não o culpo por isso. A fase final do seu romance – e da “inocência” de Santiago, por assim dizer – é um virar na história que magoa profundamente Santiago, mas também o faz desenvolver enquanto personagem, tirando-lhe a constância que teve até ao momento.

Não foi, portanto, o enredo o que me fez gostar do romance. Não o detestei, mas também não o considerei nada de extraordinário, e o mesmo vale para as personagens. Sobra, portanto, a escrita: o uso que Machado de Assis dá às palavras é o que verdadeiramente me levou a gostar da leitura, e a compreender o estatuto que a obra – e o autor – detêm. Além de um uso, digamos, belo, não perdeu o seu carácter prático de transmissão de mensagem a um receptor, nem me pareceram justas as acusações de “escrita complicada”. Pareceu-me uma escrita francamente acessível, capaz de fazer o leitor compreender não apenas o que está a ser dito, mas, em particular, o que não está a ser dito. E essa capacidade foi o que maior interesse me despertou. Como já disse acima, a narração é feita em primeira pessoa pelo protagonista. Na maioria dos casos, tal cinge o leitor ao ponto de vista do narrador. A caracterização que temos das outras personagens está delimitada pelo modo como o narrador as vê. A compreensão que temos dos acontecimentos depende, muitas vezes, da compreensão que o narrador detém. Aqui, não. Em Dom Casmurro a narração de Santiago consegue não apenas demonstrar como ele se posiciona e vê os outros seu redor, como também levar o leitor a aperceber-se daquilo que passa despercebido a Santiago: de um modo que se torna claro para o leitor, mas que não é evidente o suficiente no contexto da história para se considerar o Santiago um calhau com olhos. Um bocadinho para o tapado, com certeza, e excelente plasticina de moldar, mas não propriamente burro.

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