“Doida Não e Não!”, Manuela Gonzaga

capa

GONZAGA, Manuela – Maria Adelaide Coelho da Cunha: Doida Não e Não!, Lisboa, Bertrand, 2009

Sinopse: “Não há manicómios, não há cadeias, não há leis, não há homens que nos separem: porque, quanto mais imaginam fazê-lo, mais nos aproximam. Quando dois entes sofrem um pelo outro o que nós temos sofrido, apenas a morte tem esse poder, e para isso é necessário, ainda, que alêm da morte nada exista.”

Maria Adelaide Coelho, filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias. Mulher do administrador do mesmo jornal, o escritor Alfredo da Cunha. Presa num manicómio por um «crime de amor».

Opinião: Partindo de uma história verídica, o livro assemelha-se mais a um registo que a um romance. De facto, trata-se de dar a conhecer – ou relembrar – o percurso de Maria Adelaide e não de o romantizar. Para tal contribuiu sem dúvida a grande inserção de citações e excertos de documentos escritos pelos “participantes da trama”, inserção essa que ficou bem conseguida. No entanto, também a contextualização histórica se revelou fundamental: a compreensão dos acontecimentos da época, explicados e salientados ao longo das páginas deste livro, levam a que haja também uma melhor compreensão da história privada.

A nível de estrutura, temos uma divisão de dez partes – cada uma sendo uma fase do “processo” –, não faltando as respectivas notas finais. Os capítulos curtos falham a nível da narração: notam-se as vírgulas mal colocadas e as gralhas, revelando a necessidade de uma revisão mais cuidada.

Através deste relato relembramos tanto o grande poder do machismo e do dinheiro – que estiveram na base do encarceramento de Maria Adelaide –, como compreendemos a importância e influência que os jornais tinham conseguido conquistar nesta altura de Primeira República. Maria Adelaide, mulher que não se deixou submeter, soube usar a palavra a seu favor, algo que aqueles que contra ela estavam procuraram também fazer. O privado tornou-se público e a batalha deu-se pela palavra impressa.

O final do livro deixou-me com um travo doce-amargo na boca. Se por um lado gostaria de pensar que Maria Adelaide acabou feliz, por outro fica a lembrança da grande quantidade de mulheres saudáveis que não conseguiram sair da condição de “ineptas” que lhes foi imposta por interesse de terceiros. E se eu gostaria do consolo de “é coisa do passado”, histórias como a de Carlos Rodrigues rapidamente estilhaçam qualquer possibilidade de o fazer.

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