“Uma Família Inglesa”, Júlio Diniz

capa

DINIZ, Júlio – Uma Família Inglesa, Porto, Porto Editora, [1978]

Sinopse: Carlos, o filho de um comerciante inglês do Porto e Cecília, a filha do guarda-livros deste, encontram-se num baile de carnaval. Sem saber de quem se trata, Carlos apaixona-se por ela. É a irmã deste, Jenny que descobre tudo, e tenta proteger Cecília de quem é amiga, por recear que seja apenas mais uma aventura de Carlos. Contudo, ao convencer-se de que não é, acaba por proteger os dois e ajudá-los a chegar à felicidade. 

Opinião: Publicado em 1868, é com este livro que Júlio Diniz retrata o dia-a-dia portuense, na sociedade e no comércio, de uma família inglesa, burguesa de classe. É na primeira parte que tal se mostra mais evidente, com a apresentação quase caricatural das personagens – onde se vê um excesso dos estereótipos da época, como é o caso de Jenny, tão doce, tão angelical, tão santificada, e, no fundo, tão consciente do poder que tal a faz ter sobre a família e felizmente para a dita apenas usa a ser favor –, e o acompanhar que fazemos nas suas actividades diárias, o retrato da “normalidade” antes da grande paixão vir desestabilizar. E o que temos? Jenny, a irmã, o anjo do lar, brotando bondade em todas direcções, sem ninguém que não a ame e admire. Richard, o pai, o respeitável cavalheiro inglês, correcto senhor de negócios, que muito ama os filhos, e sempre acaba por os olhar com uma certa cegueira paternal, por mais dificuldade que supostamente terá a expressar os sentimentos ao filho. Carlos, ou Charles, o filho, o varão, o rebelde que passa as noites em discussões pseudo-intelectuais com os amigos pândegos, crentes que são poetas e livres corações. E o guarda-livros, o pilar do negócio da família, cujos únicos amores serão a filha e o trabalho, e ainda que abanando a cabeça em reprovação à estouvice de Carlos, o faz com um sorriso complacente, de quem conhece o bom coração do rapaz e até lhe acha graça.

E depois temos a Cecília, a filha do guarda-livros, o ponto de partida do autor para enaltecer a beleza portuguesa (ah, Julinho, seu malandro, conhecias bem o público!), a grande amiga de Jenny, a mulher que sempre lá esteve e a quem Carlos nunca tinha concedido especial atenção, ou vice-versa. Até, naturalmente, o autor tratar de lhes cruzar as acções de modo a que se vissem de um outro prisma, iniciando a segunda parte da narrativa, a parte que ainda fazendo o retrato da sociedade a que o autor se dispôs, se concentra no romance e suas atribulações – porque um romance não seria romance caso não tivesse antagonistas, sendo aqueles que mais se me destacaram, pela ironia subentendida mas mordaz, a coscuvilhice e o despeito de quem na verdade pouco ou nada teria a ver com o assunto. Mais um representar de uma característica tão nossa, que avança sobre os séculos.

Inicialmente moroso, acabou por se desenvolver numa leitura que me agradou, mais pela boa estrutura do enredo, pelo referido retrato da sociedade e ironia ou exageros humorísticos que propriamente pelo romance entre Carlos e Cecília.

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