“Terrir”, VVAA

capa

VVAA – Terrir, Paraná, Estronho, 2013

Sinopse: “O Ministério da Saúde não recomenda a leitura destes contos e quadradinhos para quem tem alergia a terror misturado com humor e muitos clichês. A mescla de elementos fantásticos com personagens clássicos e humor escrachado foi o desafio proposto aos autores, que jogaram as formalidades de lado e deixaram a criatividade fluir como sangue jorrando da jugular.”

Opinião: “Terrir” vem da junção “terror” e “rir”, tendo como base o uso de elementos típicos do terror como sendo comédia. Algo que não é novo nem incomum, atendendo à catrapachada de filmes de terror com o tipo de qualidade de fazer rir às lágrimas: A diferença é que aqui a comédia é proposital. E no geral, pareceu-me que bem conseguida. Naturalmente, considerei uns melhores que outros, sendo necessário manter em mente o quão pessoal o sentido de humor consegue ser.

Tratando-se de uma antologia, prosseguirei com algumas linhas acerca dos contos. Não comentarei nos quadradinhos por motivos de “não sei o suficiente do assunto para mandar bitaites”, no entanto, ressalvo que o sentido de humor não se ficou pelas histórias, merecendo particular atenção a numeração das páginas. Até aquelas em que houve preguiça de numerar.

“Contrato de Entendimento Mútuo”, Christian David: Dá a conhecer as cláusulas que constituem o contrato entre a Mocinha e o Monstro, ressalvando e fazendo um uso bem-humorado dos clichês mais usados, conhecidos, comentados e abusados. Uma boa escolha de abertura.

“Miolo ao Molho Pardo”, A. Z. Cordenonsi: A acção começa com o Sargento Gaudêncio a ser acordado pelo neto e um outro rapaz, ambos falando sobre “zombies”: um conceito que o Sargento demora a interiorizar, fazendo primeiro várias comparações antes de aceitar a nova criatura. E quando o aceita, parece ser mais por sentido prático que por outra coisa. A narrativa desenvolve-se essencialmente através do diálogo (e monólogos?), estando o humor na própria personagem e seu palavreado, o qual também pode ser lido como um crítica irónica.

“E a Culpa era do Mordomo?”, Celly Borges e Marcelo Amado: A história tem o seu pilar no clichê de mistério/terror do mordomo como culpado do crime. No entanto, apesar de todas as suas tentativas e sucessos, o infeliz assassino tem dificuldades a ser levado a sério pelas autoridades e por todos os outros que o rodeiam. De destacar os jogos de palavras, tanto em siglas de sociedades, como nas próprias personagens.

“As Aventuras de Arthur, o Viking, na Thorlândia”, Leandro Samora:Meio bretão, meio viking, Arthur conta ao leitor sobre a sua infância, a necessidade de se provar como um viking, e a decisão de partir em regresso à terra mãe. O destino, no entanto, acaba por se tornar no que o leitor reconhece como sendo o Brasil antes da chegada dos portugueses, gerando novas peripécias. Narrado em primeira pessoa, o humor baseia-se na visão – e descrições – que Arthur faz de si mesmo e do que o rodeia, evidenciado pelo desfasamento que o leitor consegue compreender entre as mesmas, e o que é mais provável de ser real.

“Rodelinha de Limão”, Inês Montenegro: Por motivos de “escrevi-o”, não comentarei sobre este conto.

“O Dia em que Dona Zazá Retornou”, Ramon Bacelar: Marta acorda uma noite para dar de caras com o marido – morto e enterrado já fazia um mês. Mas a visita não se encontra sozinha, e momentos depois a mãe de Marta, falecida no mesmo acidente que vitimou o genro, junta-se à festa. O conto desenvolve-se, então, em torno do encontro entre parentes e dificuldade de aceitação do facto de Marta ter continuado com a sua vida, assumindo uma estrutura e dramatismo de revelações a fazer lembrar uma novela. Em termos de pontuação, falhou nas vírgulas que devem anteceder um vocativo.

“Meu Primeiro Assassinato”, Gerson Balione: O conto inicia-se com uma estrutura de “encontro entre mentor-aluno”, tendo como personagens um assassino já experiente, e um aspirante a assassino, o nosso protagonista. Após o primeiro falhanço, segue-se uma sucessão de tentativas falhadas de assassinatos que vincam ainda mais o que o leitor já tinha apreendido: o protagonista é azarado e desajeitado demais, os seus esforços trazendo-lhe apenas o inverso do que deseja. O autor faz aqui uso pleno da ironia, ressalvando-a ainda mais com o final com o qual remata a história. Notam-se algumas falhas na revisão.

“O Lacaio Pródigo”, Rui Leite: Drácula revive, uma vez mais, para descobrir que, desta vez, o seu fiel lacaio se despedira e não estava mais ali para o servir. Uma tremenda inconveniência. Trata-se de um conto que consegue humor tanto pela ideia base que desenvolve, como, e particularmente, pelo estilo narrativo e fraseamento escolhido.

“Arrrggh!”, Ademir Pascale: Usualmente a fama de palrador vai para o taxista, mas aqui os papéis invertem-se: Pascale dá ao leitor um taxista calado, de olhar semicerrado e cigarro ao canto esquerdo da boca, acompanhado por um passageiro cujos monólogos dominam a narração. Um sem fim de palavras até o taxista perder a paciência e dar ao leitor aquilo que ele já desconfiava. Simples, mas engraçado, e com um final que até se pode classificar como amoroso.

“Modus Operandi”, Rodrigo Vinholo: Serial killer que se preze tem um método de agir, sendo que a dupla deste conto não é excepção. O inusual está no trabalho, até mesmo educação, de o explicar à vítima, informando-a sobre como ela se encaixa em todos os seus requisitos. Um diálogo divertido, com um bom twist final.

“Até que a Morte os Junte”, Emerson Dantas: Para um casal que já tinha perdido a fogosidade da relação, a aparição de um zombie é o que a reacende. O autor usa a comicidade de colocar a prioridade dos protagonistas nos problemas domésticos, quando se encontram rodeados por um perigo que muito provavelmente se revelará fatal.

“O Caçador”, Débora Gimenes: Começar por matar animais e posteriormente passar para pessoas não é algo incomum no perfil psicológico de muitos assassinos em série. Aqui, no entanto, o leitor volta a encontrar um assassino azarado que, falhando em animais, passa a falhar com pessoas. O final, apesar de não ser surpreendente, coaduna-se com a generalidade do conto.

“O Monstro do Lago Ness”, Gian Danton: A premissa baseia-se num Doutor paranoico e num Boris não muito inteligente, amante de gatos, em busca de provas sobre a existência do monstro do Loch Ness. O uso caricato das figuras clichês perfaz o humor do conto, o qual termina num tom que parece fazer troça do infeliz Doutor.

“O Jogo de Meu Bartolomeu e Cruel Cruelisvaldo”, Roger Gustavo:Através da interacção entre um empresário rico e o assassino contrato para o retirar deste mundo, o autor leva a cabo uma divertida crítica social.

“Dura Vida de Vampiro”, Bruno Anselmi Matangrano: Tentando entreter uma multidão e quiçá ter salvação, um vampiro conta a sua história (mentira ou verdade?). Destaca-se a narrativa rimada, dando ritmo e sonoridade à leitura.

“Há Cá Sortes!”, Inês Montenegro: Por motivos de “escrevi-o”, não irei comentar este conto.

“O Assassinato do Bilionário”, Vitor Basílio: O que era para ser um roubo acaba por se tornar no negociamento de um assassinato. No entanto, apesar de os planos correrem de feição para o bilionário, a incompetência dos assassinos acaba por lhes frustrar os planos. Por si só, o conto tem a sua piada. Na generalidade da antologia, contudo, o uso de azar/incompetência de assassinos é das premissas mais usadas (algo a que também eu própria não escapei).

“Bola Sete”, Chico Pascoal: Apesar da crise também afectar o negócio de assassinatos, o protagonista acaba por receber uma oferta. Aceitando-a, descobre talvez tarde demais que não é tão simples quanto parecia. Enredo bem estruturado e bom uso das personagens.

“A Enciclopédia do Cavaleiro da Terra Baixa”, Jhonatan Carneiro:Trata-se de uma paródia da Fantasia em geral, e de Senhor dos Anéis em particular.

“O Diário da Bruxa de Blair”, Rui Leite: Apesar de pegar na bruxa de Blair, o conto tem independência suficiente para ser lido e compreendido tanto por quem viu o filme como por quem não o viu. O título diz o que há para dizer sobre a premissa, a qual se desenvolve pegando em muitos clichês conhecidos sobre bruxas – e algumas referências, vulgo, patos – e usando-os como sendo algo tão natural e do dia-a-dia que chega à troça. Ademais, como universitária, não pude deixar de rir (e me identificar) com as notas académicas que acompanham os trechos do diário.

 “Cuca Vem Pegar”, Jonas Daggadol: Desagradada com a infantilização da sua imagem, Cuca rapta duas crianças, decidida a restaurar os velhos hábitos e crenças. O conto, no entanto, faz uso do choque entre a velha tradição e as novas tecnologias.

“Domingo com a Família”, Gerson Balione: A história começa com o aparecimento da avó, a qual já tinha sido enterrada. Apesar do inusual da situação, a família reage com normalidade e sentido prático, não se apercebendo do estranho comportamento da senhora, ou atribuindo-lhe razões lógicas. A partir daí, as situações sucedem-se, evoluindo da contaminação da família – à qual sobrevivem pai e filha – até à infecção geral da cidade. Um conto que se destaca pela boa estrutura do enredo e pelos detalhes que, não sendo forçados e inserindo-se bem na narração, dão ao leitor o conhecimento do que se está a passar antes de as próprias personagens o saberem.

“Pelas Barbas do Zumbi”, Daniel Borba: Narrado na primeira pessoa, o conto regista a queda de uma civilização e a ascensão de outra. É de particular relevo o ponto de vista escolhido e a escolha do tipo de civilização ascendente.

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