[Teatro] “Preocupo-me, Logo Existo”

existo

Título: Preocupo-me, Logo Existo

De: Eric Bogosian

Tradução e interpretação: Diogo Infante

Direcção cénica: Natália Luiza

Espaço cénico e figurinos: Maria João Castelo

Desenho de luz: João Cáceres Alves

Música e sonoplastia: João Gil

Produção executiva: Rui Calapez e Maria João Santos

Duração: Aproximadamente 80 minutos

Rating: M/12

Co-produção EGEAC/Cinema S.Jorge

Com o patrocínio do Montepio Geral

Sinopse: Ao longo de 1h15, Diogo Infante vai-se metamorfoseando em 8 personagens distintas, que podemos encontrar actualmente em muitas cidades ocidentais, apresentadas de forma caleidoscópica num confronto directo com o público, onde tabus e o absurdo de uma certa modernidade são expostos.

A universalidade do discurso e dos paradigmas que representa torna os textos de Bogosian profundamente actuais e pertinentes.

A apatia generalizada, a ausência e/ou contradição dos discursos, a ganância, a violência, o sexo, as drogas, a religião, a banalidade do quotidiano, e a procura de sentimentos para a vida são temas visados pelas suas personagens.

Todas usam o artifício do discurso directo para desabafar as suas frustrações e o público pode facilmente reconhecê-las ou identificar-se com elas.

Opinião: “Precisa de soltar o seu bebé interior” é o que a primeira personagem não parece cansar-se de nos repetir. Armando Silva, assim se chama a criatura, é baixinho, com óculos de fundo de garrafa, uma barriguinha já esférica, a fugir para a falta de cabelo, fato de tweed e lacinho (‘cause bowties are cool!), de passinhos pequeninos e constantemente a passar o lenço pelo nariz. Todos estes traços parecem exagerados em comparação com a figura de cartão em tamanho real dele mesmo – único acessório presente em palco para esta personagem em especial –, e um pouco mais adiante descobrimos porquê. Falando directamente com o público, como o farão todas as personagens que se lhe seguem, incentiva-o com grande convicção a tornar este mundo melhor através de actos egoístas. Não sei em relação aos restantes expectadores, eu ainda estou a ponderar responder “o meu bebé interior precisava de dormir” a um futuro atraso às aulas. I’m pretty sure it will work out. Toda a gente fica mais mansa com bebés, porquê que não com um interior? Quando entrar no mundo laboral, então é que uiui, será um mimo!

Segue-se-lhe um taxista (camionista?) de camisinha branca, crucifixo ao pescoço, boina a acompanhar todo o ar de quem escarra para o chão e ideias bem fixas sobre a razão da miséria do país – resumidas a imigrantes e homossexuais. O tal religioso muito temente a Deus que não vê qualquer incongruência entre isso e as ideias racistas e homofóbicas. E porque já que se fala de fé, eis a terceira personagem: “ok, este é o tipo de aristocrata rico que um comunista chamaria um mimo”. Não se tratou de política e a personagem cuja identidade manterei salvaguardada para quem estiver a planear assistir ao espectáculo, não era aristocrata. Riqueza já é outra conversa, mas talvez mais uma riqueza de outra ordem – em todo o caso, o senhor que parecia um dandy e tinha uma invejável bengala com cabeça de cavalo lançou-se num monólogo sobre, tsc tsc, vocês confiam a vossa sorte a um Deus que mandou espetar pregos nas mãos do próprio filho. Que acham que irá fazer convosco, que não lhe são nada?, atirando-nos com o seu cartão de negócios no final. Suspicious, my dear sir, suspicious.

A personagem que menos tempo esteve em palco, mas talvez aquela que arrancou mais risos de Eu não acredito nisto, é preciso ser-se muito estúpido para… foi o médico. A falar com o Armando Silva, aquele tal primeiro que pelos visto estava em medicação quando nos falou, daquelas com efeitos secundários a dar com um pau e que nos deixam a ponderar permanecer doentes, tal a força do “venha o Diabo e escolha.” A única razão pelo qual permaneço descansadinha em relação às minhas futuras idas ao Hospital é a convicção de que se fossem muito frequentes estes casos, metade da população já estaria morta, em vez de nas ruas a protestar contra a austeridade.

Dentro do mesmo assunto, ainda que de forma consideravelmente geral, caramba, é muito mau sinal quando já não nos admiramos de ver um músico (de rock?) evidentemente drogado/chapado/já de neurónios lixados/make your choice a perder-se num “porquê que não devem usar drogas” – e a falhar redondamente; diz que usar a maioria das palavras para contas histórias de como se diverte com as ganzas e de como as melhores músicas que alguma vez fez implicaram aspirar pó branco pelo nariz não ajuda à mensagem. Oh, e os índios. É preciso ajudar os índios da Amazónia: os pobres coitados não têm ipads e isso assim não pode ser.

E do tipo famoso, passa-se para o tipo-com-a-mania-que-é-bom-e-agindo-com-a-arrogância-correspondente que não sabia se haveria de chamar a atenção do seu interlocutor – o próprio Diogo Infante, imagina-se, além de nossas excelências, suponho – se para a bichice dos gestos (nãovoumencionarquemmefezlembrar), se para o parla piede “ai, não tens tempo para ver a minha peça de segunda categoria que é de primeira? Deves-te achar bom, deves… Sem um agente não eras nada, sem ninguém a ajudar não és nada, ai esse é o contacto do teu agente? Ai tão bom, ai sempre gostei de ti, anda ver a minha peça, ai tens de ir embora? Pois eu também tenho compromissos e estou aqui a dar-te o meu tempo, deves-te achar muito importante, deves…” (tambéaquinãovoumencionarquemmefezlembrar).

Ora a sinopse que escarrapachei ali em cima fala de oito personagens, e eu já vou para a última fazendo apenas sete… Well, ou aquilo contou quando só tivemos uma “voz” ou eu me esqueci de alguma… Conhecendo-me, esqueci-me e só me recordarei cerca de três minutos depois de actualizar o blog, portanto, bola para a frente! A última personagem aparece a falar-nos de camisa com alguns botões por apertar, a fazer ainda a gravata e em tudo a demonstrar ser um homem comum, do dia-a-dia, alguém que poderia estar muito bem sentado no lugar ao nosso lado a assistir ao espectáculo. É com ele que se apreende o porquê do título da peça – e é graças também a ele que eu não voltarei a comer pêssegos em calda do mesmo modo.

A peça é uma crítica, no sentido subtil de nos expor a personagens e situações que nos obrigam a pensar, a preocuparmo-nos e a formular juízos – fazendo-o entretendo e divertindo. O Diogo Infante, por sua vez, demonstrou uma grande capacidade de caracterização e representação. Numa altura em que uma grande parte da nova geração de actores e actrizes parece considerar o seu trabalho como decorar um texto e debitá-lo em frente à câmara, não me canso de elogiar e chamar atenção para aqueles que efectivamente dão valor ao ofício. A essência de cada uma das personagens foi muito bem apanhada e partilhada com a plateia – personagens que, como puderam ler, se diversificam muito entre si –, existindo uma actuação não apenas no próprio texto – e a capacidade de fazer as inflexões adequadas a cada uma das personagens já seria uma mais-valia por si só –, mas também a nível de expressão corporal: o modo de estar, de se movimentar, as expressões faciais, os gestos com as mãos, a posição dos braços, e afins. Ademais, com exclusão do mencionado poster em cartão do Armando Silva a acompanhar o mesmo, uma cadeira e um cabide com algumas peças de vestuário, nada mais existia no palco a fazer a ambientação. O espaço que envolvia cada uma das personagens foi conseguido com sucesso pela força da sugestão, interligando-se sons com os gestos do actor.

Definitivamente é uma peça que recomendo, muito bem conseguida e com uma excelente actuação. Num extra que os teatros pequenos de cidades pequenas têm as suas vantagens, nhanhanha, tive oportunidade de pedir autógrafo, fotografia e falar pouco, ok, mas só porque não fiquei até mais tarde com o Diogo Infante, que além de bom profissional, também é uma pessoa extremamente simpática, perfeitamente capaz de lidar com o público, vulgo, esta parte mais sociável da sua profissão.

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