“Super-Heróis”, VVAA

capa

VVAA – Super-Heróis, São Paulo, Draco, 2013

Sinopse: Super-Heróis é a coletânea da Editora Draco sobre estes seres capazes de nos inspirar por seus feitos assombrosos e sacrifícios em prol de um mundo melhor. Nessas 14 histórias ilustradas com pinturas à mão, a Justiça não escolhe campo de batalha, sejam os becos escuros de uma metrópole, os rincões afastados do interior brasileiro, uma Lisboa prestes a ser invadida por Napoleão ou a arena política onde se decide o destino da sociedade.

Descubra como estas incríveis histórias terminam! Para o alto e avante!

Opinião: Algo que a antologia se pode gabar de ter é variedade: desde o tipo de herói, ao ângulo abordado e ao formato narrativo que cada autor adopta no seu conto. Inicia-se com um prefácio dos organizadores, Gerson Lodi-Ribeiro e Luiz Felipe Vasques, onde se faz uma pequena introdução ao gênero e à sua adaptação para a literatura narrativa, visto que histórias de super-heróis se encontram bem mais associadas ao formato HQ. Sem se alongar em demasiada, cumpre o seu papel, dando uma base introdutória para os catorze contos que se seguem: todos acompanhados por ilustrações de Angelo de Capua.

Ficam a opinião individual de cada conto:

“Edição de Colecionador”, Romeu Martins: Ainda que a acção central da narrativa seja um diálogo, consegue despertar e manter o interesse do leitor. O autor faz bom uso de uma situação actual em que actos aparentemente beneméritos se revelam egoístas, e à medida que a acção avança nota-se o sucesso em mesclar elementos ancestrais com a modernidade. Destaca-se ainda o encaixe entre o título e o conto, e a complexidade na construção de Baron Noir, ou Barão Trevas, que cheguei a considerar no limbo enquanto herói: apenas o final o confirmou como tal.

“Novo Herói na Cidade”, Alex Ricardo Parolin: Narrado na primeira pessoa, alterna entre o presente da acção – centrado na missão que trará justiça/vingança ao narrador e protagonista – e o passado, partilhando com o leitor os momentos cruciais no nascimento e crescimento do herói Vulto. Tanto o enredo quanto Vulto e o seu modo se agir são clichés dentro das histórias de super-heróis. No entanto, pareceu-me ter sido algo feito propositadamente de modo a destacar o clássico dessas histórias numa ambientação e contextualização brasileiras.

“Ascensão e Cancelamento do Mais Infame Super-Grupo de Heróis da Terra”, Pedro Vieira: Desde o tipo de histórias, às personagens – incluindo os seus poderes e nomes heroicos –, às notas-de-rodapé, formato e constantes menções à comercialização, o conto é uma paródia ao formato mais divulgado de histórias de super-heróis: HQ. O humor é o ponto central do conto, e comigo teve efeito. É um género, contudo, ingrato, que muito depende do sentido de humor do leitor que lhe passar os olhos.

“Roda-Viva”, Gustavo Vicola: Começa e termina com um salvamento no século, onde tomamos conhecimento dos poderes e modo de agir do protagonista. Não me parece haver muito mais a dizer sobre a acção no presente do século XXI, sendo o mais interessante a analepse que toma o “meio” do conto: o herói nasceu na época da escravatura, sendo nesse período que a sua história se centra, tanto a familiar, quanto a dos inícios da sua vida enquanto herói, e o modo como chegou ao século actual. Gostei da premissa da história e da concepção da personagem. Contudo, julguei que ganharia mais em apostar mais noshow durante a analepse, e no tell durante a descrição do presente: inverter os modos narrativos dos dois momentos, portanto.

“O Dia de Todas as Provas”, João Rogaciano: O ataque de piratas à ilha do Porto Santo durante o século XVII é o evento que leva o protagonista a fazer pleno uso das suas capacidades inusuais. Apesar de as saber pouco comuns – o suficiente para não as comentar com os demais –, o herói parece encarar as suas capacidades com uma tal naturalidade que o leitor por vezes quase as vê como secundárias. Propositado ou não, acabou por ser o que mais apreciei no conto: fez com que as encarasse mais como um talento do herói do que como um poder. Uma perspectiva que para mim foi uma lufada de ar fresco.

Em termos narrativos, é geralmente agradável à leitura. Notei, no entanto, algumas falhas de pontuação.

“Herói das Urnas”, Roberta Spindler: Após uma carreira como super-herói, começa a carreira como político: sem que uma se separe verdadeiramente da outra, apesar da vontade d’O Mito. Um conto original, muito bem conseguido e com um final que se adequa à trama.

“O Doutor e o Monstro”, Gerson Lodi-Ribeiro: Uma história bem estruturada que mistura os elementos de super-heróis com aqueles que encontramos em narrativas de terror e fantasia. Apesar de não esconder as identidades das criaturas ao ponto de surpreender o leitor, consegue criar a dúvida de “qual é qual”. Tem, contudo, algumas falhas de pontuação, como a colocação da vírgula depois do “mas”.

“A Última Aventura do Pardal Mecânico”, Dennis Vinicius: Não é o único conto da antologia a centrar-se na aposentaria de um super-herói, mas é aquele que, tanto no enredo como na narração, faz a abordagem cómica. Longe dos seus dias de oiro, e acabando na corda-bamba da pobreza por escolhas tanto suas como dos outros – e incrivelmente comuns –, o Pardal Mecânico acaba por aproveitar a oportunidade inusitada para dar a volta.

“O Grande Golias”, Luiz Felipe Vasques: Um enredo interessante, uma estrutura sólida e personagens complexas. Apesar de ser um dos contos mais longos da antologia, considerei que precisava de mais espaço, tanto para desenvolver alguns dos episódios, como para conectar melhor outros. Talvez funcionasse melhor como uma noveleta.

“Pela Terceira Idade”, Inês Montenegro: Por motivos de “escrevi-o” não irei comentar sobre este conto.

“Sete Horas”, Gian Danton: De um modo credível e fazendo um bom equilíbrio entre tell e show, temos o que é mais uma redescoberta de poderes esquecidos do que uma descoberta ou adquirir propriamente ditos. A acção desenvolve-se no momento certo, após conhecermos o protagonista e terem sido semeados os detalhes que a indicavam, e as personagens estão bem construídas.

“Barlavento 1807”, Vitor Vitali: Na fuga da família real portuguesa para o Brasil ante a ameaça de Napoleão, Ladrão e Bobo planeiam um assalto. Ainda que de início um e outro pareçam ter um heroísmo pouco provável, o twist que os coloca em trabalhos é também o que revela o seu bom-coração. Não me pareceu que a contextualização temporal tivesse particular influência sobre a acção. Os acontecimentos, contudo, desenrolam-se de modo lógico.

“Verdade sobre Raio Vermelho: Uma Biografia”, Lucas Rocha: A história em si não foge ao clássico, tratando-se dos relatos, em primeira pessoa, mas momentos mais marcantes – tanto bons como maus – enquanto super-herói. A originalidade encontra-se no modo como esses relatos se aproximam às fases de uma vida comum, entrelaçando o real com a fantasia, e ao formato narrativo, que “pega emprestado” a ideia de gravações.

“Jaya e o Enigma de Pala”, Antonio Luiz M. C. Costa: A antologia fecha com ficção científica, sendo o conto que mais se centra na acção e descrição de uma missão, bem como nos raciocínios que desvendam o mistério por detrás da mesma, do que na forma narrativa ou das personagens propriamente ditas. Apesar de ter gostado da ideia subjacente à construção de Jaya e dos mecanismos que a rodeiam, julguei-a com uma certa irrealidade: demasiado perfeita, e sem falhas que lhe pudessem ser apontadas.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s