“Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos”, Ágata Ramos Simões

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SIMÕES, Ágata Ramos – Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos, Parede, Saída de Emergência, 2006 

Sinopse: Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos, irá provocar incontroláveis convulsões aos amantes das ditas avezinhas e a qualquer incauto que ainda não tenha compreendido as verdades do mundo.

É um clister moral, uma purga mal-pensante, um insulto ao bom-gosto, um gosto pelo insulto, um compêndio de palavras feias e um espelho de Portugal politicamente correcto em que o leitor habita. O Sr. Bentley não conhece travão de nada tem de ser sagrado.

Mais do que uma pedrada no charco, é um verdadeiro pontapé nas penduricalhas miudezas deste pântano à beira mar encalhado; portanto, leitor, acomode a coquilha sobre as joias da família, proteja os dentes, e prepare-se para a porrada, porque o Sr. Bentley é um peso-pesado.

Um Atlas que carrega com alegria sobre os ombros tudo o que de mais abjecto, medonho, mesquinho, estúpido e medíocre os portugueses têm… e, por isso, é um verdadeiro encanto. Pensando bem, caro leitor, tire daí a mãozinha; este livro não é para si! 

Opinião: Publicado há já uns anitos, o Sr. Bentley foi recentemente iluminado pelas luzes da ribalta – uma situação que tenho a certeza muito gozo lhe despertaria, quando a Caixa Geral de Depósitos, há última da hora, decide não arrancar com a oferta de obras aos clientes no Dia do Livro, projecto em parceira com a Saída de Emergência, por, notando as ditas obras, temer ferir as susceptibilidades da clientela. O Sr. Bentley figurava na lista das referidas obras, tendo sido particularmente destacado dada a imagem dos passaritos enrabados, pobres bichos. Tendo terminado agora a sua leitura, posso garantir que nenhum pássaro foi molestado nestas páginas, pelo menos não sexualmente – como armas de arremessos a casórios, já nada garanto. No entanto, tenho de dar a mão à palmatória: a Caixa ter-se-ia visto com sarilhos referentes à sua imagem caso tivesse andado a oferecer este livro indiscriminadamente. É que há leitores e leitores, e este livro não é para todos.

O Sr. Bentley desenvolve-se num cómico a cruzar o nonsense, tendo nos seus episódios, acções, falas e personagens uma crítica irónica, sarcástica, cruel, ora subtil ora o mais directa possível, sobre a sociedade actual – uma sociedade que pelos vistos tem mantido a actualidade das críticas há já sete anos, pelo menos. Tanto a personagem que dá nome ao livro, como o livro em si são política e impoliticamente incorrectos, facto que é deixado bem claro mal começamos a ler as primeiras páginas, onde me pareceu existir algum exagero – exagero esse que de vez em quando se faz sentir, mas acaba por ficar ofuscado pela generalidade –, possivelmente propositado para que o leitor não tenha dúvidas sobre o que contar daí em diante, estando, portanto, por sua conta e risco.

Estruturado em capítulos pequenos, com ilustrações a lembrar o século XIX a espreitar aqui e ali, segue um estilo de escrita descontraído e informal, usando e abusando o calão ao ponto de eu sentir ser meu dever garantir que a minha avó nunca lhe meta os olhos – embora agora que penso nisso, no meio de todo o “encanto” do Sr. Bentley, a linguagem tornar-se-lhe-ia secundária no meio da escandaleira.

Termino com uma vénia a Miss Joyce, uma senhora de classe, e das personagens que mais gostei de ler. De facto, achei curioso o modo como as personagens aqui se destacam, quando tão pouco espaço lhes é dado, dada a própria estrutura e tamanho do livro.

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